Maria Diamba
Para não apanhar mais
falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais:
Viram que sabia fazer tudo,
até molecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que ainda vem do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.
LIMA, J. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007.
O poema de Jorge de Lima sintetiza o percurso de vida de Maria Diamba e sua reação ao sistema opressivo da escravidão. A resistência dessa figura feminina é assinalada no texto pela relação que se faz entre:
A) o uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino.
B) a exploração sexual e a geração de novas escravas.
C) a prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente.
D) o prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África.
E) o medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.

Resolução em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura, Poesia negra, Interpretação de texto, Escravidão e resistência
📝 Tema/Objetivo Geral:
Analisar como o poema representa a resistência feminina frente à opressão escravocrata, com foco na linguagem como instrumento de autonomia
📊 Nível da Questão:
Médio — A questão exige sensibilidade leitora para perceber como a linguagem, usada ora como estratégia de sobrevivência, ora como expressão íntima, revela o desejo de liberdade.
🎯 Gabarito:
A
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📄 A questão pede que se identifique de que forma a resistência de Maria Diamba é construída no poema, considerando sua trajetória de vida e relação com o sistema escravocrata.
🎯 O objetivo é reconhecer que a fala da personagem tem função estratégica e simbólica: primeiro como ferramenta de adaptação, depois como expressão de desejo por liberdade.
📌 É fundamental observar como o uso da palavra muda ao longo do poema e o que isso revela sobre a personagem.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
🗣 Fala como resistência: Na literatura afro-brasileira, a palavra muitas vezes representa poder, identidade e subversão.
🔗 A linguagem pode ser usada tanto para sobreviver dentro do sistema opressor quanto para romper com ele simbolicamente.
📌 No poema, a fala inicial é estratégica: Maria diz que sabe cozinhar para não apanhar, usando a palavra como ferramenta de sobrevivência.
🌪 Já no final, sua fala solitária diante da “ventania do Sudão” remete ao passado ancestral e ao desejo de romper com as amarras impostas.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📖 O poema narra o percurso de Maria Diamba, mulher escravizada que, para se proteger, diz que sabe fazer bolos e assume diversos papéis.
👁🗨 Ela “não falou mais”, ou seja, se cala para suportar o sistema. Apenas diante da ventania do Sudão — símbolo da ancestralidade africana — ela volta a falar:
📌 “Falou que queria fugir / dos senhores e das judiarias deste mundo / para o sumidouro.”
🌍 Essa fala final é íntima, libertária e subjetiva — expressa seu desejo de escapar do sofrimento e reencontrar sua essência.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 A trajetória de Maria Diamba é marcada por adaptação, silenciamento e resistência.
🔧 Ela usa a fala no início como uma ferramenta para evitar a violência, dizendo que sabe cozinhar.
🤐 Depois, o silêncio simboliza a submissão forçada, um tipo de apagamento da individualidade.
🌬 No fim, o reencontro com a ancestralidade desperta sua voz novamente — agora, não mais para servir, mas para expressar um desejo íntimo de liberdade e rompimento com a opressão.
✊ Isso mostra que a fala é seu instrumento de autonomia e resistência, mesmo que seja dirigida apenas a si mesma ou aos elementos da natureza.
Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) O uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino.
✅ Correta. A fala marca o início e o fim da trajetória de Maria: primeiro como estratégia de sobrevivência, depois como afirmação de liberdade e desejo de fuga.
B) A exploração sexual e a geração de novas escravas.
❌ Errada. O poema não menciona exploração sexual ou reprodução forçada.
C) A prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente.
❌ Errada. Cozinhar foi uma forma de proteção, não de ascensão.
D) O prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África.
❌ Errada. A ventania remete ao Sudão, mas não é descrita com prazer nem como plano de retorno, e sim como evocação simbólica.
E) O medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.
❌ Errada. Apesar de haver sofrimento, o texto foca no desejo de liberdade, não no medo da morte como motivador principal.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
💬 O poema de Jorge de Lima retrata a trajetória de Maria Diamba como símbolo de muitas mulheres escravizadas: silenciadas, usadas, adaptadas — mas não vencidas. Sua fala final, solitária e rebelde, expressa seu desejo de romper com a opressão e reafirmar seu direito à liberdade.
🔍 Resumo Final: A alternativa correta é a letra A, pois é a transformação do uso da fala que evidencia a resistência de Maria Diamba — da submissão à afirmação do desejo de decidir o próprio destino, mesmo que isso signifique desaparecer no “sumidouro” para escapar das “judiarias deste mundo”.