Um conto de palavras que valessem mais por sua modulação que por seu significado. Um conto abstrato e concreto como uma composição tocada por um grupo instrumental; límpido e obscuro, espiral azul num campo de narcisos defronte a uma torre a descortinar um lago assombrado em que o atirar uma pedra espraia a água em lentos círculos sob os quais nada um peixe turvo que é visto por ninguém e no entanto existe como algas do oceano. Um conto-rastro de uma lesma também evento do universo qual a luz de um quasar a bilhões de anos-luz; um conto em que os vocábulos são como notas indeterminadas numa pauta; que é como bater suave e espaçado de um sino propagando-se nos corredores de um mosteiro […]. Um conto noturno com a fulguração de um sonho que, quanto mais se quer, mais se perde; é preciso resistir à tentação das proparoxítonas e do sentido, a vida é uma peça pregada cujo maior mistério é o nada. SANT’ANNA, S. Um conto abstrato. In: O voo da madrugada. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
Utilizando o recurso da metalinguagem, o narrador busca definir o gênero conto pelo procedimento estético que estabelece uma:
A) confluência de cores, destacando a importância do espaço.
B) composição de sons, valorizando a construção musical do texto.
C) percepção de sombras, endossando o caráter obscuro da escrita.
D) cadeia de imagens, enfatizando a ideia de sobreposição de sentidos.
E) hierarquia de palavras, fortalecendo o valor unívoco dos significados.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de texto, Metalinguagem, Figuras de linguagem, Estilo literário.
📝 Tema/Objetivo Geral: Identificar o uso da metalinguagem como forma de definição estética do conto, com ênfase na multiplicidade de sentidos construídos pelas imagens.
📊 Nível da Questão: Difícil
🎯 Gabarito: D
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
A questão propõe a identificação do efeito da metalinguagem no texto, ou seja, como o narrador reflete sobre o próprio fazer literário, especificamente sobre o gênero conto. O foco está no procedimento estético adotado: qual é o critério de construção textual evidenciado no trecho?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
- Metalinguagem ocorre quando um texto fala de si mesmo ou do próprio ato de criação. Neste caso, o narrador descreve como deveria ser um conto, ou seja, o objeto do texto é o próprio texto.
O trecho faz uso de várias figuras sensoriais e imagens poéticas, como sons, luzes, movimentos e formas, o que produz uma experiência mais ligada à sensação do que ao significado literal. A ideia central não é atribuir sentido fixo às palavras, mas brincar com suas múltiplas possibilidades, sobrepondo imagens abstratas, sensações visuais, auditivas e táteis, como em uma pintura ou composição musical.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
Expressões como “modulação mais que significado”, “espiral azul”, “peixe turvo que é visto por ninguém e no entanto existe”, “vocábulos como notas indeterminadas” e “bater suave e espaçado de um sino” revelam que a intenção não é contar uma história convencional. Ao contrário, o narrador sobrepõe imagens, brinca com a linguagem, e constrói o conto como algo atmosférico, sensorial, fluido — como um rastro, um som, uma visão.
📌 Isso tudo reforça a proposta estética de um conto-efeito, em que o que importa não é o enredo ou o sentido lógico, mas a experiência sensorial múltipla que ele provoca.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Ao dizer que o conto “vale mais por sua modulação que por seu significado”, o narrador propõe um texto que se define por ritmo, sugestão, e não por sentido fixo.
- A sucessão de imagens e comparações (“espiral azul”, “quasar”, “rastro de lesma”, “sino no mosteiro”) cria uma cadeia poética que amplia os sentidos possíveis e não os limita a uma única interpretação.
📌 A metalinguagem, portanto, serve aqui como uma ferramenta de reflexão sobre o estilo, sugerindo que o conto ideal é aquele que gera experiência estética e não explicação racional.
Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) confluência de cores, destacando a importância do espaço.
❌ Incorreta. Apesar de haver imagens visuais, o texto não foca na espacialidade nem na cor como eixo central.
B) composição de sons, valorizando a construção musical do texto.
❌ Parcial. Há musicalidade e ritmo, mas esse é um dos recursos, não o foco principal.
C) percepção de sombras, endossando o caráter obscuro da escrita.
❌ Errada. O texto mistura luz e sombra, clareza e obscuridade, mas isso é parte da multiplicidade de sentidos, não o fim em si.
D) cadeia de imagens, enfatizando a ideia de sobreposição de sentidos.
✅ Correta. O texto é construído a partir de imagens sucessivas e poéticas, que criam uma sobreposição de sentidos e valorizam a experiência estética mais que o significado literal.
E) hierarquia de palavras, fortalecendo o valor unívoco dos significados.
❌ Errada. O texto faz justamente o oposto: rompe com o sentido unívoco e valoriza a ambiguidade e a multiplicidade de interpretações.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 O texto apresenta um exercício de metalinguagem, no qual o narrador propõe uma definição poética e sensorial do conto, marcado pela superposição de imagens e sentidos. O foco está em construir um conto mais abstrato do que explicativo, mais musical do que racional. A alternativa correta é a D.
🔍 Resumo Final: O trecho utiliza metalinguagem para descrever o conto como uma construção estética baseada em imagens e sensações, não em significados fixos. Isso caracteriza uma narrativa que sobrepõe sentidos por meio de uma cadeia de imagens poéticas, como mostra a alternativa D.