Dois parlamentos
Nestes cemitérios gerais
não há morte pessoal.
Nenhum morto se viu
com modelo seu, especial.
Vão todos com a morte padrão,
em série fabricada.
Morte que não se escolhe
e aqui é fornecida de graça.
Que acaba sempre por se impor
sobre a que já medrasse.
Vence a que, mais pessoal,
alguém já trouxesse na carne.
Mas afinal tem suas vantagens
esta morte em série.
Faz defuntos funcionais,
próprios a uma terra sem vermes.
MELO NETO, J. C. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 (fragmento).
A lida do sertanejo com suas adversidades constitui um viés temático muito presente em João Cabral de Melo Neto. No fragmento em destaque, essa abordagem ressalta o(a):
A) inutilidade de divisão social e hierárquica após a morte.
B) aspecto desumano dos cemitérios da população carente.
C) nivelamento do anonimato imposto pela miséria na morte.
D) tom de ironia para com a fragilidade dos corpos e da terra.
E) indiferença do sertanejo com a ausência de seus próximos.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de texto, Literatura brasileira, Poesia social, Temas recorrentes na obra de João Cabral de Melo Neto.
📝 Tema/Objetivo Geral: Analisar como o poema aborda o apagamento da individualidade na morte como reflexo das condições de miséria social.
📊 Nível da Questão: Médio
🎯 Gabarito: C
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
A questão pede para identificar qual ideia é ressaltada no fragmento do poema, considerando o viés temático da obra de João Cabral de Melo Neto, conhecido por sua crítica social direta e seca, especialmente sobre o sofrimento do povo nordestino. O objetivo é perceber como a morte é tratada como reflexo da vida anônima e miserável.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
- A obra de João Cabral de Melo Neto é marcada pela contenção lírica e pelo engajamento social, com ênfase em temas como seca, miséria e desumanização.
O poema em questão trata da padronização da morte nos “cemitérios gerais”, onde não há espaço para a individualidade ou para qualquer rito personalizado. Isso reflete a impessoalidade imposta pela pobreza extrema, que iguala todos os mortos — um nivelamento pelo abandono social.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
- O eu lírico afirma que “não há morte pessoal” nesses cemitérios — ou seja, a morte não carrega identidade, memória ou singularidade.
- A expressão “morte padrão, em série fabricada” cria uma metáfora com a lógica industrial, sugerindo que os mortos são como produtos produzidos em massa, sem valor individual.
- Mesmo quem “trouxesse na carne” uma morte pessoal, fruto de sua história, acaba sendo engolido pela morte padronizada — ou seja, pelo anonimato social.
📌 A referência a “defuntos funcionais” e “terra sem vermes” sugere desumanização, mas também uma crítica ao destino de quem viveu em condições precárias e morre sem qualquer dignidade.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
A imagem da morte coletiva, impessoal e gratuita é usada para denunciar a realidade desumanizante vivida pelos pobres, especialmente no Nordeste — tema constante na obra do poeta.
A “morte padrão” representa o apagamento da história e da individualidade dessas pessoas, niveladas em vida pela miséria e na morte pela ausência de rituais, lápides ou qualquer memória que as diferencie.
Assim, o poema critica a despersonalização imposta pelas condições sociais, e a morte se torna um símbolo do descaso — tão impessoal quanto a vida de exclusão que os antecedeu.
Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) inutilidade de divisão social e hierárquica após a morte.
❌ Parcial. O texto não trata da inutilidade da hierarquia, mas do anonimato gerado pela miséria — é uma questão de invisibilidade, não de igualdade.
B) aspecto desumano dos cemitérios da população carente.
❌ Embora o texto remeta a um contexto de pobreza, o foco não está nos cemitérios em si, mas no significado simbólico da morte anônima.
C) nivelamento do anonimato imposto pela miséria na morte.
✅ Correta. O poema trata da uniformização da morte como consequência da vida miserável, destacando a perda da individualidade diante da pobreza.
D) tom de ironia para com a fragilidade dos corpos e da terra.
❌ Incorreta. Não há foco na fragilidade dos corpos, nem tom irônico predominante. O tom é crítico e direto.
E) indiferença do sertanejo com a ausência de seus próximos.
❌ Errada. O poema não trata do sentimento dos vivos, mas da condição impessoal dos mortos — o foco está no apagamento social.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 O poema de João Cabral de Melo Neto constrói uma imagem simbólica da morte impessoal e padronizada como reflexo da miséria. O texto critica a perda da identidade mesmo após a morte, o que revela um processo de desumanização social vivido em vida e reafirmado na morte. Por isso, a alternativa correta é a C.
🔍 Resumo Final: O poema usa a imagem da morte padronizada para expressar o anonimato social resultante da miséria, tema central na poética de João Cabral. A crítica é clara: a falta de individualidade na morte apenas reforça o apagamento de quem viveu à margem. Gabarito: C.