O espírito humano controla as máquinas cada vez mais potentes que criou. Mas a lógica dessas máquinas artificiais controla cada vez mais o espírito dos cientistas, sociólogos, políticos e, de modo mais abrangente, todos aqueles que, obedecendo à soberania do cálculo, ignoram tudo o que não é quantificável, ou seja, os sentimentos, sofrimentos, alegrias dos seres humanos. Essa lógica é assim aplicada ao conhecimento e à conduta das sociedades, e se espalha em todos os setores da vida.
MORIN, E. O método 5: a humanidade da humanidade. Porto Alegre: Sulina, 2012 (adaptado).
No contexto atual, essa crítica proposta por Edgar Morin se aplica à
A) intensificação das relações interpessoais.
B) descentralização do poder econômico.
C) fragmentação do mercado consumidor.
D) valorização do paradigma tecnológico.
E) simplificação das atividades laborais.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Sociologia Contemporânea, Filosofia da Técnica, Racionalidade Moderna, Paradigma Tecnológico, Edgar Morin e Crítica à Razão Técnica.
🎯 Nível da Questão: Médio.
✅ Gabarito: Letra D.
Resolução Passo a Passo
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
O comando da questão pede que se relacione a crítica feita por Edgar Morin no texto com um fenômeno do contexto atual. Isso exige uma transposição entre a ideia crítica do autor e uma manifestação contemporânea dessa crítica.
🔍 Palavras-chave do enunciado e do texto:
- “Espírito humano controla as máquinas”: referência à autonomia humana inicial.
- “Mas a lógica dessas máquinas controla o espírito dos cientistas, sociólogos, políticos…”: crítica à inversão, onde a racionalidade técnica toma o lugar da subjetividade humana.
- “Soberania do cálculo” e “ignoram o que não é quantificável”: denúncia de uma mentalidade que valoriza apenas o que pode ser medido, descartando emoções, afetos e sentidos não mensuráveis.
- Objetivo da questão: identificar qual fenômeno atual representa essa crítica feita por Morin ao predomínio da lógica técnico-científica sobre os aspectos subjetivos da vida.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Para compreender a crítica de Morin, é fundamental entender dois conceitos centrais:
| Conceito | Explicação Didática |
|---|---|
| Paradigma Tecnológico | Conjunto de valores e práticas centrados na eficiência, automação, cálculo, controle e quantificação dos processos sociais e produtivos. Ele molda a forma como vivemos, pensamos e nos relacionamos. |
| Racionalidade Técnica (ou instrumental) | Termo que designa um modo de pensar voltado para fins práticos e mensuráveis, em que tudo é analisado segundo sua utilidade e eficiência, negligenciando valores éticos, afetivos e subjetivos. |
🧠 Edgar Morin critica o uso excessivo da racionalidade técnica, onde a lógica das máquinas e da quantificação passa a moldar o comportamento humano e as decisões sociais, em detrimento da subjetividade e da complexidade humana.
🧱 Essa crítica está conectada a pensadores como Max Weber, que já falava da “gaiola de ferro da racionalidade”, e à Escola de Frankfurt, que criticava a “razão instrumental”.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📖 O texto de Morin apresenta uma inversão: embora o ser humano tenha criado a máquina, agora é a lógica da máquina que comanda o ser humano.
Frases-chave e sua interpretação:
- “A lógica dessas máquinas artificiais controla cada vez mais o espírito dos cientistas, sociólogos, políticos…” → Isso mostra que não apenas a tecnologia influencia o mundo material, mas também o modo como pensamos e decidimos.
- “Soberania do cálculo” → A lógica numérica, quantitativa, toma o lugar da sensibilidade e da subjetividade.
- “Ignoram tudo o que não é quantificável” → A crítica está voltada à redução da experiência humana ao que pode ser medido ou sistematizado, desconsiderando a riqueza da experiência emocional, ética e simbólica.
🧠 O texto é um alerta sobre os limites de um mundo governado pela eficiência e pela técnica, onde os afetos, a ética e o sentido humano são ignorados.
Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução
Vamos analisar uma por uma com os símbolos visuais:
A) intensificação das relações interpessoais 🔴
➡️ Errada. Morin não fala de aumento nas interações humanas. Pelo contrário, ele sugere que o aspecto humano (afetos, subjetividade) está sendo negligenciado.
Como poderia estar certa?
Se dissesse “fragilização das relações interpessoais em razão da lógica técnica”, poderia se aproximar do argumento do texto.
B) descentralização do poder econômico 🔴
➡️ Errada. Essa alternativa trata de economia política, enquanto o foco do texto está na cultura, na ciência e na lógica racionalista.
Como poderia estar certa?
Se discutisse como a tecnologia concentra (e não descentraliza) o poder em grandes corporações digitais, poderia ser explorável.
C) fragmentação do mercado consumidor 🔴
➡️ Errada. Embora a fragmentação possa ser um efeito colateral da tecnologia, o texto não aborda consumo, marketing ou mercado.
Como poderia estar certa?
Se relacionasse essa fragmentação à customização algorítmica e à lógica das máquinas, teria maior pertinência.
D) valorização do paradigma tecnológico 🟢
➡️ Correta. Essa alternativa expressa com precisão a crítica de Morin: vivemos sob o predomínio de um paradigma técnico-científico que relega o humano, o afetivo, o ético e o simbólico a um segundo plano.
🧩 Está diretamente alinhada com os termos do texto: “soberania do cálculo”, “lógica das máquinas”, “controle do espírito”.
E) simplificação das atividades laborais 🔴
➡️ Errada. O texto não discute o mundo do trabalho diretamente. Ainda que a automação simplifique tarefas, o foco da crítica é existencial e epistêmico, não produtivo.
Como poderia estar certa?
Se abordasse a desumanização do trabalho causada pela lógica da eficiência e automação, poderia estar mais próxima.
Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
🧠 A crítica de Edgar Morin nos convida a refletir sobre como a lógica do cálculo, da técnica e da eficiência passou a dominar nosso pensamento e nossas práticas sociais, substituindo a sensibilidade humana por algoritmos e métricas.
🌐 Em vez de meramente usarmos a tecnologia, estamos sendo moldados por ela, e isso implica na valorização do paradigma tecnológico como referência dominante — mesmo quando isso significa negligenciar sentimentos, empatia e sentido.