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Questão 71 caderno azul do ENEM 2020 PPL – Dia 1

No Brasil, após a eclosão da Bossa Nova, no fim dos anos 1950 — quando efetivamente a canção popular começou a ser objeto de debate e análise por parte das elites culturais — desenvolveram-se duas principais vertentes interpretativas da nossa música: a vertente da tradição e a vertente da modernidade, dualismo que não surgiu nesta época e nem se restringe ao tema da produção musical. Desde pelo menos 1922, a tensão entre “tradicional” e “moderno” ocupa o centro do debate político-cultural no país, refletindo o dilema de uma elite em busca da identidade brasileira.

ARAÚJO, P. C. Eu não sou cachorro, não. Rio de Janeiro: Record, 2013.

A manifestação cultural que, a partir da década de 1960, pretendeu sintetizar o dualismo apresentado no texto foi:

A)  Jovem Guarda, releitura do rock anglófono com letras em português.

B)  Samba-canção, combinação de ritmos africanos com tons de boleros.

C)  Tropicália, junção da música pop internacional com ritmos nacionais.

D)  Brega, amostra do dia a dia dos setores populares com temas românticos.

E)  Cancioneiro caipira, retrato do cotidiano do homem do campo com melodias tristes.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
História do Brasil (Cultura e Sociedade nos anos 60), Movimentos Culturais, Literatura (Modernismo).

Tema/Objetivo Geral:
Identificar o movimento musical brasileiro que retomou a proposta antropofágica de 1922, misturando o arcaico (nacional) com o moderno (estrangeiro) para criar uma identidade cultural híbrida.

Nível da Questão:
Médio.
Por que está neste nível? Exige que o aluno diferencie Jovem Guarda (apenas moderno/estrangeiro) de Tropicália (síntese moderno + tradicional). É uma confusão muito comum entre estudantes.

Gabarito:
(C) Tropicália, junção da música pop internacional com ritmos nacionais.
Resumo: A Tropicália foi o movimento que “comeu” o Rock (modernidade) e misturou com o Baião/Samba (tradição), criando uma síntese, ao contrário dos outros movimentos que escolhiam apenas um dos lados.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
O texto fala de uma briga cultural histórica: “Devemos ser puramente brasileiros (Raiz/Tradição) ou devemos copiar o que vem de fora (Pop/Modernidade)?”. A questão pergunta: Qual movimento dos anos 60 parou de brigar e decidiu misturar as duas coisas?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um jantar.

  • Tradição quer servir apenas Feijoada.
  • Modernidade quer servir apenas Hambúrguer.
  • O movimento que a questão procura é aquele cozinheiro maluco que decidiu fazer um Hambúrguer de Feijoada. Ele não escolheu um lado; ele misturou os dois para criar algo novo.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  1. Entender o cenário musical dos anos 60 (a “Era dos Festivais”).
  2. Lembrar quem eram os “puristas” (defensores da música nacional) e quem eram os “alienados” (defensores do rock).
  3. Identificar quem cruzou a linha e misturou tudo.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos abrir o Dossiê da Música Brasileira.

📂 OS TRÊS TIMES DOS ANOS 60

  1. A MPB Tradicional (Os Puristas):
    • Lema: “Abaixo a guitarra elétrica! Viva o violão e o samba!”
    • Representantes: Elis Regina (na época da Passeata contra a Guitarra), Edu Lobo. Defendiam a “pureza” da cultura nacional contra o imperialismo americano.
  2. A Jovem Guarda (Os Modernos/Iê-Iê-Iê):
    • Lema: “Quero que tudo vá pro inferno! Vamos curtir o Rock.”
    • Representantes: Roberto Carlos, Erasmo Carlos. Copiavam a estética dos Beatles e o Rock americano. Não ligavam para a tradição nordestina ou o samba.
  3. A TROPICÁLIA (A Síntese):
    • Lema: “Eu organizo o movimento…” (Caetano Veloso).
    • A Estratégia: Antropofagia. Retomar a ideia de 1922 (Oswald de Andrade): engolir a cultura estrangeira (Rock, Guitarra Elétrica) e misturá-la com a cultura profunda do Brasil (Berimbau, Baião, Vicente Celestino).
    • O Resultado: Uma música que é, ao mesmo tempo, super moderna e super brasileira.

Conceito Chave:
Síntese = Tese (Tradição) + Antítese (Modernidade) = Resultado Novo (Tropicália).


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

O texto cita: “Desde pelo menos 1922, a tensão entre ‘tradicional’ e ‘moderno’ ocupa o centro do debate”.
Isso é uma pista gigante! Em 1922, os modernistas (Semana de Arte Moderna) propuseram a mistura.
Nos anos 60, quem retomou a bandeira de 1922?

A Análise do Detetive:
O Tropicalismo chocou o público exatamente por colocar uma guitarra elétrica (símbolo do rock/imperialismo) tocando junto com um arranjo de orquestra e letras complexas sobre o Brasil arcaico.
A música “Alegria, Alegria” (Caetano) ou “Domingo no Parque” (Gil) são os exemplos perfeitos dessa síntese. Gil colocou a guitarra elétrica junto com o berimbau da capoeira. Isso é a síntese pedida.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Muitos alunos marcam a Jovem Guarda (A).
Por que caem? Porque a Jovem Guarda era “moderna”.
Onde está o erro? A Jovem Guarda era apenas moderna. Ela ignorava a tradição (não tinha samba, baião ou folclore nas músicas do Roberto Carlos dessa época). A questão pede a SÍNTESE (mistura), não apenas um dos lados.

A Bússola (O Perfil do Culpado):
Síntese do raciocínio: Procuramos o movimento que uniu o Brasil arcaico com o Pop mundial.
Expectativa: Tropicalismo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, mistura de ritmos.


4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos examinar os suspeitos.

  • A) Jovem Guarda, releitura do rock anglófono com letras em português.
    • Análise: A Jovem Guarda representava o polo da modernidade pura e simples (copiar os Beatles/EUA). Eles não estavam interessados em debater a identidade brasileira ou misturar isso com ritmos regionais. Faltou a parte da “tradição” para haver síntese.
    • Diagnóstico do Erro: Visão parcial (Escolheu apenas um lado do dualismo).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • B) Samba-canção, combinação de ritmos africanos com tons de boleros.
    • Análise: O Samba-canção (anos 40/50, “música de dor de cotovelo”) antecede o debate explosivo dos anos 60. Ele é mais ligado à tradição urbana e influências latinas, mas não incorpora o “pop rock” ou a guitarra elétrica, que eram os símbolos da modernidade na época citada.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Movimento anterior ao auge do debate citado).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) Tropicália, junção da música pop internacional com ritmos nacionais.
    • Análise: Perfeito. A Tropicália pegou a guitarra elétrica dos Beatles (pop internacional) e misturou com o baião de Luiz Gonzaga e o samba (ritmos nacionais). Foi a “geleia geral” que uniu o Brasil arcaico ao Brasil moderno.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

  • D) Brega, amostra do dia a dia dos setores populares com temas românticos.
    • Análise: O “Brega” (termo que surge depois, muitas vezes pejorativo) foca no romântico popular. Embora misture elementos, não tinha a proposta intelectual e política de “sintetizar o dualismo” e discutir a identidade brasileira como a Tropicália teve.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao tema (Foca no cotidiano, não no debate cultural da elite).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • E) Cancioneiro caipira, retrato do cotidiano do homem do campo com melodias tristes.
    • Análise: Isso representa o polo da tradição pura (raiz). O caipira raiz rejeitava a urbanização e a modernidade pop. Não houve síntese aqui, apenas preservação.
    • Diagnóstico do Erro: Visão parcial (Escolheu apenas o lado da tradição).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Tropicália foi o “liquidificador cultural” dos anos 60, provando que ser brasileiro não é rejeitar o estrangeiro, mas sim devorá-lo e transformá-lo em algo nosso.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🎸(Guitarra) + 🥥(Bahia) = 🍍 Tropicália.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Hoje, vemos essa mesma lógica no Funk Carioca ou no Tecnobrega. Eles pegam batidas eletrônicas internacionais (Miami Bass, Techno) e misturam com a percussão e a vivência da favela ou do Pará, criando algo único. Anitta e Pabllo Vittar são, de certa forma, “netas” da Tropicália.

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