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Questão 28, caderno azul do ENEM PPL 2019

O craque crespo

Desde que Neymar despontou no futebol, uma de suas marcas registradas é o cabelo. Sempre com um visual novo a cada campeonato. Mas nesses anos de carreira ainda faltava o ídolo fazer uma aparição nos gramados com seu cabelo crespo natural, que ele assumiu recentemente para a alegria e a autoestima dos meninos cacheados que sonham ser craques um dia.

É difícil assumir os cachos e abandonar a ditadura do alisamento em um mundo onde o cabelo liso é tido como o padrão de beleza ideal. Quando conseguimos fazer a transição capilar, esse gesto nos aproxima da nossa real identidade e nos empodera. Falo por experiência própria. Passei 30 anos usando cabelos lisos e já nem me lembrava de como eram meus fios naturais. Recuperar a textura crespa, para além do cuidado estético, foi um ato político, de aceitação, de autorreconhecimento e de redescoberta da minha negritude. 

O discurso dos fios naturais tem ganhado uma representação cada vez mais positiva, valorizando a volta dos cachos sem cair no estereótipo do “exótico”, muito comum no Brasil. 

O cabelo crespo, definitivamente, não é uma moda passageira. Torço que para Neymar também não seja. Alexandra Loras é ex-consulesa da França em São Paulo, empresária, consultora de empresas e autora de livros.

LORAS, A. O craque crespo. Disponível em: http://diplomatique.org.br. Acesso em: 1 set. 2017.

Considerando os procedimentos argumentativos presentes nesse texto, infere-se que o objetivo da autora é

A) valorizar a atitude do jogador ao aderir à moda dos cabelos crespos.

B) problematizar percepções identitárias sobre padrões de beleza.

C) apresentar as novas tendências da moda para os cabelos.

D) relatar sua experiência de redescoberta de suas origens.

E) evidenciar a influência dos ídolos sobre as crianças.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

Interpretação de texto, Análise do discurso, Representações sociais, Identidade e padrões estéticos, Procedimentos argumentativos

🎯 Nível da Questão: Médio.

Gabarito: Letra B.


📖 Resolução Passo a Passo

🌀 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo

O comando da questão solicita que identifiquemos o objetivo da autora, com base nos procedimentos argumentativos do texto.

🔍 Palavras-chave:

  • “objetivo da autora” → foca no intento comunicativo.
  • “procedimentos argumentativos” → foca como a autora constrói a mensagem.

🎯 Objetivo da questão: Avaliar se o leitor é capaz de interpretar o propósito central do texto e compreender os mecanismos argumentativos usados para abordar padrões sociais ligados à estética e identidade racial.


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Para entender bem essa questão, é preciso dominar:

💡 Padrões de beleza → São modelos estéticos socialmente impostos (como o cabelo liso), que podem marginalizar outras formas de expressão estética (como o cabelo crespo).

💡 Identidade → Representa o reconhecimento de si, especialmente em relação à origem, raça e pertencimento social. A autora trata o cabelo crespo como um símbolo de autoaceitação e resgate da identidade negra.

💡 Empoderamento → Refere-se ao fortalecimento da autoestima, autonomia e orgulho, principalmente em grupos historicamente oprimidos.

💡 Ato político → Quando um gesto pessoal (como assumir o cabelo natural) ganha significado social e coletivo.

📌 Esse texto transcende a aparência física e problematiza padrões que afetam subjetividades e a construção de identidade.


🧠 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

Vamos destrinchar o texto com foco:

📍 “É difícil assumir os cachos… onde o cabelo liso é o padrão de beleza ideal.”
➡ Aqui a autora denuncia uma pressão estética social, que impõe o liso como superior.

📍 “Recuperar a textura crespa… foi um ato político”
➡ Revela que a transição capilar é também resgate de identidade racial.

📍 “Valorizando a volta dos cachos sem cair no estereótipo do ‘exótico’”
➡ Critica a representação do cabelo crespo apenas como “exótico”, o que reforça estigmas, em vez de normalizar.

📍 “Torço que para Neymar também não seja (uma moda passageira)”
➡ Neymar é usado como exemplo simbólico, mas o foco não é ele — é o que sua atitude representa.

📌 O texto não fala apenas de cabelo. Fala de luta por reconhecimento, contra a padronização estética, e de uma consciência identitária crescente.


🔎 Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução

A) valorizar a atitude do jogador ao aderir à moda dos cabelos crespos
🔴 Errada. O texto até menciona Neymar, mas ele é só um exemplo, não o foco. A autora está mais preocupada com os impactos sociais e identitários do padrão capilar.
💡 Estaria certa se o texto fosse uma homenagem leve ou um elogio à aparência do jogador.

B) problematizar percepções identitárias sobre padrões de beleza
🟢 Correta. A autora aborda como os padrões estéticos influenciam a construção da identidade, especialmente entre pessoas negras. O texto propõe uma crítica à normatividade do liso e valoriza a aceitação do cabelo natural como ato de empoderamento.

C) apresentar as novas tendências da moda para os cabelos
🔴 Errada. Não é um texto de moda. Não há linguagem descritiva sobre tendências, estilos ou looks.
💡 Estaria certa se o foco fosse em tendências estéticas ou estilo de celebridades.

D) relatar sua experiência de redescoberta de suas origens
🟡 Parcialmente correta. Ela até relata sua experiência, mas isso é meio para um fim, e não o objetivo central.
💡 Estaria certa se o texto fosse puramente autobiográfico, com foco na vivência pessoal.

E) evidenciar a influência dos ídolos sobre as crianças
🔴 Errada. Apesar da menção a crianças que se sentem representadas, esse não é o foco. É uma consequência colateral, não o objetivo argumentativo.
💡 Estaria certa se o texto discutisse a influência dos famosos como modelo para jovens.


🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final

O texto vai muito além da estética: ele denuncia um padrão cultural que marginaliza o cabelo crespo e o associa a algo “fora do normal”. A autora, ao usar sua vivência e a imagem de Neymar, problematiza os impactos desse padrão na formação da identidade negra, propondo a valorização da autenticidade como um gesto político e transformador.

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