O mato do Mutúm é um enorme mundo preto, que nasce dos buracões e sobe a serra. O guará-lobo trota a vago no campo. As pessôas mais velhas são inimigas dos meninos. Soltam e estumam cachorros, para ir matar os bichinhos assustados — o tatú que se agarra no chão dando guinchos suplicantes, os macacos que fazem artes, o coelho que mesmo até quando dorme todo-tempo sonha que está sendo perseguido. O tatú levanta as mãozinhas cruzadas, ele não sabe — e os cachorros estão rasgando o sangue dele, e ele pega a sororocar. O tamanduá. Tamanduá passeia no cerrado, na beira do capoeirão. Ele conhece as árvores, abraça as árvores. Nenhum nem pode rezar, triste é o gemido deles campeando socôrro. Todo choro suplicando por socôrro é feito para Nossa Senhora, como quem diz a salve-rainha. Tem uma Nossa Senhora velhinha. Os homens, pé-ante-pé, indo a peitavento, cercaram o casal de tamanduás, encantoados contra o barranco, o casal de tamanduás estavam dormindo. Os homens empurraram com a vara de ferrão, com pancada bruta, o tamanduá que se acordava. Deu som surdo, no corpo do bicho, quando bateram, o tamanduá caiu pra lá, como um colchão velho. R
ROSA, G. Noites do sertão (Corpo de baile). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
Na obra de Guimarães Rosa, destaca-se o aspecto afetivo no contorno da paisagem dos sertões mineiros. Nesse fragmento, o narrador empresta à cena uma expressividade apoiada na
A) plasticidade de cores e sons dos elementos nativos.
B) dinâmica do ataque e da fuga na luta pela sobrevivência.
C) religiosidade na contemplação do sertanejo e de seus costumes.
D) correspondência entre práticas e tradições e a hostilidade do campo.
E) humanização da presa em contraste com o desdém e a ferocidade do homem.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Literário
- Figuras de Linguagem (Personificação, Metáfora, Imagens sensoriais)
- Estilo Literário de Guimarães Rosa
- Narrador e foco narrativo
- Crítica social implícita
🎯 Nível da Questão: Médio.
✅ Gabarito: Letra E.
📖 Resolução Passo a Passo
Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O comando pede para identificar como o narrador empresta expressividade à cena, ou seja, qual recurso estilístico ou emocional ele utiliza para tornar a descrição mais tocante e significativa.
📌 Palavras-chave do enunciado:
- “Expressividade”: sugere o uso intencional de linguagem sensível e estética.
- “Narrador empresta”: indica que é uma visão subjetiva, carregada de afetividade.
- “Fragmento”: exige que a resposta seja sustentada apenas com base no trecho dado.
🎯 Objetivo da questão:
Reconhecer a construção literária que o narrador faz, destacando a sensibilidade com que os animais são retratados, o que contrasta diretamente com a brutalidade humana.
Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários
Para resolver essa questão, é essencial entender:
✅ Personificação / Humanização:
Figura de linguagem que atribui características humanas a seres não humanos, como os animais aqui.
✅ Estilo de Guimarães Rosa:
Seu regionalismo é peculiar. Ele mescla linguagem oral, neologismos, e forte lirismo. A natureza não é apenas cenário: ela é protagonista afetiva.
✅ Contraste:
O uso do contraste é literariamente poderoso. Neste texto, temos:
- Animais: fragilidade, emoção, dor, oração.
- Homens: brutalidade, desdém, frieza.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📖 Contexto narrativo:
O texto narra o embate entre homens e animais no sertão, destacando a violência da caça. Mas o foco emocional está nos animais — que sonham, gemem, rezam, são sensíveis.
🔍 Frases-chave:
- “o coelho […] todo-tempo sonha que está sendo perseguido”
- “O tatú levanta as mãozinhas cruzadas”
- “Nenhum nem pode rezar, triste é o gemido deles campeando socôrro”
- “Todo choro […] é feito para Nossa Senhora”
- “o tamanduá caiu pra lá, como um colchão velho”
💡 Tudo isso atribui emoções, espiritualidade, sofrimento — elementos tipicamente humanos — a animais silvestres.
🧠 Já os homens surgem como caçadores violentos, que ignoram o sofrimento. Pé-ante-pé, empurram, batem com vara de ferrão. O narrador não justifica nem exalta suas ações — apenas mostra seu desdém.
Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução
A) plasticidade de cores e sons dos elementos nativos. 🔴
❌ Errada. O texto não foca na beleza estética da natureza nem em sons ou cores.
✔️ Estaria correta se o trecho fosse descritivo, com ênfase sensorial, como “vermelho do céu”, “grito agudo”, etc.
B) dinâmica do ataque e da fuga na luta pela sobrevivência. 🔴
❌ Errada. Embora haja ação (caça), o texto não valoriza a luta ou estratégia — mas sim o sofrimento da vítima.
✔️ Estaria certa se destacasse táticas de caça e fuga, em tom épico ou neutro.
C) religiosidade na contemplação do sertanejo e de seus costumes. 🔴
❌ Errada. O foco religioso está nos animais (rezando, pedindo socorro), não no sertanejo ou seus costumes.
✔️ Estaria certa se o texto exaltasse a fé popular do povo sertanejo.
D) correspondência entre práticas e tradições e a hostilidade do campo. 🟡
⚠️ Parcialmente correta. De fato, o texto mostra hostilidade, mas não há defesa das tradições.
✔️ Estaria certa se dissesse: “Crítica às práticas hostis presentes nas tradições sertanejas”.
E) humanização da presa em contraste com o desdém e a ferocidade do homem. 🟢
✅ Correta. O texto claramente humaniza os animais (tatú, tamanduá, coelho) e destaca a frieza dos homens.
💡 O contraste é o cerne da expressividade narrativa.
Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
Guimarães Rosa constrói uma cena tocante ao humanizar os animais, dando-lhes alma, fé e dor. A partir disso, ele denuncia a violência humana, sem precisar dizer diretamente que ela é errada — o efeito se dá pela empatia com a vítima. A alternativa E traduz essa complexa construção narrativa com precisão. 🐾💔👣