Agora sei que a minha língua é a língua de sinais.
Agora sei também que o português me convém. Eu quero ensinar português para os meus alunos surdos, pois eles precisam dessa língua para ter mais poder de negociação com os ouvintes (G, 2004).
Eu me sinto bilíngue, eu converso com os surdos na minha língua e converso com os ouvintes no português, porque aprendi a falar o português, embora eu tenha voz de surdo, mas as pessoas muitas vezes me entendem. Eu já me acostumei a conversar com os ouvintes no meu português. Se alguns não me entendem, eu escrevo (SZ, 2011).
QUADROS, R. M. Libras. São Paulo: Parábola, 2019.
Considerando os contextos de uso da Libras e da língua portuguesa, o depoimento desses surdos revela que no contato entre essas línguas há uma
A) situação de complementariedade quanto aos efeitos sociais e interativos.
B) condução do contrato comunicativo com base nas regras do português falado e escrito.
C) ameaça à proficiência em Libras provocada por dificuldades de articulação.
D) preferência pela língua de sinais em decorrência de fatores identitários.
E) ideia do bilinguismo como fator de distinção econômica dos interlocutores.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Linguagens e Códigos (Libras).
- Sociolinguística (Bilinguismo e Diglossia).
- Interpretação de Texto.
Tema/Objetivo Geral:
Compreender a dinâmica do Bilinguismo na comunidade surda, analisando como a Língua de Sinais (L1) e a Língua Portuguesa (L2) desempenham papéis sociais diferentes, mas que se completam na vida do indivíduo.
Nível da Questão
Médio.
Por que? Exige que o aluno entenda que usar duas línguas não significa que uma é melhor que a outra, nem que elas competem. O aluno precisa perceber o conceito sociológico de que cada língua tem uma função específica dependendo do ambiente (surdos vs. ouvintes).
Gabarito
Alternativa A.
Os relatos mostram que a Libras é usada para identidade e comunicação entre pares (surdos), enquanto o Português é usado como instrumento de poder e negociação com a sociedade majoritária (ouvintes). Uma língua supre a lacuna da outra, caracterizando a complementariedade.
📖 Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão apresenta depoimentos de surdos que usam duas línguas: Libras e Português. Ela quer saber: Qual é a relação entre essas duas línguas na vida prática dessas pessoas? Elas brigam? Uma anula a outra? Ou elas trabalham juntas?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um Mecânico Internacional.
Quando ele está na oficina com a equipe dele, ele fala Alemão (Língua técnica, identidade do grupo).
Quando ele vai atender o cliente no balcão, ele fala Inglês (Língua franca, negociação).
Ele precisa das duas. O Alemão não serve no balcão, e o Inglês não é o ideal na oficina. As línguas se complementam para que ele tenha sucesso total.
Neste caso:
- Oficina = Comunidade Surda (Libras).
- Balcão = Sociedade Ouvinte (Português).
Plano de Ataque:
- Identificar a função da Libras no texto: Identidade (“minha língua”).
- Identificar a função do Português no texto: Instrumento de poder (“negociação”, “me convém”).
- Concluir a relação: Se uso uma para X e outra para Y, elas são peças complementares de um quebra-cabeça comunicativo.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos dissecar o bilinguismo apresentado nos textos:
📁 DOSSIÊ: AS DUAS CHAVES DO SURDO
| Língua | Status no Depoimento | Função Social |
| Libras | “Minha língua”, “converso com surdos”. | Identitária / Afetiva. É a língua natural, de pertencimento ao grupo. |
| Português | “Me convém”, “poder de negociação”, “escrevo”. | Instrumental / Política. É a língua da maioria, usada para sobreviver e negociar direitos. |
Conceito Chave:
Complementariedade Funcional: Na Sociolinguística, quando duas línguas convivem, elas raramente fazem a mesma coisa. Geralmente, ocorre uma divisão de tarefas. O surdo não deixa de ser surdo ao usar português; ele está ampliando seu alcance social.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Investigação Textual:
- Depoimento 1: “Português me convém… ter mais poder de negociação”.
- Tradução: O Português é uma ferramenta necessária para viver no mundo dos ouvintes.
- Depoimento 2: “Converso com os surdos na minha língua e converso com os ouvintes no português”.
- Tradução: Existe uma troca de chave. Dependendo de com quem falo, uso a língua adequada.
Síntese do Detetive:
Não há conflito. O surdo não diz “Odeio Português” nem “Libras é inútil”. Ele diz: “Sou bilíngue”. Ele soma as duas capacidades. Uma língua cobre o que a outra não alcança. Isso é ser complementar.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! (A Perda de Identidade) 🚨
Muitos alunos acham que, se o surdo aprende Português (especialmente a oralização citada no texto), ele está perdendo sua cultura ou “deixando de ser surdo”.
CUIDADO! O texto diz explicitamente: “Eu me sinto bilíngue”. Ele afirma a identidade surda (“voz de surdo”) mas usa o português como recurso. Não é perda, é ganho (aditivo).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese: As línguas atuam em esferas diferentes (social interna vs. social externa) para garantir a cidadania plena.
- Expectativa: Uma alternativa que fale em soma, cooperação ou funções distintas que se completam.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) situação de complementariedade quanto aos efeitos sociais e interativos.
- Análise: Perfeita.
- “Complementariedade”: Uma completa a outra.
- “Efeitos sociais”: Uma garante a identidade (Libras), a outra garante o poder/negociação (Português).
- O bilinguismo permite que o sujeito transite plenamente nos dois mundos.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- Análise: Perfeita.
- B) condução do contrato comunicativo com base nas regras do português falado e escrito.
- Diagnóstico do Erro: Generalização Indevida. O texto diz que ele usa Português com ouvintes. Mas quando conversa com surdos (“converso com os surdos na minha língua”), ele usa as regras da Libras, não do Português. O contrato muda dependendo do interlocutor.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) ameaça à proficiência em Libras provocada por dificuldades de articulação.
- Diagnóstico do Erro: Contradição. O depoente diz “Agora sei que a minha língua é a língua de sinais”. Ele está seguro de sua Libras. A dificuldade de articulação (voz de surdo) é no Português oral, mas isso não ameaça a Libras; pelo contrário, reforça que a Libras é a língua natural dele.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) preferência pela língua de sinais em decorrência de fatores identitários.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo. Embora a preferência identitária exista (“minha língua”), a questão pergunta sobre o contato entre as línguas. O texto enfatiza muito a necessidade e a conveniência do Português (“Português me convém”). Focar só na preferência ignora a parte instrumental do texto sobre o “poder de negociação”
- Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (Mas incompleta sobre a relação dinâmica).
- E) ideia do bilinguismo como fator de distinção econômica dos interlocutores.
- Diagnóstico do Erro: Extrapolação. O texto fala em “poder de negociação” (capacidade de se defender, exigir direitos, interagir), o que é político e social. Não fala necessariamente sobre ficar rico ou distinguir classes econômicas entre quem fala ou não.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Para o surdo bilíngue, Libras é o lar onde o coração habita, e o Português é a ponte que permite atravessar para o mundo majoritário; ter as duas não é dividir-se, é multiplicar-se.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🔑 O Chaveiro Bilíngue: O surdo carrega duas chaves. A chave Libras abre a porta da comunidade e do afeto. A chave Português abre a porta do banco, da escola e da lei.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esse tema é central na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que garante a educação bilíngue para surdos. Isso se conecta também com estudos de imigrantes: um brasileiro nos EUA fala português em casa (afeto/identidade) e inglês no trabalho (poder/sobrevivência). É a mesma lógica de Diglossia (duas línguas com funções sociais distintas).