Com direitos civis, mas sem direitos políticos, além das mulheres, milhões de camponeses iletrados, em sua maioria não brancos, num contexto altamente racista e racializado, milhares de imigrantes estrangeiros recém-chegados e de ex-escravos recém-libertos não deixaram, apesar disso, de agir politicamente e de influir decisivamente no devir da república em formação.
MATTOS, H. A vida política. In: SCHWARCZ, L. M. (Org.). A abertura para o mundo: 1889-1930. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
Um meio pelo qual esses grupos exerceram a cidadania, nas primeiras décadas do regime político mencionado, foi o(a):
A) prática do sufrágio livre e universal.
B) programa de democratização do ensino.
C) aliança de oligarquias partidárias estaduais.
D) irrupção de levantes populares espontâneos.
E) discurso de inspiração social-darwinista e eugenista.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: História do Brasil (Primeira República / República Velha) e Sociologia (Cidadania e Movimentos Sociais).
Tema/Objetivo Geral: Compreender como a exclusão política formal (proibição do voto) na Primeira República levou grupos marginalizados a buscarem outras vias de participação, especificamente através de revoltas e movimentos populares.
Nível da Questão: Médio.
Por que Médio? Exige que o aluno vá além do óbvio (“eles não podiam votar”) e identifique a forma de ação política alternativa. O aluno precisa conectar a teoria da exclusão republicana com os eventos práticos (Revolta da Vacina, Canudos, Chibata).
Gabarito: D (irrupção de levantes populares espontâneos).
A alternativa está correta pois, diante da impossibilidade de participar do sistema político via voto (sufrágio), mulheres, ex-escravizados, imigrantes e camponeses manifestaram suas demandas e insatisfações através de revoltas, motins e greves, exercendo uma “cidadania ativa” fora das urnas.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão descreve um paradoxo: Havia muita gente (mulheres, negros, pobres, imigrantes) que não podia votar (sem direitos políticos), mas o texto diz que eles agiam politicamente.
A pergunta é: COMO? Qual foi a ferramenta que eles usaram para “fazer barulho” e influenciar o governo, já que a urna estava trancada para eles?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um condomínio (a República).
- O síndico trancou a sala de reuniões e disse: “Só os ricos proprietários podem entrar e votar”.
- Os moradores do térreo (pobres/excluídos) querem reclamar do vazamento. Como eles não podem entrar na reunião, o que eles fazem?
- Eles fazem um panelaço no corredor ou quebram a porta.
- A pergunta quer o nome técnico para esse “panelaço/quebra-quebra”.
Plano de Ataque:
- Identificar os Excluídos: O texto cita camponeses, mulheres, negros, imigrantes.
- Analisar o Bloqueio: Eles não tinham “direitos políticos” (não votavam).
- Encontrar a Saída: Se não é pelo voto, é pela força ou pelo protesto (Revolta).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos abrir a caixa de ferramentas da História da Primeira República (1889-1930):
Ferramenta 1: A Constituição de 1891 (A Porta Fechada)
Ela definiu o voto apenas para homens, maiores de 21 anos e alfabetizados.
- Isso excluía: Mulheres, analfabetos (a maioria dos camponeses e negros pós-abolição), mendigos e soldados rasos.
Ferramenta 2: As Revoltas da República Velha (O Grito)
Como essa galera não votava, eles protestavam na rua ou no campo.
- No Campo: Guerra de Canudos (camponeses/religiosidade), Guerra do Contestado, Cangaço.
- Na Cidade: Revolta da Vacina (povo pobre), Revolta da Chibata (marinheiros negros), Greve Geral de 1917 (imigrantes operários).
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o texto e a história:
- O Texto diz: “…milhões de camponeses iletrados… ex-escravos… não deixaram de influir decisivamente”.
- A Conexão: Como os camponeses influíram? Em Canudos, eles criaram uma comunidade tão forte que o Exército teve que ser mobilizado 4 vezes. Isso é influir na República!
- A Conexão: Como os ex-escravos/negros influíram? Na Revolta da Chibata, João Cândido (negro) apontou canhões para o Rio de Janeiro e mudou as regras da Marinha.
- A Conclusão: Essas ações não foram eleições, foram levantes populares.
Síntese do Detetive:
Voto bloqueado -> Pressão social explode na rua -> Levantes e Revoltas.
Expectativa: Alternativa D.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) prática do sufrágio livre e universal.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. “Sufrágio” significa voto. O texto diz explicitamente “sem direitos políticos”. O voto na época não era universal (excluía mulheres e analfabetos) e não era livre (voto de cabresto).
- Conclusão: Contradição direta com o texto e a história.
- B) programa de democratização do ensino.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. A educação na Primeira República era elitista. Não houve um projeto amplo para ensinar o povo (o que, inclusive, mantinha os analfabetos fora das urnas).
- Conclusão: Fato histórico inexistente.
- C) aliança de oligarquias partidárias estaduais.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. Essa era a estratégia dos donos do poder (Política dos Governadores/Café com Leite), não dos grupos oprimidos citados no texto (imigrantes, negros, mulheres).
- Conclusão: Erro de agente (confundiu oprimido com opressor).
- D) irrupção de levantes populares espontâneos.
- Análise: 🟢 CORRETA. Sem canais institucionais (voto), a cidadania era exercida “na marra”. O termo “irrupção” (explosão repentina) descreve bem eventos como a Revolta da Vacina (povo quebrando bondes) ou Canudos. Foi assim que esses grupos se fizeram ouvir.
- Conclusão: Gabarito.
- E) discurso de inspiração social-darwinista e eugenista.
- Diagnóstico do Erro: 🟡 DISTRATOR FORTE (Erro de Agente). O darwinismo social e a eugenia (ideia de branqueamento da raça) existiam na época e o texto cita o “contexto racista”. PORÉM, esse era o discurso da ELITE BRANCA para oprimir os negros e imigrantes. Não era o meio usado pelos oprimidos para exercer cidadania.
- Conclusão: Atribuiu a ideologia do vilão à vítima.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Na Primeira República, a cidadania dos grupos marginalizados (excluídos do voto censitário e literário) manifestou-se não pelas urnas, mas pela força de levantes populares e revoltas sociais que pressionaram o Estado oligárquico.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
“Urna fechada, rua lotada. Se o povo não vota, o povo se revolta.”
🧠 Para ir Além (Sociologia Atual):
O historiador José Murilo de Carvalho chama esse fenômeno de “Cidadania Bestializada” (o povo assistia a tudo sem entender) versus “Cidadania Ativa” (quando o povo reagia, como na Vacina). Hoje, vemos ecos disso: quando a população sente que o Congresso não a representa, ela vai para a rua (Jornadas de Junho de 2013). A “rua” é o parlamento dos sem-poder.