Questão 89 caderno azul do ENEM 2022 PPL – Dia 1

Já em 1901, um dos primeiros levantamentos sobre a situação da indústria no estado de São Paulo constata que as mulheres representavam cerca de 49,95% do operariado têxtil, enquanto que as crianças respondiam por 22,79%. Em outras palavras, 72,74% dos empregados têxteis eram mulheres e crianças.

DEL PRIORE, M. (Org.). História das mulheres no Brasil.  São Paulo: Contexto, 2001 (adaptado).

Os dados apresentados indicam que o cotidiano do trabalho industrial no início do século XX estava vinculado à

A) ampliação da mão de obra fabril.

B) limitação da jornada laboral.

C) exigência de qualificação profissional.

D) elevação da produtividade feminina.

E) ausência de direitos sociais.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • História do Brasil (República Velha / Primeira República)
    • Sociologia do Trabalho (Revolução Industrial e Direitos Trabalhistas)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar a composição da força de trabalho no início da industrialização brasileira, identificando a exploração de mulheres e crianças como sintoma da inexistência de legislação trabalhista.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Requer conhecimento histórico contextual. O aluno precisa saber que em 1901 não existia CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o que permitia aos patrões contratar quem custasse menos (mulheres e crianças), sem garantias de segurança ou salário digno.
  • Gabarito: E
    • A alternativa está correta. A presença massiva de crianças (22%) e mulheres (quase 50%) nas fábricas era possível e lucrativa porque não havia leis que proibissem o trabalho infantil ou equiparassem salários, configurando um cenário de total ausência de direitos sociais.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A missão é ler a estatística de 1901 (fábricas cheias de crianças e mulheres) e responder: “Por que os donos das fábricas contratavam tanta criança e mulher naquela época? O que faltava na lei brasileira que permitia isso?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um jogo de futebol sem juiz e sem regras.

  • Vale chutar a canela? Vale.
  • Vale colocar 20 jogadores em campo? Vale.
  • Por que vale tudo? Porque não existem regras (direitos/leis).
    A fábrica de 1901 era esse jogo. O patrão escalava crianças e pagava metade do salário para mulheres porque não havia um “juiz” (Estado/Leis Trabalhistas) para apitar a falta. A questão quer que você identifique essa falta de regras.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Olhar a Data: 1901. (Muito antes de Getúlio Vargas e da CLT de 1943).
  • Analisar os Dados: 72% da força de trabalho era formada por grupos vulneráveis (mulheres e crianças).
  • Deduzir a Causa: Eles eram contratados porque eram mais baratos e não tinham proteção legal.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a lógica do patrão da época, vamos usar um Fluxograma da Exploração.

FLUXOGRAMA: A LÓGICA DO LUCRO EM 1901

  • O Cenário:
    • Indústria Têxtil nascendo.
    • Objetivo: Lucro Máximo.
    • Obstáculo: Nenhum (Sem leis trabalhistas).
    ⬇️ (A Decisão de Contratação)
  • A Escolha da Mão de Obra:
    • Homem Adulto: Exige salário maior, pode criar sindicato.
    • Mulher/Criança: Aceita salário menor (cultura patriarcal), tem mãos pequenas (boas para tecelagem), menos chance de revolta.
    ⬇️ (O Resultado Social)
  • A Conclusão:
    • Fábricas cheias de crianças.
    • Jornadas de 14 a 16 horas.
    • Diagnóstico: Ausência de Direitos Sociais.

Conclusão da Ferramenta: A demografia da fábrica é o sintoma; a falta de lei é a doença.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar os números friamente.

  • Crianças (22,79%): Quase 1/4 da fábrica eram crianças. Hoje, isso é crime. Em 1901, era “normal”. Isso prova que não havia proteção à infância.
  • Mulheres (49,95%): Metade da fábrica. Elas ganhavam, em média, metade do salário dos homens pela mesma função. Isso prova que não havia isonomia salarial.
  • A Soma (72,74%): A grande maioria dos operários era composta por pessoas que podiam ser super-exploradas legalmente. Isso indica que o cotidiano industrial era regido pela lei da selva (oferta e procura), sem a mediação de direitos sociais garantidos pelo Estado.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

A armadilha mais perigosa aqui é a alternativa A (ampliação da mão de obra fabril). O aluno pensa: “Se tem muita gente trabalhando, é porque a mão de obra ampliou!”. O erro é confundir descrição com explicação. Sim, a mão de obra estava crescendo, mas a questão pergunta a que o cotidiano estava vinculado (a característica qualitativa, não quantitativa). O fato de serem mulheres e crianças especificamente (e não homens imigrantes, por exemplo) aponta para a precariedade e a busca pelo menor custo, não apenas para o crescimento numérico. O foco é a vulnerabilidade, não a quantidade.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A predominância de mulheres e crianças nas fábricas no início do século XX reflete a busca dos industriais por mão de obra barata em um cenário onde não existiam leis para impedir a exploração infantil ou garantir salários justos.
  • Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “falta de leis”, “precariedade”, “exploração” ou “ausência de direitos”.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) ampliação da mão de obra fabril.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Superficialidade. O texto não foca no aumento do número total de operários, mas na composição desse grupo (mulheres e crianças). A estatística serve para denunciar o perfil da exploração, não o tamanho da indústria.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) limitação da jornada laboral.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Oposto da Realidade. Em 1901, as jornadas podiam chegar a 14 ou 16 horas diárias. A limitação da jornada (8 horas) foi uma conquista posterior, fruto de muitas greves (como a de 1917).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

C) exigência de qualificação profissional.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Incompatibilidade. Crianças não possuem qualificação profissional técnica avançada. A indústria têxtil da época operava com tarefas repetitivas que exigiam pouca formação, permitindo o uso de mão de obra infantil e não qualificada.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) elevação da produtividade feminina.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Justificativa Falsa. As mulheres não eram contratadas porque eram “mais produtivas biologicamente”, mas porque eram mais baratas. O fator econômico (salário menor) era o motor da contratação, não a eficiência técnica superior.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) ausência de direitos sociais.

  • Análise de Correspondência: Perfeita. Se quase 73% dos trabalhadores eram grupos vulneráveis (crianças e mulheres) que historicamente recebiam menos e trabalhavam em condições insalubres sem proteção legal, isso evidencia a inexistência de um Estado de Bem-Estar ou de leis trabalhistas (direitos sociais).
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. O início da industrialização brasileira foi marcado pela exploração brutal de quem não tinha voz nem lei para se defender.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Fábrica de 1900: lugar de criança era na máquina, não na escola.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Essa realidade gerou a Greve Geral de 1917, que começou justamente em tecelagens de São Paulo (onde as mulheres eram maioria) e parou a cidade. Foi o grito de “basta” que começou a plantar a semente do que viria a ser a CLT décadas depois. Entender esse passado ajuda a valorizar direitos como férias, 13º salário e proibição do trabalho infantil, que não caíram do céu, mas nasceram da luta contra esses números apresentados na questão.

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