Os sujeitos sociais que procuram evidenciar a importância de uma relação lógica entre injustiça social e degradação ambiental são aqueles que não confiam no mercado como instrumento de superação da desigualdade ambiental e da promoção dos princípios do que se entenderia por justiça ambiental. Esses atores consideram que há clara desigualdade social na exposição aos riscos ambientais, decorrentes de uma lógica que extrapola a simples racionalidade abstrata das tecnologias.
ACSELRAD, H. Justiça ambiental e construção social do risco.
Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 5, jan.-jun. 2002.
A desconfiança dos sujeitos sociais apresentada no texto se fundamenta na
A) diversidade da cultura.
B) capacidade de resiliência.
C) complexidade do ecossistema.
D) intencionalidade da rentabilidade.
E) potencialidade da agropecuária.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Sociologia (Desigualdade Social e Ambiental)
- Geografia Econômica (Lógica de Mercado e Externalidades)
- Meio Ambiente (Justiça Ambiental e Racismo Ambiental)
- Tema/Objetivo Geral: Compreender a crítica feita pelos movimentos de justiça ambiental à lógica de mercado, identificando que a busca pelo lucro (rentabilidade) muitas vezes ignora ou agrava as desigualdades sociais e os riscos ambientais.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige a interpretação de um texto acadêmico com vocabulário denso (“racionalidade abstrata”, “intencionalidade”). O aluno precisa conectar a “desconfiança no mercado” à causa dessa desconfiança: o fato de o mercado priorizar o dinheiro (rentabilidade) acima da justiça.
- Gabarito: D
- A alternativa está correta. A “desconfiança” citada no texto existe porque o mercado opera sob a lógica da rentabilidade (lucro). Essa intencionalidade de lucrar frequentemente transfere os custos ambientais (poluição, lixo) para as populações mais pobres, gerando a injustiça ambiental criticada.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto do sociólogo Henri Acselrad e responder: “Por que esses grupos sociais não acreditam que as empresas e o livre mercado vão salvar o planeta ou proteger os pobres? O que move o mercado que o torna ‘não confiável’ para resolver a desigualdade?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que uma fábrica precisa despejar lixo tóxico.
- A Lógica da Justiça: “Vamos tratar o lixo ou não produzir, porque isso faz mal às pessoas.”
- A Lógica do Mercado: “Vamos jogar o lixo no bairro mais barato e pobre, porque lá o terreno custa menos e a resistência política é menor. Assim, economizamos e lucramos mais.”
Os sujeitos sociais desconfiam do mercado porque sabem que, no final do dia, a decisão é tomada olhando para a calculadora de lucros (rentabilidade), e não para o bem-estar das pessoas.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar o Conflito: Injustiça social vs. Degradação ambiental.
- Identificar o “Réu”: O Mercado (que não é confiável segundo o texto).
- Identificar o Motivo (O Móvel do Crime): Por que o mercado gera desigualdade? Porque ele busca a Rentabilidade.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender essa dinâmica, vamos usar um Diálogo Socrático (O Questionamento).
DIÁLOGO: 🕵️♂️ MENTOR & 🧠 ALUNO
- 🧠 Aluno: Mestre, o texto diz que a tecnologia não explica tudo. O que ele quer dizer com “lógica que extrapola a racionalidade abstrata”?
- 🕵️♂️ Mentor: Ótima pergunta. Pense assim: Tecnicamente, uma fábrica poluidora poderia ser instalada em qualquer lugar, certo? No bairro rico ou no pobre. A tecnologia é a mesma.
- 🧠 Aluno: Certo.
- 🕵️♂️ Mentor: Mas onde ela é instalada na vida real?
- 🧠 Aluno: Sempre na periferia ou perto de comunidades pobres.
- 🕵️♂️ Mentor: Exato. Por quê? Não é por causa da “técnica”, é por causa do custo. É mais barato.
- 🧠 Aluno: Então a decisão é econômica?
- 🕵️♂️ Mentor: Sim. A decisão segue a Intencionalidade da Rentabilidade. O mercado quer lucro, e o lucro exige jogar o prejuízo ambiental no colo de quem tem menos poder para reclamar. Por isso, esses grupos não confiam no mercado para resolver o problema que ele mesmo cria.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos rastrear a crítica no texto.
- A Premissa: Existem sujeitos que veem uma ligação entre “injustiça social” (pobreza) e “degradação ambiental” (poluição). Isso é o conceito de Justiça Ambiental.
- A Desconfiança: Eles “não confiam no mercado”. Por quê? Porque o mercado não foi feito para fazer justiça, foi feito para fazer trocas e gerar excedente.
- A Causa Real: O texto diz que a desigualdade decorre de uma lógica que vai além da técnica. Essa lógica é a lógica do Capitalismo. No capitalismo, as decisões de localização de indústrias, lixões e barragens seguem a lógica do menor custo e maior retorno.
- O Veredito: Se o motor do sistema é o retorno financeiro, o nome técnico disso é Rentabilidade. A desconfiança existe porque a intencionalidade (a intenção, o objetivo) do mercado é a rentabilidade, não a equidade.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A armadilha aqui é se perder em conceitos “positivos” ou “neutros” das alternativas, como C (complexidade do ecossistema). O aluno lê “ambiental” e pensa em ecossistema. Ou a A (diversidade da cultura), pensando em povos tradicionais.
- O Erro: A questão pergunta sobre a fundamentação da desconfiança em relação ao mercado. A desconfiança não é porque o ecossistema é complexo ou a cultura é diversa. A desconfiança é porque o mercado tem um interesse específico (o lucro) que entra em choque com a proteção social. O foco é econômico/político, não biológico ou cultural.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O mercado opera visando o lucro. Essa busca pelo lucro (rentabilidade) muitas vezes exige cortar custos ambientais, o que penaliza os mais pobres. Por isso, a lógica do mercado é vista com desconfiança por quem defende a justiça ambiental.
- Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “lucro”, “dinheiro”, “capital”, “econômico” ou “rentabilidade”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) diversidade da cultura.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora a justiça ambiental defenda populações com culturas diversas (indígenas, quilombolas), a causa da desconfiança no mercado não é a cultura, mas a exploração econômica.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) capacidade de resiliência.
- O “Diagnóstico do Erro”: Conceito Inverso. Resiliência é a capacidade de aguentar e se recuperar. O texto fala sobre a exposição aos riscos (o ataque), não sobre a recuperação. Além disso, confiar na resiliência seria um argumento a favor do sistema (“eles aguentam”), não uma crítica.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
C) complexidade do ecossistema.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Biológico. A discussão é sociológica e econômica (injustiça social, mercado), não ecológica pura. A complexidade da natureza é um fato, mas não é o motivo da crítica política ao mercado.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) intencionalidade da rentabilidade.
- Análise de Correspondência: Perfeita. “Intencionalidade” (o objetivo) da “rentabilidade” (do lucro). O texto critica a lógica de mercado que expõe os pobres aos riscos. Essa lógica é movida pela busca do lucro (rentabilidade), que muitas vezes ignora o custo humano.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
E) potencialidade da agropecuária.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo Setorial. A crítica vale para indústrias, mineração, barragens e também agropecuária, mas a alternativa restringe o problema a um setor específico. O texto critica a lógica do mercado como um todo, não apenas do agronegócio.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. A Justiça Ambiental nos ensina que a chuva cai sobre todos, mas o lixo tóxico só cai no quintal de quem não tem poder econômico para empurrá-lo para longe.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O lucro é privado, mas o prejuízo ambiental é socializado (com os pobres).
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse conceito está ligado ao Racismo Ambiental. Estudos mostram que aterros sanitários, indústrias poluentes e áreas de risco de inundação estão desproporcionalmente localizados em áreas habitadas por negros, latinos e pobres. O mercado “escolhe” esses lugares porque a terra é barata (rentabilidade) e a população tem menos voz política para barrar o empreendimento. Entender isso é entender que não existe “desastre natural” neutro; o desastre segue o mapa da desigualdade.
