Questão 12, caderno azul do ENEM 2021 PPL

Estresse é um termo que se vulgarizou nos últimos tempos. Queixa-se de estresse o homem que chega em casa depois de um dia de muito trabalho, de trânsito pesado e das filas do banco. Queixa-se a mulher que enfrentou uma maratona de atividades domésticas, profissionais e com os filhos. À noite, terminando o jantar, com as crianças recolhidas, os dois mal têm forças para trocar de roupa e cair na cama.

A palavra estresse não cabe nesse contexto. O que eles sentem é cansaço, estão exaustos e uma noite de sono é um santo remédio para recompor as energias e revigorá-los para as tarefas do dia seguinte.

A palavra estresse, na verdade, caracteriza um mecanismo fisiológico do organismo sem o qual nós, nem os outros animais, teríamos sobrevivido. Se nosso antepassado das cavernas não reagisse imediatamente, ao se deparar com uma fera faminta, não teria deixado descendentes. Nós existimos porque nossos ancestrais se estressavam, isto é, liberavam uma série de mediadores químicos (o mais popular é a adrenalina), que provocavam reações fisiológicas para que, diante do perigo, enfrentassem a fera ou fugissem.

Disponível em: http://educaca.uol.com.br. Acesso em: 2 jun. 2015.

Ao lançar mão do mecanismo de comparação, o autor do texto conduz os leitores a

A) minimizarem os receios contra o estresse.
B) evitarem situações que causem estresse.
C) distinguirem os vários sintomas do estresse.
D) saberem da existência dos tipos de estresse.
E) compreenderem o significado do termo estresse.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Interpretação de Texto, Estratégias Argumentativas (Comparação e Definição), Semântica (Significado das Palavras).

Tema/Objetivo Geral:
Precisão terminológica. O objetivo é compreender que o autor utiliza a comparação para corrigir o uso popular equivocado de uma palavra (“estresse”) e restaurar seu sentido técnico/científico original.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? Embora o texto seja simples, a questão exige que o aluno diferencie “dar conselhos” (alternativas A e B) de “definir conceitos” (alternativa E). É preciso perceber a intenção didática do autor.

Gabarito:
Letra E.
A alternativa está correta porque o texto se estrutura inteiramente na oposição entre o “senso comum” (estresse = cansaço) e a “ciência” (estresse = reação de sobrevivência), com o fim único de esclarecer o que o termo realmente significa.


🏗 Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “Por que o autor comparou o homem moderno cansado com o homem das cavernas fugindo de feras?”. Qual é a missão dele ao fazer isso?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que alguém aponte para um gato e diga: “Olha que belo tigre!”.
Você corrige: “Não, isso não é um tigre. Tigres são enormes, vivem na selva e comem gente. Isso aí é um gato, ele só está arranhando o sofá.”
Você comparou o gato com o tigre para ensinar o significado correto da palavra tigre.
O autor faz o mesmo: compara o cansaço (gato) com a reação de luta/fuga (tigre) para ensinar o que é estresse.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Identificar a “tese do senso comum” (Parágrafo 1: Estresse é dia cheio).
  2. Identificar a “refutação” (Parágrafo 2: Isso não é estresse, é cansaço).
  3. Analisar a “definição real” (Parágrafo 3: O homem das cavernas e a sobrevivência).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰

Precisamos entender a ferramenta da Ressignificação através do Contraste.

Tabela: O Impostor vs. O Original

Conceito Popular (O Impostor) Conceito Científico (O Original)
Cenário: Trânsito, filas, louça suja. Cenário: Homem das cavernas, fera faminta.
Sintoma: Exaustão, falta de força. Sintoma: Adrenalina, alerta, reação rápida.
Cura: Uma noite de sono. Função: Sobrevivência da espécie.
Nome Real: Cansaço / Fadiga. Nome Real: Estresse.

Lógica do Autor:
Ele usa o contraste (A vs B) para limpar a “sujeira” que o uso popular colocou sobre a palavra estresse.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️‍♂️

Vamos seguir o raciocínio do autor:

O Diagnóstico do Erro:

  • “Estresse é um termo que se vulgarizou…” (Ficou comum demais e perdeu o sentido).
  • “A palavra estresse não cabe nesse contexto [de dia cheio]. O que eles sentem é cansaço…”

A Correção Histórica:

  • “A palavra estresse, na verdade, caracteriza um mecanismo fisiológico…”
  • Aqui entra o homem das cavernas. Ele não estava “cansado do trânsito”, ele estava ativado para não morrer.

A Conclusão:
O autor não está dando dicas de saúde (“durma mais”). Ele está dando uma aula de português e biologia: “Parem de chamar cansaço de estresse”.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com alternativas que sugerem “autoajuda” ou “conselhos médicos”. O texto não foi escrito para te acalmar (Alternativa A) ou para te dizer o que evitar (Alternativa B). Ele é um texto informativo/definidor. O foco é a palavra, não o paciente.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto usa a comparação para desconstruir um conceito errado e construir o conceito certo.
  • Expectativa: Devemos buscar verbos como “definir”, “explicar”, “esclarecer” ou “compreender o significado”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀

Vamos interrogar os suspeitos:

  • A) minimizarem os receios contra o estresse.
    • Diagnóstico do Erro: Interpretação Emocional.
    • Análise: O autor diz que o estresse salvou nossos antepassados (ponto positivo), mas o objetivo do texto não é fazer você “perder o medo” do estresse, e sim saber o que ele é.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • B) evitarem situações que causem estresse.
    • Diagnóstico do Erro: Invenção de Proposta.
    • Análise: O texto não é um manual de bem-estar. Ele não diz “evite o trânsito”. Ele diz “trânsito causa cansaço, não estresse”.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) distinguirem os vários sintomas do estresse.
    • Diagnóstico do Erro: Foco Secundário.
    • Análise: O texto distingue “sintomas de cansaço” de “mecanismo de estresse”. Mas distinguir os sintomas é o meio que ele usa para chegar ao fim (definir a palavra). O objetivo não é clínico, é semântico.
    • Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (Distrator Forte: Ele faz uma distinção, mas o objetivo final é a definição do termo, não a listagem médica de sintomas).

  • D) saberem da existência dos tipos de estresse.
    • Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
    • Análise: O texto não classifica tipos (estresse agudo, crônico, pós-traumático). Ele fala do mecanismo único de luta ou fuga.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • E) compreenderem o significado do termo estresse.
    • Análise: Perfeita.
      • O texto começa dizendo que o termo se “vulgarizou” (perdeu o significado original).
      • O texto termina explicando o que ele “na verdade, caracteriza” (o significado real).
      • A comparação serve inteiramente a esse propósito: redefinir o termo.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭

Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra E, pois o autor atua como um dicionarista científico, utilizando a comparação entre a vida moderna e a ancestralidade para resgatar a definição precisa de “estresse” (mecanismo de sobrevivência) e separá-la do conceito de “cansaço”.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🦁 O Leão vs. O Sofá: Fugir do leão é Estresse (sobrevivência). Cair no sofá é Cansaço (exaustão). Não confunda o Leão com o Sofá.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Na Biologia, o mecanismo descrito é o Eixo HPA (Hipotálamo-Pituitária-Adrenal). O estresse agudo (o da fera) é bom e salva vidas. O problema moderno é que ativamos esse sistema para “feras imaginárias” (boletos, e-mails), gerando o Estresse Crônico, que é tóxico. O texto foca na definição raiz (o agudo).

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