A caolha
A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados. O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam-lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante. Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda a gente.
ALMEIDA, J. L. In: COSTA, F. M. (org.). Os melhores contos brasileiros de todos os tempos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
Que procedimento composicional o narrador utiliza para caracterizar a aparência da personagem?
A) a descrição marcada por adjetivações depreciativas.
B) a alternância dos tempos e modos verbais da narrativa.
C) a adoção de um ponto de vista centrado no medo das crianças.
D) a objetividade da correlação entre imperfeições físicas e morais.
E) a especificação da deformidade responsável pela feição assustadora.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Interpretação de Texto, Estilística (Recursos Expressivos), Classes Gramaticais (Adjetivos), Movimentos Literários (Traços do Naturalismo).
Tema/Objetivo Geral:
A construção da imagem da personagem através da linguagem. O objetivo é identificar qual ferramenta gramatical e semântica o autor usou para criar uma figura repulsiva.
Nível da Questão:
Fácil/Médio.
Por que? É fácil identificar que a descrição é negativa. O nível sobe para “médio” por causa dos distratores (alternativas D e E), que exigem que o aluno diferencie “julgamento moral” de “descrição física” e “o todo” da “parte”.
Gabarito:
Letra A.
A alternativa está correta porque o texto é, essencialmente, uma lista de substantivos (partes do corpo) acompanhados de adjetivos com carga semântica negativa (depreciativa), criando uma imagem de degradação.
🏗 Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️
Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “Qual é a técnica (procedimento) que o escritor usou para pintar esse retrato falado?”
Ele usou diálogos? Usou verbos de ação? Ou usou qualificadores (adjetivos)?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você quer falar mal de um carro velho para que ninguém compre.
Você não diz apenas: “É um carro de 1990”. (Neutro)
Você diz: “É uma lata velha, enferrujada, barulhenta, perigosa e fedorenta”.
O que você fez? Você bombardeou o objeto com adjetivos ruins.
O autor fez exatamente isso com a mulher: bombardeou a descrição dela com palavras “podres”.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Listar os adjetivos usados no texto.
- Verificar a carga emocional desses adjetivos (positiva, neutra ou negativa/depreciativa).
- Eliminar as alternativas que falam de coisas que não estão no texto (moralidade, ponto de vista infantil).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰
Precisamos entender o poder da Adjetivação na literatura.
Tabela: O Poder da Palavra
| Parte do Corpo | Descrição Neutra (O que é) | Descrição do Texto (Como o autor pintou) | Carga do Adjetivo |
| Mãos | Grandes. | “Ossudas, estragadas” | Depreciativa (Ruim) |
| Cabelo | Grisalho. | “Sujo, áspero, espinhento” | Depreciativa (Ruim) |
| Boca | Caída. | “Expressão de desprezo” | Depreciativa (Ruim) |
| Pescoço | Longo. | “Engelhado, como urubus” | Depreciativa (Horrível) |
Conceito Chave:
Procedimento Composicional: É a “receita” do texto. Aqui, a receita é: Substantivo + Adjetivo Feio + Comparação Grotesca.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️♂️
Vamos rastrear a construção da personagem:
Abertura:
- “magra, alta, macilenta, peito fundo…”
- Já começa com uma sequência de adjetivos. “Macilenta” significa pálida, com ar de doente.
O Clímax da Repulsa:
- “…mãos… estragadas… unhas grossas, chatas e cinzentas…”
- “…fístula continuamente porejante… destilação incessante de pus…”
- Note que o narrador não está apenas descrevendo; ele está escolhendo as palavras mais nojentas possíveis.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa D (“correlação entre imperfeições físicas e morais”).
No Romantismo, muitas vezes o vilão era feio porque era mau. Mas aqui (influência do Realismo/Naturalismo), o texto descreve a aparência física. O texto diz que a boca tinha “expressão de desprezo”, mas não diz que ela era uma pessoa má, criminosa ou imoral. O texto foca na repulsão visual, não no caráter da alma. Não invente o que não está escrito!
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto caracteriza a personagem através de um acúmulo de qualidades negativas (adjetivos) que focam na feiura, doença e degradação.
- Expectativa: Devemos buscar a alternativa que mencione “adjetivos”, “qualificação” ou “descrição negativa”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀
Vamos interrogar os suspeitos:
- A) a descrição marcada por adjetivações depreciativas.
- Análise: Perfeita.
- “Descrição” = O tipo textual predominante.
- “Adjetivações” = A classe gramatical mais usada (macilenta, estragadas, sujo, engelhado).
- “Depreciativas” = O tom negativo (diminuem o valor da pessoa).
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- Análise: Perfeita.
- B) a alternância dos tempos e modos verbais da narrativa.
- Diagnóstico do Erro: Foco irrelevante.
- Análise: O texto usa predominantemente o Pretérito Imperfeito (“era”, “tinha”), que é o tempo padrão para descrições no passado. Não há uma “alternância” brusca que seja o destaque composicional.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) a adoção de um ponto de vista centrado no medo das crianças.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Narrador.
- Análise: O texto diz que o aspecto dela “infundia terror às crianças”, mas quem está narrando é um adulto observador (o narrador), usando vocabulário adulto (“fístula”, “macilenta”). Não é a visão infantil.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) a objetividade da correlação entre imperfeições físicas e morais.
- Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
- Análise: O texto descreve o corpo (físico). Não há descrição de atos imorais, pecados ou falhas de caráter (moral). A “expressão de desprezo” é um traço físico da boca caída, não uma prova de que ela despreza o mundo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) a especificação da deformidade responsável pela feição assustadora.
- Diagnóstico do Erro: Reducionismo (A parte pelo todo).
- Análise: A falta do olho (deformidade) é citada no final como o motivo principal do terror, mas o comando pede o procedimento para caracterizar a aparência (no geral). A aparência inclui cabelo, mãos, pescoço e pele, todos caracterizados pela adjetivação, não só pelo olho. A adjetivação é o como, a deformidade é apenas um detalhe.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭
Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra A, pois o narrador constrói a visualidade da personagem selecionando rigorosamente substantivos anatômicos e qualificando-os com adjetivos de teor negativo, doentio e grotesco.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🧟♀️ O Retrato do Monstro: O autor não usou maquiagem para embelezar; usou lama (adjetivos depreciativos) para destacar cada defeito.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este texto apresenta traços claros do Naturalismo (final do séc. XIX). O Naturalismo adorava a Zoomorfização (comparar gente a bicho – “pescoço de urubu”) e a Patologia (focar na doença – “pus”, “fístula”, “reumatismo”). O objetivo era mostrar o ser humano como um “animal biológico” sujeito à degradação, sem a idealização romântica.