Na medida em que as pesquisas dos africanistas avançaram, muitos mitos caíram por terra. Está mais do que provada a existência de documentação e vestígios arqueológicos dos mais variados, além da importância da oralidade na recuperação da memória dos reinos, das linhagens, dos fundadores das nações africanas. Com efeito, aquelas foram sociedades eminentemente orais, nas quais os dados históricos ocupam uma posição muito mais importante do que consideramos em nossa própria cultura e sociedade.
MACEDO, J. R.Antigas civilizações africanas: historiografia e evidências documentais.In: MACEDO, J. R. (Org.).
Desvendando a história da África. Porto Alegre: UFRGS, 2008 (adaptado).
Com vista ao conhecimento da história das civilizações africanas, o texto corrobora a importância de
A) doutrinas da tradição bíblica.
B) diários dos viajantes europeus.
C) registros da comunicação verbal.
D) narrativas das missões jesuíticas.
E) manuscritos dos povos muçulmanos.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História da África (Fontes Históricas e Historiografia).
- Sociologia da Cultura (Tradição Oral e Memória Coletiva).
Tema/Objetivo Geral:
- Reconhecimento da oralidade como fonte histórica legítima e fundamental para o estudo das sociedades africanas pré-coloniais, combatendo a visão eurocêntrica que privilegia apenas a escrita.
Nível da Questão: Médio.
- A questão exige a superação de um preconceito historiográfico comum (de que “história só existe onde há escrita”). O aluno precisa interpretar o texto que valida a oralidade como documento histórico, diferenciando-a de fontes externas (viajantes, missionários) que muitas vezes carregam viés colonial.
Gabarito: C.
- O texto afirma explicitamente que aquelas eram “sociedades eminentemente orais” e que a “importância da oralidade” na recuperação da memória é central. Portanto, para conhecer essas civilizações, é indispensável validar os registros da comunicação verbal (tradição oral).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber qual é a fonte histórica mais importante citada no texto para estudar a África. O autor diz que “muitos mitos caíram” quando começamos a olhar para um tipo específico de documento. Qual documento é esse?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você quer saber a história da sua avó, mas ela nunca escreveu um diário.
Se você só procurar papéis escritos, vai achar que a história dela não existe.
Mas se você sentar e ouvir as histórias que ela conta, você descobre um mundo inteiro.
O texto diz que as sociedades africanas são como essa avó: elas guardaram sua história na fala, não no papel. A questão pede o nome técnico dessa “fala histórica”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Localizar no texto a fonte de informação citada como “importante”.
- Traduzir “sociedades eminentemente orais” para as alternativas.
- Eliminar as alternativas que citam fontes escritas ou externas (europeias).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para responder, precisamos entender como a História é construída.
Dossiê Técnico: As Fontes da História
| Tipo de Fonte | O que é? | Exemplo Africano | Valor Histórico |
| Escrita | Documentos, livros, cartas. | Manuscritos de Timbuktu. | Importante, mas não único. |
| Arqueológica | Objetos, ruínas, ossos. | Pirâmides, Zimbábue. | Prova material. |
| Oral (A Chave Aqui) | Histórias contadas, músicas, provérbios. | Griots (contadores de história). | Fundamental para sociedades sem escrita disseminada. |
Visualização do Conceito (A Biblioteca Viva):
Na África Ocidental, existe um ditado: “Quando um ancião morre, é uma biblioteca que se queima”.
Isso resume o conceito da questão. O conhecimento está na memória das pessoas e é transmitido pela fala (comunicação verbal). Ignorar a oralidade é ignorar a história.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar o texto do historiador José Rivair Macedo:
- A Afirmação:“importância da oralidade na recuperação da memória”.
- Aqui está a resposta gritando. Oralidade = Fala = Comunicação Verbal.
- A Característica:“aquelas foram sociedades eminentemente orais”.
- Isso significa que a estrutura principal de transmissão de saber era a fala.
- O Contraste:“dados históricos ocupam uma posição muito mais importante do que consideramos em nossa própria cultura”.
- Na nossa cultura (ocidental), valorizamos o documento escrito e carimbado. Na cultura africana citada, a palavra falada tem valor de documento.
Síntese:
O texto não está falando da Bíblia, nem de diários de europeus (que seriam fontes escritas e externas). Ele está falando de uma fonte interna e falada. Isso nos leva direto aos registros da comunicação verbal.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode pensar na Alternativa E (Manuscritos Muçulmanos).
É verdade que existem muitos manuscritos árabes na África (ex: Timbuktu). O texto até menciona “existência de documentação”. Porém, o foco central do argumento e a parte que o texto desenvolve com mais ênfase (“com efeito…”) é a oralidade. A questão pede o que o texto corrobora (confirma/apoia) como distintivo dessas sociedades. O distintivo aqui é a tradição oral.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto exalta a oralidade como meio de recuperar a memória dos reinos.
- Expectativa: Algo sobre fala, oralidade, verbalização.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) doutrinas da tradição bíblica.
- O Diagnóstico do Erro: Viés Religioso/Eurocêntrico.
- Por que está incorreta: A tradição bíblica é externa à maioria das origens africanas ancestrais (embora o cristianismo seja antigo na Etiópia). O texto fala de memória de reinos e linhagens locais, não de textos sagrados judaico-cristãos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) diários dos viajantes europeus.
- O Diagnóstico do Erro: Visão Colonial.
- Por que está incorreta: Esses diários são fontes sobre a África, mas escritas por estrangeiros (muitas vezes preconceituosos). O texto fala de recuperar a memória interna (“fundadores das nações”), o que exige fontes internas, não o olhar do colonizador.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) registros da comunicação verbal.
- Análise de Correspondência: Perfeito. “Comunicação verbal” é sinônimo técnico de “oralidade”, termo central do texto. Reconhecer a fala como registro histórico é o ponto chave da nova historiografia africana.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- D) narrativas das missões jesuíticas.
- O Diagnóstico do Erro: Restrição de Fonte.
- Por que está incorreta: Assim como os diários de viajantes, são fontes escritas por europeus com viés religioso. O texto valoriza a produção da própria sociedade africana (oral), não a dos missionários.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) manuscritos dos povos muçulmanos.
- O Diagnóstico do Erro: Foco Parcial.
- Por que está incorreta: Embora existam e sejam importantes, o texto foca na característica de serem “sociedades eminentemente orais”. A escrita árabe foi importante em partes da África, mas a oralidade foi universal e estruturante para a memória das linhagens citadas.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
Para a historiografia moderna, a voz é tão duradoura quanto a tinta: ao validar os registros da comunicação verbal (Alternativa C), reconhecemos que a história da África foi magistralmente arquivada na memória de seus contadores de histórias, e não apenas em papéis.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🗣️ Griot (Contador): Livro vivo.
📜 Oralidade: Documento falado.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conexão com o Direito (Testemunho Oral):
A valorização da oralidade não é exclusiva da História. No Direito, especialmente em culturas indígenas e em tribunais internacionais de Direitos Humanos, o “testemunho oral” de anciãos é aceito como prova de posse de terra ou de ocorrência de massacres, mesmo sem documentos escritos. A palavra falada tem poder jurídico e histórico de prova.