Questão 65, caderno azul do ENEM 2023 PPL

Nem mesmo Castelo Branco seria um aliado incondicional das políticas liberais recomendadas pelos organismos financeiros internacionais, nem dos contornos que o Departamento de Estado norte-americano promovia na política externa dos Estados latino-americanos. As políticas da Ditadura Militar — em particular as iniciativas de planejamento econômico, um projeto frustrado de reforma agrária promovido pelo ministro Roberto Campos e a rejeição ao “alinhamento automático” com Washington nos organismos multilaterais — proporcionariam pelo menos incerteza nos círculos decisórios da política externa dos Estados Unidos.

RAPOPORT, M.; LAUFER, R. Os Estados Unidos diante do Brasil e da Argentina: os golpes militares da década de 1960. Revista Brasileira de Política Internacional, n. 43, 2000 (adaptado).

O texto aborda uma diretriz do Estado brasileiro em suas relações com os Estados Unidos caracterizada pela

A) construção de alianças pragmáticas.
B) busca da superioridade comercial.
C) afirmação da equidade continental.
D) insistência na integração regional.
E) redução de investimentos bélicos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História do Brasil: Ditadura Militar (Governo Castelo Branco) e Política Externa Brasileira (PEB).
  • Geopolítica: Guerra Fria, Alinhamento Automático vs. Autonomia, Relações Brasil-EUA.
  • Interpretação de Texto: Identificação de tese e contra-argumento.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar um texto historiográfico que desafia o senso comum de que a Ditadura Militar (especialmente no início) foi totalmente subserviente aos EUA, identificando que houve momentos de tensão e busca por autonomia nacional, caracterizando uma diplomacia de interesses, e não de submissão cega.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: O aluno precisa superar o estereótipo de que “Ditadura = Boneco dos EUA”. O texto traz uma nuance histórica (“Nem mesmo Castelo Branco seria aliado incondicional”). A dificuldade está em interpretar que “rejeição ao alinhamento automático” significa adotar uma postura pragmática.

Gabarito: A.

  • Resumo: O texto afirma que, embora aliado no combate ao comunismo, o governo Castelo Branco rejeitou o “alinhamento automático” (obedecer a tudo) e causou “incerteza” nos EUA ao perseguir interesses nacionais próprios (planejamento econômico, reforma agrária). Essa postura de cooperar quando convém, mas dizer não quando necessário, é a definição de aliança pragmática.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar a “personalidade” da diplomacia brasileira.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Segundo o texto, como o Brasil tratava os Estados Unidos?”. Era um namoro onde o Brasil obedecia a tudo? Ou era um negócio onde o Brasil defendia o seu lado?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine dois sócios em uma empresa.

Alinhamento Automático: O sócio menor diz “Amém” para tudo que o sócio maior manda.

Aliança Pragmática: O sócio menor diz: “Somos parceiros, mas nesse ponto aqui eu não concordo, vou fazer do meu jeito porque é melhor para mim”.

O texto diz que Castelo Branco agiu como o segundo sócio.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar a negativa do texto: “Nem mesmo… aliado incondicional”.
  • Identificar a ação do Brasil: “Rejeição ao alinhamento automático”.
  • Traduzir essa postura de independência relativa para o termo “pragmatismo”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender as Relações Internacionais, vamos usar o Espectro da Diplomacia.

Cenário da Guerra Fria (EUA vs. URSS):

  1. Alinhamento Automático: Obediência total aos EUA (Ex: Dutra na década de 40). O país age como satélite.
  2. Política Externa Independente (PEI): Tenta ser neutro ou negociar com os dois lados (Ex: Jânio Quadros/Jango).
  3. Alinhamento Pragmático (O Texto): O país escolhe um lado (EUA/Ocidente), mas mantém autonomia para discordar em pontos econômicos ou estratégicos que firam seus interesses nacionais.

Conceito Chave: Pragmatismo
Na política, ser pragmático significa focar em resultados práticos e benefícios concretos, em vez de seguir cegamente uma ideologia ou uma lealdade abstrata.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o texto com a lupa da diplomacia:

  • “Nem mesmo Castelo Branco seria um aliado incondicional” -> Ele impõe condições.
  • “rejeição ao ‘alinhamento automático'” -> Ele diz não à submissão total.
  • “proporcionariam… incerteza nos círculos decisórios… dos Estados Unidos” -> Os EUA não podiam mandar no Brasil tão facilmente quanto queriam.

Síntese:
Se o Brasil rejeita ser “automático” e causa “incerteza” nos EUA, ele está jogando o jogo político. Ele está construindo uma aliança, sim (eram anticomunistas), mas uma aliança baseada em interesses (pragmatismo), não em obediência cega.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (C) (“afirmação da equidade continental”) é um distrator tentador.

  • Por que seduz? Porque fala de relações entre países do continente.
  • Por que está errada? O Brasil não buscava “equidade” (igualdade) com os outros países da América Latina ou com os EUA. A Ditadura tinha um projeto de potência (o “Brasil Grande”). O texto foca na relação bilateral tensa com os EUA, não em um projeto de igualdade continental.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto descreve uma relação de parceria, mas com limites impostos pelo interesse nacional brasileiro.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre pragmatismo, autonomia relativa, interesse nacional ou negociação estratégica.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) construção de alianças pragmáticas.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. O texto mostra que o Brasil mantinha a aliança com os EUA (bloco capitalista), mas agia com pragmatismo ao rejeitar políticas que prejudicassem sua economia interna (“planejamento econômico”, “reforma agrária”). É a definição de “aliança pragmática”: estamos juntos, mas o Brasil vem primeiro.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) busca da superioridade comercial.
    • Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
    • Narrativa do Erro: O texto fala de “incerteza” política e divergências sobre modelos econômicos, mas não menciona uma disputa por hegemonia ou superioridade comercial contra os EUA. O Brasil era uma economia em desenvolvimento, não um rival comercial direto na época.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) afirmação da equidade continental.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
    • Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, o texto foca na relação vertical (Brasil-EUA) e na autonomia brasileira. Não há menção a buscar justiça ou igualdade (equidade) para todo o continente latino-americano.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) insistência na integração regional.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo.
    • Narrativa do Erro: A integração regional (como o Mercosul) é um fenômeno forte nos anos 90. Nos anos 60/70, embora houvesse alguma retórica, a prioridade era o desenvolvimento nacional interno e a relação bilateral com potências, não a integração profunda com vizinhos.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) redução de investimentos bélicos.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição Histórica.
    • Narrativa do Erro: Estamos falando de uma Ditadura Militar. O regime aumentou o papel das Forças Armadas e buscou modernização militar. O texto não fala sobre cortar verbas de armas, fala sobre divergências políticas e econômicas.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Até nas ditaduras alinhadas, o interesse nacional fala mais alto: o texto revela que a diplomacia brasileira, mesmo sob o regime militar, recusou o papel de mero satélite dos EUA, optando pela construção de alianças pragmáticas (Alternativa A) para garantir sua autonomia econômica.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
O Brasil apertou a mão do Tio Sam, mas não beijou o anel.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa postura evoluiu para o “Pragmatismo Responsável” no governo Geisel (1974-1979), quando o Brasil, ainda sob ditadura, reconheceu a independência de Angola (comunista), reatou com a China e se aproximou da Alemanha (Acordo Nuclear), desafiando abertamente os EUA em nome do interesse nacional.

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