Questão 33, caderno azul ENEM PPL 2023

TEXTO I
A nova opinião pública e as redes digitais
Todas as vezes que os injustiçados do mundo ganham espaço nas telinhas dos gadgets de última geração e nas correntes caudalosas de e-mails, e o barulho digital é tanto que chega até aos veículos de comunicação tradicionais, muita gente destaca as boas qualidades do que chamam de uma nova opinião pública. É difícil não nos confrontarmos com as novas formas que a sociedade utiliza para se inteirar, integrar-se, persuadir, manipular, controlar, aprender, fazer-se ver e ser vista, conversar e fofocar. Isso porque, o tempo todo, as multidões estão opinando, capturando imagens em quantidade descomunal e disponibilizando-as facilmente para audiências abrangentes. Essa produção midiática da multidão, muitas vezes formatada sem preocupações técnicas, éticas e estéticas, com certeza não contribui para a consolidação de uma conversação democrática, que respeite a alteridade, dê tempo ao contraditório e à comunicação. Essa nova opinião pública é rápida em linchamentos simbólicos e em expressar preconceitos em mensagens rapidinhas, de 140 caracteres.
AMADEU, S. Disponível em: www.sescsp.org.br. Acesso em: 26 nov. 2021 (adaptado).

TEXTO II
Uma nova opinião pública. Será?
A internet inverteu o ecossistema comunicacional. O difícil não é falar. Agora, o grande problema é ser ouvido. Todavia, quando alguém fala algo que todos queriam ouvir, uma onda imediatamente se forma no oceano informacional e pode gerar ações concretas nas ruas, nos mercados, nas bolsas de valores. A rede é um articulador coletivo de diversas causas. Não podemos ter a ilusão de que somente ideias democratizantes e ligadas à nobre causa da defesa ambiental é que geram adeptos. Uma análise mais aprofundada das ações e do ativismo em rede permite observar que cada vez mais se formam redes de opinião distintas e muitas vezes opostas. Por fim, também é preciso notar que a internet é uma rede de arquitetura distribuída. Por isso, sua natureza é mais propícia às ações democratizadoras, livres e favoráveis ao compartilhamento do que às posturas que visam simplesmente à dominação, ao controle autoritário e ao impedimento da troca de arquivos digitais.
NASSAR, P. Disponível em: www.sescsp.org.br. Acesso em: 26 nov. 2021 (adaptado).

Com relação à produção da opinião pública na contemporaneidade, os textos I e II divergem sobre o(a)
a) compreensão da internet como espaço de construção democrática.
b) uso mal-intencionado das tecnologias de informação e comunicação.
c) entendimento da internet como meio de exposição de pensamentos.
d) impacto das postagens nas redes de defensores de causas minoritárias.
e) falta de curadoria dos conteúdos disponíveis nos ambientes virtuais.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto: Leitura comparativa e identificação de teses.
  • Sociologia Digital: Papel da internet na democracia (Ciberdemocracia vs. Ciberativismo).
  • Argumentação: Identificação de posicionamentos divergentes.

Tema/Objetivo Geral:
Comparar dois textos sobre o impacto da internet na formação da opinião pública, identificando que o Texto I é pessimista/crítico (vê a rede como antidemocrática) e o Texto II é otimista/defensor (vê a rede como propícia à democratização).

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: A questão exige a síntese de dois argumentos complexos. O aluno precisa perceber que, embora ambos falem de “nova opinião pública”, eles chegam a conclusões opostas sobre o valor democrático dessa nova esfera. A dificuldade está em captar a nuance entre “não contribui para a consolidação democrática” (Texto I) e “propícia às ações democratizadoras” (Texto II).

Gabarito: A.

  • Resumo: O Texto I diz que a internet gera linchamentos e não respeita o contraditório, logo, não é democrática. O Texto II diz que a internet é descentralizada e livre, logo, é propícia à democracia. A divergência está na avaliação do potencial democrático da rede.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar o ponto de discórdia.

Decodificação do Objetivo: A questão coloca dois autores numa mesa de debate e pergunta: “Em que ponto eles discordam?”.

Autor 1: “A internet é uma bagunça perigosa que atrapalha a democracia.”

Autor 2: “A internet é uma ferramenta poderosa que ajuda a democracia.”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma praça pública cheia de gente gritando.

Pessoa A: “Isso é um hospício, ninguém se entende, é perigoso.” (Texto I).

Pessoa B: “Isso é lindo, todo mundo tem voz, é liberdade.” (Texto II).

Eles discordam sobre a qualidade democrática da praça.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Ler a conclusão do Texto I sobre democracia: “não contribui”.
  • Ler a conclusão do Texto II sobre democracia: “propícia às ações democratizadoras”.
  • Marcar a alternativa que fala sobre “internet como espaço democrático”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para acertar essa questão, precisamos colocar os dois textos no ringue e ver onde eles trocam socos. Vamos usar a Tabela do Duelo Digital.

TABELA: OTIMISMO VS. PESSIMISMO DIGITAL

Aspecto Analisado Texto I (O Crítico) 😠 Texto II (O Defensor) 😃
A Ação da Multidão “Linchamentos simbólicos”, “sem ética”, “preconceitos”. “Articulador coletivo”, “onda que gera ações concretas”.
A Estrutura da Rede Caótica e superficial (“mensagens rapidinhas”). Distribuída e livre (“arquitetura distribuída”).
O Veredito sobre a Democracia “Não contribui para a conversação democrática”. “Natureza propícia às ações democratizadoras”.

Conceito Chave: A Divergência Central
Note que eles concordam que a internet é poderosa e muda a opinião pública. Onde eles discordam (divergem) é na qualidade dessa mudança:

Para o Texto II, a internet é uma ferramenta da democracia (a rede permite a participação).

Para o Texto I, a internet é um obstáculo à democracia (o barulho impede o diálogo).


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o confronto:

  • Texto I: Diz que a produção da multidão “com certeza não contribui para a consolidação de uma conversação democrática”. Ele nega a democracia digital.
  • Texto II: Diz que a natureza da rede é “mais propícia às ações democratizadoras, livres e favoráveis ao compartilhamento”. Ele afirma a democracia digital.

Síntese:
Um diz NÃO, o outro diz SIM. A divergência é sobre a compreensão da internet como espaço de construção democrática (A).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“falta de curadoria dos conteúdos”) é um ponto que o Texto I toca (“sem preocupações técnicas”).

  • Por que seduz? Porque o Texto I critica a bagunça.
  • Por que está errada? O Texto II não foca na falta de curadoria como um problema central para negar a democracia; ele vê a descentralização (falta de controle central) como algo positivo (“rede distribuída”). A divergência central não é sobre a curadoria em si, mas sobre o efeito político dessa falta de controle (é bom ou ruim para a democracia?).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: Os textos discordam sobre o valor político da internet: um a vê como ameaça à civilidade democrática, o outro como oportunidade de liberdade.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre democracia, política ou papel social da rede.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) compreensão da internet como espaço de construção democrática.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • Texto I: Nega (“não contribui para a conversação democrática”).
      • Texto II: Afirma (“natureza propícia às ações democratizadoras”).
      • É o ponto exato de conflito.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) uso mal-intencionado das tecnologias de informação e comunicação.
    • Diagnóstico do Erro: Consenso, não Divergência.
    • Narrativa do Erro: Ambos concordam que existe uso mal-intencionado ou problemático (Texto I fala de linchamentos, Texto II fala de posturas de dominação/controle que a rede combate). Não é o ponto central de discordância teórica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) entendimento da internet como meio de exposição de pensamentos.
    • Diagnóstico do Erro: Fato Comum.
    • Narrativa do Erro: Ambos concordam que a internet expõe pensamentos (“multidões opinando” no I; “alguém fala algo” no II). Eles divergem sobre a qualidade dessa exposição, não sobre o fato de ela ocorrer.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) impacto das postagens nas redes de defensores de causas minoritárias.
    • Diagnóstico do Erro: Restrição Temática.
    • Narrativa do Erro: O Texto I fala de “injustiçados”, e o Texto II fala de “defesa ambiental”, mas a discussão é mais ampla (sobre a opinião pública geral), não apenas sobre minorias. Além disso, o foco da divergência é o caráter democrático do todo, não o impacto específico em um grupo.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) falta de curadoria dos conteúdos disponíveis nos ambientes virtuais.
    • Diagnóstico do Erro: Detalhe Técnico.
    • Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, a falta de curadoria é citada no Texto I como causa de problemas, mas o Texto II vê a falta de controle central (arquitetura distribuída) como uma virtude. A divergência maior é sobre o efeito político (democracia), a curadoria é apenas um aspecto técnico desse debate.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A internet é uma faca de dois gumes: enquanto um autor vê o corte da barbárie (“linchamentos”), o outro vê o corte das amarras (“liberdade”). A divergência central está na compreensão da internet como espaço de construção democrática (Alternativa A), revelando que a tecnologia não é neutra, mas um campo de batalha político.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Texto I: Internet = Coliseu (Linchamento).
Texto II: Internet = Ágora (Debate Livre).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este debate reflete a dualidade entre Ciberutopia (anos 90/2000 – a crença de que a internet salvaria a democracia) e Ciberdistopia (anos 2010/2020 – o medo das Fake News e da polarização). A questão captura exatamente esse momento de transição e dúvida sobre o papel da rede.

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