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Questão 18, caderno azul do ENEM 2023 PPL

O grande hall do hotel estava repleto. […] Os criados passavam apressados, erguendo numa azáfama os pratos de metal. Ao alto, os ventiladores faziam um rumor de colmeias. Senhoras e cavalheiros, perfeitamente felizes, as senhoras quase todas com largos boás de plumas brancas, chalravam e sorriam. Estávamos bem na bizarra sociedade de entalhe que é o escol dos hotéis. Alta, longa, comprida, com uma cintura de esmaltes translúcidos e o ar empoado de uma íntima do general Lafayette, a escritora americana cuja admiração por Gonçalves Dias chegara a fazê-la estudar e propagar o Brasil, mastigava gravemente. Logo ao lado, um grupo de engenheiros, também americanos, bebia, com gargalhadas brutais e decerto inconvenientes, champanhe Mumm. […] De vez em quando parava à porta um novo hóspede, hesitava, percorria com o olhar a extensa fila de mesas onde o debinage se acalorava. A um canto, Mlles. Peres, filhas de um rico argentino, yatch-recorderman nas horas vagas e vendedor de gado nas outras, perlavam risadinhas de flerte para o solitário e divino Alberto Guerra, seguro dos seus bíceps, dos seus brilhantes e quiçá dos seus versos.

JOÃO DO RIO. Dentro da noite. São Paulo: Antiqua, 2002 (fragmento).

Nessa descrição, o narrador traça um panorama sociocultural das primeiras décadas do século XX. Sua perspectiva revela uma

A) percepção irônica da importação de valores e modismos.
B) euforia generalizada com as facilidades da modernidade.
C) visão otimista sobre as atitudes da mulher emancipada.
D) adesão propagandística aos gostos burgueses e ao luxo.
E) preocupação nacionalista com a integridade da língua.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Literatura Brasileira: Pré-Modernismo e a obra de João do Rio (a “Belle Époque” tropical).
  • Interpretação de Texto: Identificação de tom (ironia) e crítica social.
  • Contexto Histórico: Início do século XX, francesismo, modernização do Rio de Janeiro.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar um trecho de crônica/conto de João do Rio para identificar a crítica irônica que o autor faz à elite carioca do início do século XX, que tentava imitar desesperadamente os costumes europeus e norte-americanos (“modismos”), criando uma sociedade artificial e superficial (“bizarra sociedade de entalhe”).

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: A questão exige sensibilidade para captar a ironia. O texto descreve cenas de riqueza (“champanhe Mumm”, “boás de plumas”), mas usa adjetivos que desqualificam essa riqueza (“gargalhadas brutais”, “bizarra sociedade”). O aluno precisa perceber que o narrador não está admirando (adesão), mas sim debochando (ironia) dessa elite.

Gabarito: A.

  • Resumo: O narrador descreve o hall do hotel como um palco de vaidades. Ele ridiculariza a escritora americana (“mastigava gravemente”), os engenheiros (“gargalhadas brutais”) e as moças flertando. Ele chama esse grupo de “bizarra sociedade de entalhe”, criticando a superficialidade e a cópia de comportamentos estrangeiros (franceses/americanos).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar o “veneno” do narrador.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “O que o narrador acha dessa gente chique no hotel?”. Ele acha bonito? Ele quer ser igual? Ou ele acha tudo ridículo e falso?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine alguém que vai a uma festa de gala onde todo mundo finge ser francês, mas fala errado e come de boca aberta.

O narrador descreve: “Olha só que ‘chique’, rindo alto e fingindo que entende de arte”.

Isso é ironia. Ele está criticando a tentativa de ser o que não é (importação de valores).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar o cenário: Hotel chique no Rio antigo.
  • Identificar os personagens: Americanos, Argentinos, Brasileiros imitando estrangeiros.
  • Identificar o tom: “bizarra”, “brutais”, “inconvenientes”.
  • Concluir que é uma crítica à importação cultural.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a crítica do autor, precisamos contrastar o que os personagens acham que são com o que o narrador diz que eles são. Vamos usar a Tabela da Ironia Social.

A Aparência (O que eles tentam ser) 🎩 A Realidade (O que o narrador vê) 🤡
O Ambiente: Um hotel chique, “senhoras e cavalheiros felizes”. A Definição: Uma “bizarra sociedade de entalhe” (artificial, esculpida).
A Postura: Elegância europeia, “boás de plumas”, champanhe francês (Mumm). O Comportamento: “Gargalhadas brutais”, “decerto inconvenientes”, “ar empoado” (falso).
A Cultura: Admiração literária, flertes em francês (debinage). O Vazio: A escritora “mastiga gravemente”, o flerte é superficial.

Conceito Chave: O “Bovarismo” Tropical
Esse termo literário descreve a insatisfação com a realidade e a tentativa de viver uma vida idealizada (copiada de romances ou, neste caso, da Europa/EUA). O narrador usa a ironia para mostrar que, ao tentar copiar Paris no calor do Rio, a elite se torna ridícula (“bizarra”), importando modismos que não cabem na realidade local.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar os adjetivos do texto:

  • “Bizarra sociedade de entalhe”: Entalhe é algo esculpido, artificial. Bizarra significa estranha. Ele não está elogiando.
  • “Gargalhadas brutais e decerto inconvenientes”: Ele está criticando a falta de educação dos “chiques”.
  • “Ar empoado de uma íntima do general Lafayette”: Ironia pura. A mulher finge ser da alta nobreza francesa/americana.

Conceito de Importação:
O texto está cheio de estrangeirismos: hall, Mumm, Mademoiselles (Mlles.), yatch-recorderman. Isso mostra que aquela sociedade vivia de importar palavras e modas, muitas vezes de forma ridícula.

Síntese:
O narrador não está eufórico (B) nem aderindo (D). Ele está rindo deles. Ele percebe a ironia de viver num país tropical tentando imitar a Europa e os EUA.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (D) (“adesão propagandística aos gostos burgueses”) é o oposto da verdade.

  • Por que seduz? O texto descreve o luxo com detalhes.
  • Por que está errada? Descrever não é aderir. O narrador descreve para criticar. Quando ele diz que as risadas eram “inconvenientes” e a sociedade “bizarra”, ele está se distanciando e reprovando aquele comportamento, não fazendo propaganda dele.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto usa vocabulário sofisticado para descrever uma cena que, no fundo, é vulgar e artificial.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre ironia, crítica, artificialidade ou imitação de estrangeiros.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) percepção irônica da importação de valores e modismos.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Percepção irônica”: O tom de deboche (“bizarra”, “inconvenientes”).
      • “Importação de valores”: O uso de termos estrangeiros (hall, Mumm, yatch) e a descrição de personagens que imitam hábitos europeus/americanos (“boás de plumas”, “ar empoado”).
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) euforia generalizada com as facilidades da modernidade.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Tom.
    • Narrativa do Erro: O texto menciona ventiladores (“rumor de colmeias”), mas o foco não é a tecnologia ou a euforia com ela. O foco é o comportamento social. E o tom não é de euforia (alegria genuína), mas de observação crítica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) visão otimista sobre as atitudes da mulher emancipada.
    • Diagnóstico do Erro: Interpretação Anacrônica.
    • Narrativa do Erro: As mulheres descritas (com plumas, flertando, “ar empoado”) não são mostradas como símbolos de emancipação feminista, mas como figuras fúteis da sociedade de consumo e aparência. A escritora americana é descrita mastigando “gravemente”, numa imagem pouco lisonjeira.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) adesão propagandística aos gostos burgueses e ao luxo.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão entre Descrição e Elogio.
    • Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, o autor descreve o luxo para mostrar seu vazio (“bizarra sociedade”). Ele não está vendendo ou elogiando esse estilo de vida, está expondo suas falhas.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) preocupação nacionalista com a integridade da língua.
    • Diagnóstico do Erro: Foco Gramatical Inexistente.
    • Narrativa do Erro: O texto usa muitos estrangeirismos (hall, recorderman), o que poderia sugerir o tema, mas o narrador não para para fazer um discurso gramatical ou nacionalista contra isso. Ele usa esses termos para compor o cenário realista da época, sem fazer uma defesa explícita da “língua pura”. A crítica é social, não linguística.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A “Belle Époque” carioca era um teatro de sombras: João do Rio desmascara a elite tropical afrancesada com sua percepção irônica (Alternativa A), mostrando que por baixo dos “boás de plumas” e do champanhe importado, havia uma sociedade que tentava ser o que não era.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
No calor do Rio, a elite usa casaco de pele. O narrador ri do suor deles.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa crítica à “importação de valores” é um tema eterno no Brasil, conhecido como Complexo de Vira-Lata (Nelson Rodrigues). A ideia de que “o que vem de fora é melhor” e a tentativa de copiar estilos de vida incompatíveis com nossa realidade (como prédios de vidro espelhado num país tropical) continuam sendo alvo de crítica cultural até hoje.

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