Para começar, ele nos olha na cara. Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar dizendo: vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer. A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Às vezes, quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!”.
Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Esse negócio de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer. A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas não tinha o mesmo ar de quem só aguentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento. E a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público.
VERISSIMO, L. F. Pai não entende nada. Porto Alegre: L&PM, 1990.
Ao descrever sua relação com a máquina de escrever e o computador, o cronista adota uma perspectiva que
A) põe em evidência a disparidade entre tecnologias.
B) critica a quantidade de recursos dos dispositivos.
C) defende a utilização de equipamentos obsoletos.
D) sobrepõe a inteligência humana à da máquina.
E) refuta o progresso técnico da comunicação.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto: Identificação de tese e tom narrativo.
- Gênero Textual: Crônica (Luis Fernando Verissimo).
- Estilística: Personificação e Ironia.
Tema/Objetivo Geral:
Analisar uma crônica de Luis Fernando Verissimo para identificar a comparação humorística entre duas eras tecnológicas: a da máquina de escrever (submissa) e a do computador (arrogante/dominante), destacando a disparidade entre essas experiências.
Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão é simples se o aluno entender a palavra “disparidade”. O texto é todo construído em cima de contrastes: máquina de escrever = submissa; computador = desafiador. A dificuldade está em filtrar o humor para chegar à essência comparativa.
Gabarito: A.
- Resumo: O cronista personifica o computador como um ser superior e arrogante que “desafia” o usuário, em contraste com a máquina de escrever, que era submissa e “fazia tudo que você mandava”. Essa comparação destaca a disparidade (diferença gritante) entre a tecnologia antiga (passiva) e a nova (interativa/dominante).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Função Pedagógica: Identificar o eixo da comparação.
Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “O que o autor faz ao falar da máquina de escrever e do computador?”. Ele diz que um é melhor que o outro? Ele diz que odeia tecnologia? Ou ele apenas mostra como eles são muito diferentes?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Máquina de Escrever: Um cachorro velho e obediente.
Computador: Um gato arrogante que manda em você.
O autor está mostrando a diferença (disparidade) de personalidade entre os dois “bichos”.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Listar as características da máquina de escrever: “olha de cima”, “faz tudo que você manda”.
- Listar as características do computador: “olho no olho”, “desafia”, “faz bip”, “mais inteligente”.
- Concluir que o texto foca no contraste/diferença entre elas.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o humor da crônica, vamos usar a Tabela de Contrastes Tecnológicos.
| Máquina de Escrever 📠 | Computador 💻 |
| Relação de Poder: O humano manda (“olha de cima”). | Relação de Poder: A máquina manda (“olho no olho”, “desafia”). |
| Obediência: Total (“faz tudo que você manda”). | Obediência: Condicional (“precisa fazer ao modo dele”). |
| Erro: Silencioso/Discreto. | Erro: Público/Humilhante (“Bip!”, “o burro errou”). |
| Inteligência: Inferior ao humano. | Inteligência: Superior (“ele é mais inteligente que você”). |
Conceito Chave: Disparidade
Disparidade significa desigualdade, diferença, dessemelhança. O texto é um exercício de mostrar como essas duas tecnologias são dispares na forma como nos relacionamos com elas.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar o texto:
- “Não é como a máquina de escrever… Com o computador é diferente.”
- Essa frase é a chave. Ele está estabelecendo uma comparação baseada na diferença.
- “Você faz tudo que ele manda.”
- Ele inverte a lógica da ferramenta. A ferramenta vira o patrão.
- “A máquina… jamais faria ‘bip’ em público.”
- Ele destaca a “personalidade” superior da máquina antiga em termos de etiqueta, mas reconhece a superioridade técnica (“inteligente”) do computador.
Síntese:
Ele não está dizendo “voltem para a máquina de escrever” (C) nem “o computador é ruim” (E). Ele está constatando, com humor, que a relação mudou drasticamente. A tecnologia nova não é apenas uma versão melhorada da antiga; ela é uma entidade com vida própria.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“refuta o progresso técnico”) é um distrator perigoso.
- Por que seduz? Porque o autor reclama do computador (“desprezível”, “bip”).
- Por que está errada? Reclamar ou fazer piada não é refutar (negar/rejeitar) o progresso. Ele usa o computador (“Comecei a usar…”). Ele reconhece que o computador “tem coisas para oferecer” e é “mais inteligente”. A crônica é uma observação irônica sobre a adaptação, não um manifesto ludita (anti-tecnologia). Ele aceita o computador, só acha ele “chato”.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto contrasta a submissão da máquina antiga com a autonomia intimidante da máquina nova.
- Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre diferença, contraste, comparação ou disparidade.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) põe em evidência a disparidade entre tecnologias.
- Análise de Correspondência: Perfeito. “Disparidade” resume o contraste explorado no texto: uma é submissa, a outra é desafiadora; uma aceita tudo, a outra exige regras; uma é burra, a outra é inteligente. O texto é todo construído sobre essa diferença.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- B) critica a quantidade de recursos dos dispositivos.
- Diagnóstico do Erro: Foco Secundário.
- Narrativa do Erro: Ele menciona que “você jamais aproveitará metade das coisas”, mas isso é um comentário sobre a nossa incapacidade, não uma crítica à máquina ter recursos demais. O foco não é a quantidade de botões, mas a relação de domínio.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) defende a utilização de equipamentos obsoletos.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação Literal de Saudosismo.
- Narrativa do Erro: Ele sente falta da submissão da máquina de escrever, mas não propõe seriamente que voltemos a usá-la. Ele sabe que ela “não tinha coisa melhor no momento”. A crônica é humorística, não um editorial retrógrado.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) sobrepõe a inteligência humana à da máquina.
- Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
- Narrativa do Erro: O texto diz com todas as letras: “ele [o computador] é mais inteligente que você”. O autor se coloca como o “burro” que errou. Ele inverte a lógica humanista, dizendo que a máquina é superior.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) refuta o progresso técnico da comunicação.
- Diagnóstico do Erro: Exagero Interpretativo.
- Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, ele não nega o progresso. Ele narra o desconforto de se adaptar a ele. “Refutar” seria dizer que o progresso é mentira ou inútil, o que ele não faz.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A tecnologia evoluiu de serva para senhora: ao comparar a dócil máquina de escrever com o arrogante computador, Verissimo usa o humor para evidenciar a disparidade (Alternativa A) entre uma ferramenta que controlávamos e uma que parece nos controlar.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
A máquina de escrever é um martelo (você bate). O computador é um professor chato (ele te corrige).
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa “humanização” da máquina (atribuir inteligência e vontade ao computador) é um tema central na ficção científica (HAL 9000, Skynet) e na filosofia da tecnologia. Hoje, com IAs que realmente “conversam” e “corrigem”, a crônica de Verissimo de 1990 parece profética sobre a nossa submissão aos algoritmos.