Preámbulo a las instrucciones para dar cuerda al reloj
Piensa en esto: cuando te regalan un reloj te regalan un pequeño infierno florido, una cadena de rosas, un calabozo de aire. No te dan solamente el reloj, que los cumplas muy felices y esperamos que te dure porque es de buena marca, suizo con áncora de rubíes; no te regalan solamente ese menudo picapedrero que te atarás a la muñeca y pasearás contigo. Te regalan -no lo saben, lo terrible es que no lo saben-, te regalan un nuevo pedazo frágil y precario de ti mismo, algo que es tuyo pero no es tu cuerpo, que hay que atar a tu cuerpo con su correa como un bracito desesperado colgándose de tu muñeca. Te regalan la necesidad de darle cuerda todos los días, la obligación de darle cuerda para que siga siendo un reloj; te regalan la obsesión de atender a la hora exacta en las vitrinas de las joyerías, en el anuncio por la radio, en el servicio telefónico. Te regalan el miedo de perderlo, de que te lo roben, de que se te caiga al suelo y se rompa. Te regalan su marca, y la seguridad de que es una marca mejor que las otras, te regalan la tendencia de comparar tu reloj con los demás relojes. No te regalan un reloj, tú eres el regalado, a ti te ofrecen para el cumpleaños del reloj.
CORTÁZAR, J. Historias de cronopios y de famas. Buenos Aires: Sudamericana, 1963 (fragmento).
Nesse texto, Júlio Cortázar transforma pequenas ações cotidianas em criação literária,
A) denunciando a má qualidade dos relógios modernos em relação aos antigos.
B) apresentando possibilidades de sermos presenteados com um relógio.
C) convidando o leitor a refletir sobre a coisificação do ser humano.
D) desafiando o leitor a pensar sobre a efemeridade do tempo.
E) criticando o leitor por ignorar os malefícios do relógio

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de texto, figuras de linguagem, crítica social, análise literária.
🎯 Nível da Questão: Médio.
✅ Gabarito: Letra C.
📖 Resolução Passo a Passo
🔍 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O comando da questão pede a interpretação do texto de Júlio Cortázar, especificamente sobre como ele transforma ações cotidianas em literatura. O enunciado direciona a análise para a maneira como o autor dá um novo significado ao ato de ganhar um relógio.
⚠️ As palavras-chave que guiam a compreensão do texto são:
- “transforma pequenas ações cotidianas em criação literária” → indica que a análise deve se concentrar no efeito produzido pelo autor sobre um ato comum, tornando-o mais profundo.
- “presentear com um relógio” → o foco do texto não está no objeto em si, mas no que ele representa simbolicamente.
O objetivo da questão é identificar qual interpretação reflete melhor a mensagem central do texto.
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Para interpretar o texto corretamente, é essencial entender:
- Figuras de linguagem: Cortázar usa metáforas e analogias para transformar o simples ato de ganhar um relógio em um reflexo sobre a vida moderna.
- Crítica à coisificação do ser humano: A obra reflete sobre como objetos podem dominar a vida das pessoas, tornando-se quase parte delas.
- Tom irônico e reflexivo: A forma como o autor descreve a relação entre o relógio e seu dono sugere uma inversão de papéis — em vez de ser um presente para o humano, é o humano que se torna um presente para o relógio.
📜 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O texto descreve o ato de receber um relógio como algo muito além de um simples presente. Cortázar apresenta essa situação com um tom irônico e crítico, sugerindo que, ao ganhar um relógio, a pessoa também ganha obrigações, ansiedades e um vínculo inescapável com o tempo.
Frases-chave que sustentam essa interpretação:
- “No te regalan solamente el reloj…” → O presente não é apenas o objeto físico, mas também todas as preocupações que vêm com ele.
- “Te regalan la necesidad de darle cuerda todos los días…” → O relógio exige manutenção constante, tornando-se quase um dever.
- “Tú eres el regalado, a ti te ofrecen para el cumpleaños del reloj.” → Aqui ocorre a inversão: não é o relógio que pertence à pessoa, mas a pessoa que passa a pertencer ao relógio.
Isso sugere uma crítica à maneira como os objetos podem dominar a vida humana, levando à coisificação do ser humano.
🤔 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
O texto não fala sobre relógios apenas como objetos, mas como símbolos da sociedade moderna, onde o tempo rege as nossas vidas e nos torna escravos da rotina.
A ideia central gira em torno da inversão de posse: ao invés de ganhar um presente, o indivíduo se torna subordinado a ele. Isso pode ser interpretado como uma crítica ao consumismo e à forma como objetos podem controlar a existência humana.
Essa abordagem encaixa-se no conceito de coisificação, que ocorre quando seres humanos são reduzidos a meros instrumentos ou propriedades, perdendo sua autonomia. Cortázar sugere que, ao possuir um relógio, a pessoa também se torna um objeto a serviço dele.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas e Resolução
- (A) “denunciando a má qualidade dos relógios modernos em relação aos antigos.”
🚫 ERRADA. O texto não faz comparação entre a qualidade dos relógios novos e antigos. Ele critica a relação de dependência criada pelo objeto, e não sua durabilidade.
- (B) “apresentando possibilidades de sermos presenteados com um relógio.”
🚫 ERRADA. O foco do texto não é listar formas de se ganhar um relógio, mas sim as implicações simbólicas desse presente.
- (C) “convidando o leitor a refletir sobre a coisificação do ser humano.”
✅ CORRETA. O texto sugere que, ao ganhar um relógio, o indivíduo passa a pertencer a ele, refletindo sobre a coisificação do ser humano.
- (D) “desafiando o leitor a pensar sobre a efemeridade do tempo.”
🚫 ERRADA. Embora o texto mencione o tempo, o foco principal não é a efemeridade, mas sim a relação de domínio que o tempo e os objetos exercem sobre as pessoas.
- (E) “criticando o leitor por ignorar os malefícios do relógio.”
🚫 ERRADA. O texto não acusa o leitor diretamente, mas sim expõe uma crítica sutil à relação que as pessoas criam com os objetos.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
O texto de Cortázar utiliza metáforas e ironia para mostrar como objetos podem dominar nossas vidas. Ao descrever o ato de ganhar um relógio, ele revela a inversão de papéis: o dono passa a ser “presenteado” ao relógio, tornando-se parte de uma engrenagem social onde o tempo rege tudo.