Questão 19, caderno azul do ENEM 2018 – Dia 1

BRANCO, A. Disponível em: www.oesquema.com.br. Acesso em: 30 jun. 2015 (adaptado).

A internet proporcionou o surgimento de novos paradigmas sociais e impulsionou a modificação de outros já estabelecidos nas esferas da comunicação e da informação. A principal consequência criticada na tirinha sobre esse processo é a
a) criação de memes.
b) ampliação da blogosfera.
c) supremacia das ideias cibernéticas.
d) comercialização de pontos de vista.
e) banalização do comércio eletrônico.

Resolução em Vídeo

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto (Gênero textual: Tirinha/Cartum).
  • Sociologia Digital (Mercantilização da Informação e Pós-Verdade).
  • Recursos de Humor (Ironia e Sátira).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a crítica social feita através do humor gráfico sobre a transformação da internet: de um espaço de debate ideológico para um balcão de negócios onde a própria opinião é o produto à venda.

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: O aluno precisa ultrapassar a leitura literal (apenas ver os personagens falando) e entender a ironia subjacente que conecta “ética”, “preço” e “opinião”, identificando o fenômeno sociológico da monetização da influência.

Gabarito:
Letra D – comercialização de pontos de vista.
Resumo: A tirinha mostra personagens negociando valores (X e Y) por formatos de conteúdo (meme, textão) e afirmando que “coerência” não importa para um “profissional”. Isso evidencia que a crítica central é sobre vender a própria opinião como mercadoria.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
A questão pede para identificarmos o alvo da crítica da tirinha. O autor não desenhou isso apenas para fazer rir; ele desenhou para denunciar uma mudança de comportamento na sociedade digital. Precisamos encontrar a alternativa que resume essa mudança negativa (consequência criticada).

A Analogia Central (O Mercadão das Ideias):
Imagine que a internet antigamente era uma “praça pública” onde as pessoas debatiam ideias por convicção. A tirinha sugere que a internet virou um “shopping center”. Nesse shopping, não se vendem sapatos ou roupas, vendem-se convicções. O blogueiro não defende o que acredita; ele defende quem paga mais.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Analisar cada quadro da tirinha separadamente.
  2. Identificar o elemento comum entre os três quadros (Dinheiro/Preço).
  3. Concluir qual “produto” está sendo vendido.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar um Diagrama de Transformação para entender a crítica do autor:

ANTES (Idealizado)DEPOIS (Crítica da Tirinha)
Motivação: Ideologia / Crença.Motivação: Dinheiro / Profissionalismo.
Valor: Coerência (“Torcedor”).Valor: Lucro / Oportunidade.
Produto: Debate de ideias.Produto: “Meme por X”, “Textão por Y”.

Ferramenta de Interpretação: A Ironia
Quando o personagem diz “Coerência é coisa de torcedor, eu sou profissional”, ele está sendo irônico/cínico. Ele inverte um valor moral (ter coerência é bom) para justificar sua falta de ética (mudar de lado por dinheiro é ser “profissional”).


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar a tirinha quadro a quadro:

  • Quadro 1 (Ideologia): Um personagem cobra o outro por mudar de lado político. A resposta é cínica: ele não tem lado, ele tem clientes. Ele é um mercenário da informação.
  • Quadro 2 (Novas Oportunidades): Aqui vemos a tabela de preços. “Meme eu cobro X, Textão eu cobro Y”. Isso prova que o formato da mensagem não importa, desde que paguem. A comunicação virou um serviço tarifado.
  • Quadro 3 (Nova Bolha): “Viu o preço da opinião na internet?”. Aqui está a cereja do bolo. A palavra OPINIÃO aparece associada a PREÇO.

Síntese do Detetive:
A tirinha não critica a internet por existir, nem os memes por serem engraçados. Ela critica o fato de que pontos de vista (opiniões) viraram produtos comerciais. A ética foi substituída pela etiqueta de preço.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com o foco no objeto errado!
Muitos alunos olham para o Quadro 2, veem a palavra “Meme”, e correm para marcar a alternativa que fala de memes. Lembre-se: o meme é apenas o meio; a crítica é sobre a venda desse meio. Não confunda a ferramenta (meme/blog) com a ação criticada (vender a consciência).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A internet transformou convicções pessoais em ativos financeiros negociáveis.
  • Expectativa: Devemos buscar uma alternativa que fale sobre “venda”, “comércio” ou “lucro” atrelado a “ideias”, “opiniões” ou “pontos de vista”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) criação de memes.

  • Diagnóstico do Erro: Reducionismo (Parte pelo Todo).
  • Análise: O meme aparece no segundo quadro, mas ele é citado apenas como um dos formatos vendidos. A crítica não é “criar memes é ruim”, mas sim “cobrar para fazer memes com opiniões encomendadas é antiético”.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.


b) ampliação da blogosfera.

  • Diagnóstico do Erro: Fato Neutro vs. Crítica.
  • Análise: A blogosfera (universo dos blogs) realmente se ampliou. Isso é um fato histórico. Porém, a tirinha não está criticando o tamanho da blogosfera, mas sim o comportamento ético dentro dela.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.


c) supremacia das ideias cibernéticas.

  • Diagnóstico do Erro: Abstração / Termo Vago.
  • Análise: O que seriam “ideias cibernéticas”? O termo soa futurista, mas não faz sentido no contexto. A tirinha fala de política e dinheiro, coisas bem humanas e antigas, apenas aplicadas ao meio digital.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.


d) comercialização de pontos de vista.

  • Análise: Perfeito.
    • “Comercialização”: Refere-se às falas “sou profissional”, “eu cobro X”, “preço da opinião”.
    • “Pontos de vista”: Refere-se a ser “blogueiro de oposição”, fazer “textão” e dar “opinião”.
    • A tirinha denuncia exatamente a venda da subjetividade.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.


e) banalização do comércio eletrônico.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / DISTRATOR CONCEITUAL.
    • Por que atrai: Fala de “comércio” e “internet” (eletrônico). O aluno pensa: “Ah, estão vendendo coisas na internet”.
    • Por que falha: O termo “comércio eletrônico” (e-commerce) é usado tecnicamente para a venda de bens e serviços tradicionais (sapatos, livros, eletrônicos). A tirinha critica um tipo específico e novo de comércio: o comércio de influência e opinião. Chamar isso de “banalização do comércio eletrônico” genérico erra o alvo, pois sugere que o problema é vender coisas online, quando o problema é vender a consciência.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

A internet não mudou apenas como falamos, mas por que falamos. Quando a audiência vira moeda, a verdade vira mercadoria.


Resumo-flash: ⚡
“Na vitrine digital, até a indignação tem código de barras.”


🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este tema conecta-se diretamente com o conceito de “Capitalismo de Vigilância” e a era dos “Influenciadores Digitais”. Hoje, temos o termo “Publi” (publicidade), onde influenciadores são pagos para falar bem de produtos ou ideias. A tirinha é uma ancestral crítica dessa cultura onde não sabemos mais se a pessoa está elogiando porque gosta ou porque foi paga. Pense também na série Black Mirror, que explora como a tecnologia monetiza nossas interações humanas.

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