Na sociologia e na literatura, o brasileiro foi por vezes tratado como cordial e hospitaleiro, mas não é isso o que acontece nas redes sociais: a democracia racial apregoada por Gilberto Freyre passa ao largo do que acontece diariamente nas comunidades virtuais do país. Levantamento inédito realizado pelo projeto Comunica que Muda […] mostra em números a intolerância do internauta tupiniquim. Entre abril e junho, um algoritmo vasculhou plataformas […] atrás de mensagens e textos sobre temas sensíveis, como racismo, posicionamento político e homofobia. Foram identificadas 393 284 menções, sendo 84% delas com abordagem negativa, de exposição do preconceito e da discriminação.
Disponível em: <https://oglobo.globo.com>. Acesso em: 6 dez. 2017 (adaptado).
Ao abordar a postura do internauta brasileiro mapeada por meio de uma pesquisa em plataformas virtuais, o texto:
a) minimiza o alcance da comunicação digital.
b) refuta ideias preconcebidas sobre o brasileiro.
c) relativiza responsabilidades sobre a noção de respeito.
d) exemplifica conceitos contidos na literatura e na sociologia.
e) expõe a ineficácia dos estudos para alterar tal comportamento.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto (Identificação de Tese e Antítese).
- Sociologia Brasileira (Mito da Democracia Racial e O Homem Cordial).
- Cultura Digital e Comportamento em Redes Sociais.
Tema/Objetivo Geral:
Identificar a função argumentativa de dados estatísticos em um texto jornalístico. O objetivo é perceber o contraste entre uma teoria antiga (o brasileiro bonzinho) e a realidade nova (o brasileiro intolerante na internet).
Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: Exige que o aluno tenha um conhecimento prévio básico sobre o estereótipo do “brasileiro cordial” ou, no mínimo, capacidade de interpretar a conjunção adversativa “mas” que quebra a expectativa logo no início do texto.
Gabarito:
Letra B – refuta ideias preconcebidas sobre o brasileiro.
Resumo: O texto apresenta dados (“números da intolerância”) que funcionam como prova concreta para derrubar (refutar) a antiga imagem idealizada de que o Brasil é um paraíso racial e afetivo.
Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
A Missão:
A questão quer saber qual é o efeito do confronto entre a Teoria Clássica (Livros de Sociologia) e a Prática Digital (Pesquisa no Facebook/Twitter). O texto coloca essas duas coisas no ringue. Quem ganha? E o que o autor conclui com essa briga?
A Analogia Central (O Teste de DNA):
Imagine que a Literatura e a Sociologia antiga são como um pai dizendo: “Meu filho (o povo brasileiro) é um anjo, educado e não briga com ninguém”.
A Pesquisa na Internet é o “Teste de DNA” ou a “Câmera de Segurança”. Ela mostra o filho brigando e xingando.
A questão pergunta: O que a filmagem (o texto) faz com o discurso do pai? Ela confirma ou desmente?
Nosso Plano de Ataque:
- Identificar a ideia antiga (Brasileiro cordial/Hospitaleiro).
- Identificar a prova nova (Algoritmo achou 84% de mensagens negativas).
- Encontrar o verbo que liga as duas (Confirmar? Negar? Refutar?).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos usar um Fluxograma de Oposição para visualizar o argumento do texto:
- Tese (O Mito):
- Gilberto Freyre / Sociologia Clássica.
- Conceitos: “Democracia Racial”, “Cordialidade”, “Hospitalidade”.
- O que se pensava: “No Brasil, todo mundo se dá bem.”
- O Elemento de Ruptura (O “Mas”): ⚡
- Conjunção adversativa no texto: “…mas não é isso o que acontece…”
- Antítese (A Realidade):
- Pesquisa “Comunica que Muda”.
- Dados: 393 mil menções, 84% negativas (racismo, homofobia).
- O que se viu: “O brasileiro é intolerante.”
Ferramenta Linguística: A expressão “Passar ao largo”.
No texto, diz-se que a democracia racial “passa ao largo” da realidade. Isso significa que ela passa longe, não se encontra, não toca a realidade. É uma forma elegante de dizer: “Isso é mentira na prática”.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos seguir a pista deixada pelo autor.
Logo na primeira linha, ele apresenta o suspeito: “o brasileiro foi por vezes tratado como cordial”.
Imediatamente, ele apresenta a evidência do crime: “…mas não é isso o que acontece nas redes sociais”.
O texto cita um “levantamento inédito” (uma prova científica). O resultado dessa prova é assustador: o brasileiro “tupiniquim” na internet é racista, homofóbico e politicamente agressivo.
Se a teoria diz “A” (Cordial) e a realidade mostra “B” (Intolerante), o texto está usando “B” para dizer que “A” está errado.
Em linguagem acadêmica, dizer que uma ideia anterior está errada com base em provas chama-se REFUTAR.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a interpretação do “Homem Cordial”!
Muitos alunos erram ao pensar que o texto está criticando a internet por ter estragado o brasileiro. Não! O texto diz que a internet apenas revelou a verdadeira face que estava escondida. A armadilha é achar que o brasileiro era bom e ficou ruim. O texto sugere que a ideia de que ele era bom já era uma “ideia preconcebida” (um mito) que agora caiu por terra.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto usa dados estatísticos atuais para desmentir uma crença sociológica antiga.
- Expectativa: Devemos buscar um verbo de negação/oposição (negar, contestar, refutar, desmentir).
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
a) minimiza o alcance da comunicação digital.
- Diagnóstico do Erro: Contradição de Fato.
- Análise: O texto faz o oposto. Ele mostra que a comunicação digital é tão poderosa e vasta que serviu de base para um estudo inédito que revelou a “verdadeira face” da nação.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
b) refuta ideias preconcebidas sobre o brasileiro.
- Análise: Perfeita. “Ideia preconcebida” = O brasileiro é cordial/hospitaleiro. “Refuta” = Mostra que isso é falso através dos dados de ódio nas redes. O texto prova que o mito da bondade não se sustenta na era digital.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
c) relativiza responsabilidades sobre a noção de respeito.
- Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / EXTRAPOLAÇÃO.
- Por que confunde: Alguns alunos pensam que “na internet ninguém tem responsabilidade”.
- Por que está errada: O texto não está discutindo a responsabilidade individual (quem é culpado?), mas sim fazendo um diagnóstico social. Ele aponta o fato (existe desrespeito), não relativiza a culpa.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
d) exemplifica conceitos contidos na literatura e na sociologia.
- Diagnóstico do Erro: Inversão de Sentido (Oposto).
- Análise: Esta é a que pega os desatentos! O texto cita a literatura e a sociologia (Gilberto Freyre), mas não para exemplificar (confirmar), e sim para contradizer. O comportamento na internet é o oposto do conceito literário citado.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
e) expõe a ineficácia dos estudos para alterar tal comportamento.
- Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema / Conclusão Indevida.
- Análise: O texto apresenta um estudo (o levantamento). O objetivo desse estudo foi mapear o problema, não curar o problema. Não se pode dizer que o estudo foi ineficaz se a função dele era apenas mostrar a realidade (o que ele fez com sucesso).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
A internet agiu como um “soro da verdade” para a sociedade brasileira, mostrando que o mito da “Democracia Racial” (de que não somos racistas) não sobrevive a uma análise dos comentários do Facebook.
Resumo-flash: ⚡
“O livro dizia ‘paz e amor’, o post mostrou ‘ódio e rancor’: o mito foi derrubado.”
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com o conceito de “Homem Cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (obra: Raízes do Brasil). Sérgio dizia que o brasileiro age pelo coração (cordial vem de cor, cordis). Mas agir pelo coração não é ser bondoso; é ser passional. O brasileiro ama intensamente, mas também odeia intensamente, tem dificuldade em separar o público do privado e em seguir regras impessoais. O ódio na internet, ironicamente, confirma a “cordialidade” no sentido original de Sérgio Buarque (agir pela emoção, sem filtro racional), embora refute a “cordialidade” no sentido popular (educação/gentileza) citado no texto da questão.