Menina
A máquina de costura avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mão era, com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos, enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura. Interrompia às vezes seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido da mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita chamava-a de ( ) como quem diz ( ). Tentava não pensar as palavras, mas sabia que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome depressa depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e -Mamãe, o que é desquitada? – atirou rápida com uma voz sem timbre. Tudo ficou suspenso, se alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia – sentia Ana Lúcia. Era muito forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mão parada com a tesoura no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina avançando desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz luz.
ÂNGELO, I. Menina. In: A face horrível. São Paulo: Lazuli, 2017.
Escrita na década de 1960, a narrativa põe em evidência uma dramaticidade centrada na
A) insinuação da lacuna familiar gerada pela ausência da figura paterna.
B) associação entre a angústia da menina e a reação intempestiva da mãe.
C) relação conflituosa entre o trabalho doméstico e a emancipação feminina.
D) representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança.
E) expressão de dúvidas existenciais intensificadas pela percepção do abandono.

✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira Contemporânea (Análise de Conto).
- Sociologia e História (Contexto Social da Década de 1960).
- Foco Narrativo (Perspectiva Infantil).
Tema/Objetivo Geral:
Interpretar como um texto literário reflete tensões sociais de sua época (anos 60) através do olhar de uma personagem infantil, focando no peso das palavras e seus estigmas.
Nível da Questão
Médio.
A questão exige que o candidato tenha, além da capacidade de interpretação de texto, uma noção do contexto histórico-cultural brasileiro (o que significava ser “desquitada” nos anos 60). Sem esse repertório, a tensão da cena parece exagerada ou incompreensível.
Gabarito
Letra D.
A narrativa constrói o drama ao mostrar como uma criança percebe o peso assustador de um rótulo social (“desquitada”) que marcava negativamente as mulheres separadas naquela época.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer identificar a fonte da tensão (dramaticidade) na cena. Por que uma pergunta simples de uma criança faz parecer que “o mundo ia acabar”?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você está em uma reunião de família muito rígida e uma criança solta um palavrão proibido ou toca em um segredo de família vergonhoso.
- O silêncio que se instala é ensurdecedor.
- A criança não entende exatamente o que aquilo significa, mas sente o medo e a gravidade através da reação dos adultos.
O verdadeiro desafio aqui é perceber que o monstro da história não é uma pessoa, mas uma palavra (“desquitada”) e o preconceito que ela carrega.
Plano de Ataque:
- Contextualizar a Palavra-Chave: O que é “desquitada”? (Mulher separada antes da lei do divórcio, vista com preconceito).
- Analisar a Reação: Como a menina e o ambiente reagem à palavra? (Suspensão, medo, paralisia).
- Identificar o Filtro: Quem está sentindo esse medo? (A criança, Ana Lúcia).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Precisamos de duas ferramentas principais:
1. Dossiê Histórico: O Desquite (Anos 60)
Antes de 1977, não existia divórcio no Brasil. O “desquite” era a separação legal, mas não permitia casar de novo. A sociedade patriarcal e conservadora via a mulher desquitada como uma “mulher falhada” ou moralmente questionável. Era um estigma pesado.
2. A Ótica da Criança (Modulação de Perspectiva)
O autor usa a criança como um sismógrafo. Ela não entende a sociologia do desquite, mas capta a vibração emocional.
- Adulto: Sente vergonha/preocupação.
- Criança (Ana Lúcia): Sente que “Deus ia aparecer” ou “o mundo ia acabar”. A criança amplifica o drama.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar a cena do crime emocional:
- A Calmaria: A mãe costura, a menina admira. Tudo certo.
- O Gatilho: A menina ouviu a palavra de terceiros (Tita). Ela sente que a palavra é proibida (“Tentava não pensar as palavras”).
- O Disparo: “Mamãe, o que é desquitada?”
- O Impacto (A Dramaticidade):
- “Tudo ficou suspenso”.
- “A mão parada com a tesoura no ar”.
- A percepção da menina: “se alguém gritasse o mundo acabava”.
Síntese: A dramaticidade não vem de uma briga ou de um grito. Ela vem do peso invisível do estigma social. A menina sente que tocou em uma ferida aberta da sociedade.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode focar na máquina de costura e achar que o texto é sobre “trabalho feminino” (Letra C) ou focar na ausência do pai (Letra A).
Como não cair: Pergunte-se: O que causou o “congelamento” da cena? Foi a falta do pai? Não. Foi o trabalho? Não. Foi a pergunta sobre a palavra. O foco é a palavra e o choque que ela causa.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A cena dramatiza o medo e o tabu em torno da condição da mulher separada nos anos 60, vistos através do medo exagerado de uma criança.
- Expectativa: A alternativa deve ligar o “preconceito/rótulo” (estigma) à “visão da menina” (perspectiva da criança).
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) insinuação da lacuna familiar gerada pela ausência da figura paterna.
- Diagnóstico do Erro: Foco na Causa, não no Efeito Dramático.
- Análise: O fato de a mãe ser desquitada implica a ausência do pai, mas a dramaticidade da cena (o suspense, o medo do fim do mundo) é gerada pelo tabu da palavra, não pela saudade do pai. A menina não chora pelo pai, ela teme a palavra.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) associação entre a angústia da menina e a reação intempestiva da mãe.
- Diagnóstico do Erro: Erro de Vocabulário/Leitura.
- Análise: “Intempestiva” significa explosiva, barulhenta, repentina. A reação da mãe foi o oposto: paralisia. “A mão parada com a tesoura no ar”. O drama está no silêncio tenso, não numa explosão de raiva.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) relação conflituosa entre o trabalho doméstico e a emancipação feminina.
- Diagnóstico do Erro: Extrapolação Temática (Anacronismo).
- Análise: Embora a mãe trabalhe (costure), o texto não foca no conflito “trabalho x liberdade”. O conflito é moral/social (o estigma do desquite). A costura é apenas o cenário da ação.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- “Estigmas sociais” = O peso negativo da palavra “desquitada”.
- “Modulados pela perspectiva da criança” = A forma como esse peso é sentido (como um apocalipse, “o mundo acabava”). A criança sente a gravidade social como um terror cósmico.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
E) expressão de dúvidas existenciais intensificadas pela percepção do abandono.
- Diagnóstico do Erro: Generalização Filosófica.
- Análise: A dúvida da menina é concreta e lexical: “O que significa essa palavra?”. Não é uma crise existencial sobre “quem sou eu” ou “por que fui abandonada”. É o medo de ter violado um tabu.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A alternativa D é a correta pois identifica que a tensão do conto reside no choque entre a inocência infantil e a brutalidade do preconceito social contra a mulher desquitada nos anos 60.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Para a sociedade, “desquitada” era um rótulo; para a criança, era uma bomba que poderia explodir a casa.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Na literatura brasileira, esse tema é recorrente em Clarice Lispector (laços de família, epifanias domésticas) e Lygia Fagundes Telles. Autoras que mostram como o ambiente doméstico, aparentemente calmo, esconde vulcões de repressão social e psicológica.