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Questão 21, caderno azul do ENEM 2019 – DIA 1

Menina

A máquina de costura avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mão era, com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos, enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura. Interrompia às vezes seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido da mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita chamava-a de ( ) como quem diz ( ). Tentava não pensar as palavras, mas sabia que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome depressa depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e -Mamãe, o que é desquitada? – atirou rápida com uma voz sem timbre. Tudo ficou suspenso, se alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia – sentia Ana Lúcia. Era muito forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mão parada com a tesoura no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina avançando desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz luz.

ÂNGELO, I. Menina. In: A face horrível. São Paulo: Lazuli, 2017.

Escrita na década de 1960, a narrativa põe em evidência uma dramaticidade centrada na

A) insinuação da lacuna familiar gerada pela ausência da figura paterna.

B) associação entre a angústia da menina e a reação intempestiva da mãe.

C) relação conflituosa entre o trabalho doméstico e a emancipação feminina.

D) representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança.

E) expressão de dúvidas existenciais intensificadas pela percepção do abandono.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Literatura Brasileira Contemporânea (Análise de Conto).
  • Sociologia e História (Contexto Social da Década de 1960).
  • Foco Narrativo (Perspectiva Infantil).

Tema/Objetivo Geral:

Interpretar como um texto literário reflete tensões sociais de sua época (anos 60) através do olhar de uma personagem infantil, focando no peso das palavras e seus estigmas.

Nível da Questão

Médio.
A questão exige que o candidato tenha, além da capacidade de interpretação de texto, uma noção do contexto histórico-cultural brasileiro (o que significava ser “desquitada” nos anos 60). Sem esse repertório, a tensão da cena parece exagerada ou incompreensível.

Gabarito

Letra D.
A narrativa constrói o drama ao mostrar como uma criança percebe o peso assustador de um rótulo social (“desquitada”) que marcava negativamente as mulheres separadas naquela época.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer identificar a fonte da tensão (dramaticidade) na cena. Por que uma pergunta simples de uma criança faz parecer que “o mundo ia acabar”?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você está em uma reunião de família muito rígida e uma criança solta um palavrão proibido ou toca em um segredo de família vergonhoso.

  • O silêncio que se instala é ensurdecedor.
  • A criança não entende exatamente o que aquilo significa, mas sente o medo e a gravidade através da reação dos adultos.
    O verdadeiro desafio aqui é perceber que o monstro da história não é uma pessoa, mas uma palavra (“desquitada”) e o preconceito que ela carrega.

Plano de Ataque:

  1. Contextualizar a Palavra-Chave: O que é “desquitada”? (Mulher separada antes da lei do divórcio, vista com preconceito).
  2. Analisar a Reação: Como a menina e o ambiente reagem à palavra? (Suspensão, medo, paralisia).
  3. Identificar o Filtro: Quem está sentindo esse medo? (A criança, Ana Lúcia).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Precisamos de duas ferramentas principais:

1. Dossiê Histórico: O Desquite (Anos 60)
Antes de 1977, não existia divórcio no Brasil. O “desquite” era a separação legal, mas não permitia casar de novo. A sociedade patriarcal e conservadora via a mulher desquitada como uma “mulher falhada” ou moralmente questionável. Era um estigma pesado.

2. A Ótica da Criança (Modulação de Perspectiva)
O autor usa a criança como um sismógrafo. Ela não entende a sociologia do desquite, mas capta a vibração emocional.

  • Adulto: Sente vergonha/preocupação.
  • Criança (Ana Lúcia): Sente que “Deus ia aparecer” ou “o mundo ia acabar”. A criança amplifica o drama.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar a cena do crime emocional:

  1. A Calmaria: A mãe costura, a menina admira. Tudo certo.
  2. O Gatilho: A menina ouviu a palavra de terceiros (Tita). Ela sente que a palavra é proibida (“Tentava não pensar as palavras”).
  3. O Disparo: “Mamãe, o que é desquitada?”
  4. O Impacto (A Dramaticidade):
    • “Tudo ficou suspenso”.
    • “A mão parada com a tesoura no ar”.
    • A percepção da menina: “se alguém gritasse o mundo acabava”.

Síntese: A dramaticidade não vem de uma briga ou de um grito. Ela vem do peso invisível do estigma social. A menina sente que tocou em uma ferida aberta da sociedade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode focar na máquina de costura e achar que o texto é sobre “trabalho feminino” (Letra C) ou focar na ausência do pai (Letra A).
Como não cair: Pergunte-se: O que causou o “congelamento” da cena? Foi a falta do pai? Não. Foi o trabalho? Não. Foi a pergunta sobre a palavra. O foco é a palavra e o choque que ela causa.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A cena dramatiza o medo e o tabu em torno da condição da mulher separada nos anos 60, vistos através do medo exagerado de uma criança.
  • Expectativa: A alternativa deve ligar o “preconceito/rótulo” (estigma) à “visão da menina” (perspectiva da criança).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) insinuação da lacuna familiar gerada pela ausência da figura paterna.

  • Diagnóstico do Erro: Foco na Causa, não no Efeito Dramático.
  • Análise: O fato de a mãe ser desquitada implica a ausência do pai, mas a dramaticidade da cena (o suspense, o medo do fim do mundo) é gerada pelo tabu da palavra, não pela saudade do pai. A menina não chora pelo pai, ela teme a palavra.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) associação entre a angústia da menina e a reação intempestiva da mãe.

  • Diagnóstico do Erro: Erro de Vocabulário/Leitura.
  • Análise: “Intempestiva” significa explosiva, barulhenta, repentina. A reação da mãe foi o oposto: paralisia“A mão parada com a tesoura no ar”. O drama está no silêncio tenso, não numa explosão de raiva.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) relação conflituosa entre o trabalho doméstico e a emancipação feminina.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação Temática (Anacronismo).
  • Análise: Embora a mãe trabalhe (costure), o texto não foca no conflito “trabalho x liberdade”. O conflito é moral/social (o estigma do desquite). A costura é apenas o cenário da ação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
    • “Estigmas sociais” = O peso negativo da palavra “desquitada”.
    • “Modulados pela perspectiva da criança” = A forma como esse peso é sentido (como um apocalipse, “o mundo acabava”). A criança sente a gravidade social como um terror cósmico.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) expressão de dúvidas existenciais intensificadas pela percepção do abandono.

  • Diagnóstico do Erro: Generalização Filosófica.
  • Análise: A dúvida da menina é concreta e lexical: “O que significa essa palavra?”. Não é uma crise existencial sobre “quem sou eu” ou “por que fui abandonada”. É o medo de ter violado um tabu.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa D é a correta pois identifica que a tensão do conto reside no choque entre a inocência infantil e a brutalidade do preconceito social contra a mulher desquitada nos anos 60.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Para a sociedade, “desquitada” era um rótulo; para a criança, era uma bomba que poderia explodir a casa.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Na literatura brasileira, esse tema é recorrente em Clarice Lispector (laços de família, epifanias domésticas) e Lygia Fagundes Telles. Autoras que mostram como o ambiente doméstico, aparentemente calmo, esconde vulcões de repressão social e psicológica.

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