Ed Mort só vai
Mort. Ed Mort. Detetive particular. Está na plaqueta. Tenho um escritório numa galeria de Copacabana entre um fliperama e uma loja de carimbos. Dá só para o essencial. um telefone mudo e um cinzeiro. Mas insisto numa mesa e numa cadeira. Apesar do protesto das baratas. Elas não vencerão. Comprei um jogo de máscaras. No meu trabalho o disfarce é essencial. Para escapar dos credores. Outro dia entrei na sala e vi a cara do King Kong andando pelo chão. As baratas estavam roubando as máscaras. Espisoteei meia dúzia. As outras atacaram a mesa. Consegui salvar a minha Bic e o jornal. O jornal era novo, tinha só uma semana. Mas elas levaram a agenda. Saí ganhando. A agenda estava em branco. Meu último caso fora com a funcionária do Erótica. a primeira ótica da cidade com balconista topless. Acabara mal. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.
VERISSIMO, L. F. Ed Mort: todas as histórias. Porto Alegre: L&PM, 1997 (adaptado).
Nessa crônica, o efeito de humor é basicamente construído por uma
A) segmentação de enunciados baseada na descrição dos hábitos do personagem.
B) ordenação dos constituintes oracionais no qual se destaca o núcleo verbal.
C) estrutura composicional caracterizada pelo arranjo singular dos períodos.
D) sequenciação narrativa na qual se articulam eventos absurdos.
E) seleção lexical na qual predominam informações redundantes.

✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto (Gêneros Textuais: Crônica e Humor).
- Mecanismos de Construção de Humor (Quebra de Expectativa e Absurdo).
- Paródia e Estilo Literário.
Tema/Objetivo Geral:
Identificar o recurso narrativo principal que gera o efeito cômico em uma crônica de Luis Fernando Verissimo.
Nível da Questão
Fácil.
O texto é extremamente visual e o humor baseia-se em situações impossíveis (surreais). Embora as alternativas usem termos técnicos linguísticos (“segmentação”, “constituintes oracionais”), a resposta correta descreve exatamente o que acontece na história (coisas absurdas acontecendo uma atrás da outra).
Gabarito
Letra D.
O humor reside no conteúdo da história, ou seja, na sucessão de fatos nonsenses (baratas ladras, máscaras andando sozinhas, lojas topless) que quebram a lógica da realidade.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber a origem do riso. Ao ler o texto, você ri (ou acha graça). A banca quer saber: esse riso vem da gramática (o jeito que as frases são montadas) ou vem da história (as loucuras que acontecem)?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um palhaço contando uma história.
- Se ele fala: “Ontem eu fui à padaria e comprei pão”, usando uma voz engraçada, o humor está na forma.
- Se ele fala: “Ontem eu fui à lua montado numa tartaruga e comprei um pão feito de nuvem”, o humor está no fato absurdo.
O verdadeiro desafio aqui é não se deixar intimidar pelos termos técnicos das alternativas (como “segmentação de enunciados”) e focar no que realmente torna o texto engraçado: a loucura dos acontecimentos.
Plano de Ataque:
- Listar as Cenas: O que acontece na história?
- Verificar a Verossimilhança: Essas cenas são normais ou absurdas?
- Conectar à Alternativa: Buscar a opção que fala sobre “fatos” ou “eventos”.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
A ferramenta essencial aqui é o conceito de Paródia do Gênero Policial (Noir).
Dossiê Ed Mort:
Luis Fernando Verissimo criou Ed Mort para parodiar os detetives durões americanos (filmes Noir).
O Contraste do Humor:
| Detetive Sério (Expectativa) 🕵️♂️ | Ed Mort (Realidade do Texto) 🤡 |
| Escritório chique ou sombrio. | Escritório entre um fliperama e loja de carimbos. |
| Inimigos perigosos (Máfia). | Inimigos ridículos (Baratas). |
| Casos complexos de assassinato. | Roubo de máscaras por insetos e balconistas topless. |
Mecanismo: O humor nasce da Sequenciação de Absurdos. Não é um fato isolado, é uma corrente de eventos ilógicos narrados com a seriedade de um detetive profissional.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos rastrear as pistas do absurdo no texto:
- Cena 1: “As baratas estavam roubando as máscaras.” (Insetos com inteligência e força para carregar objetos).
- Cena 2: “Vi a cara do King Kong andando pelo chão.” (Uma imagem visualmente ridícula causada pelas baratas).
- Cena 3: “Consegui salvar a minha Bic.” (A pobreza extrema do herói, onde uma caneta Bic é um tesouro).
- Cena 4: “Funcionária do Erótica… ótica com balconista topless.” (O trocadilho visual e a situação inverossímil).
Conclusão da Análise:
O texto é uma pilha de eventos impossíveis. O leitor ri porque a narrativa quebra a lógica do mundo real a cada frase. O humor não vem da pontuação (segmentação), mas do enredo (sequenciação narrativa).
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O texto usa frases curtas (“Mort. Ed Mort. Detetive particular.”). Isso é uma imitação do estilo dos detetives americanos. Alguns alunos marcam a Letra A (“segmentação de enunciados”) por causa disso.
Como não cair: As frases curtas criam o estilo (o clima), mas o humor (a piada) vem do conteúdo. Se ele dissesse “Hoje acordei cedo. Tomei café. Fui trabalhar.” com frases curtas, não seria engraçado. Só é engraçado porque ele diz que as baratas roubaram a máscara do King Kong.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto acumula situações surreais e ilógicas para gerar comicidade.
- Expectativa: A alternativa deve conter palavras como “eventos”, “fatos”, “absurdo”, “insólito” ou “narrativa”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) segmentação de enunciados baseada na descrição dos hábitos do personagem.
- Diagnóstico do Erro: Confusão entre Estilo e Efeito.
- Análise: O texto realmente usa enunciados segmentados (frases curtas, pontos finais constantes) para imitar o estilo “durão”. Mas isso cria a atmosfera da paródia, não a piada em si. O que nos faz rir não é o ponto final, é a barata roubando a máscara.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) ordenação dos constituintes oracionais no qual se destaca o núcleo verbal.
- Diagnóstico do Erro: “Enrolação” Linguística (Tecnicismo Vazio).
- Análise: Isso se refere à ordem das palavras (Sujeito-Verbo-Objeto). A ordem no texto é padrão. Não há nada de engraçado na posição do verbo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) estrutura composicional caracterizada pelo arranjo singular dos períodos.
- Diagnóstico do Erro: Vagueza.
- Análise: “Arranjo singular” é muito genérico. Embora a estrutura seja ágil, ela serve para entregar o conteúdo absurdo. Novamente, tenta atribuir o humor à gramática, e não ao conteúdo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) sequenciação narrativa na qual se articulam eventos absurdos.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- “Sequenciação narrativa” = A história que é contada, fato após fato.
- “Eventos absurdos” = Baratas ladras, King Kong no chão, ótica topless.
- Essa alternativa descreve exatamente a matéria-prima do humor de Verissimo: o nonsense.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
E) seleção lexical na qual predominam informações redundantes.
- Diagnóstico do Erro: Invenção de Característica.
- Análise: Redundância é repetição desnecessária (ex: “subir para cima”). O texto é o oposto disso: é conciso, direto e cheio de informação nova a cada linha.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A alternativa D é a correta pois identifica que a “alma” da crônica humorística de Ed Mort é o exagero e o surrealismo das situações vividas pelo personagem, e não a estrutura gramatical do texto.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Não rimos dos pontos e vírgulas, rimos das baratas assaltantes e do King Kong no chão. O humor é o conteúdo, não a forma.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esse tipo de humor é a base de desenhos como Bob Esponja ou séries como Todo Mundo Odeia o Chris. A estrutura narrativa é normal, mas os eventos são exagerados até o limite do impossível (Hipérbole Narrativa). No ENEM, sempre diferencie recursos de estilo (como se escreve) de recursos de enredo (o que se escreve).