O planejamento deixou de controlar o crescimento urbano e passou a encorajá-lo por todos os meios possíveis e imagináveis. Cidades, a nova mensagem soou em alto e bom som, eram máquinas de produzir riquezas; o primeiro e principal objetivo do planejamento devia ser o de azeitar a máquina.
HALL, P. Cidades do amanhã: uma história intelectual do planejamento e do projeto urbanos no século XX.
São Paulo: Perspectiva, 2016 (adaptado).
O modelo de planejamento urbano problematizado no texto é marcado pelo(a):
A) primazia da gestão popular.
B) uso de práticas sustentáveis.
C) construção do bem-estar social.
D) soberania do poder governamental.
E) ampliação da participação empresarial.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Geografia Urbana (Planejamento Urbano, Urbanismo Neoliberal)
- Sociologia Urbana (A Cidade como Mercadoria)
- Interpretação de Texto Crítico
- Tema/Objetivo Geral: Analisar um texto crítico para identificar a principal característica de um modelo de planejamento urbano focado no crescimento econômico.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige a capacidade de traduzir a metáfora central do texto (“cidades como máquinas de produzir riquezas”) em um conceito sociopolítico. O candidato precisa inferir que, se a cidade é uma “máquina de riqueza”, aqueles que controlam a riqueza (o setor empresarial) terão um papel central em “azeitar” essa máquina.
- Gabarito: E
- A alternativa está correta porque a visão da cidade como uma “máquina de produzir riquezas”, cujo objetivo é ser “azeitada” para funcionar melhor, subordina o planejamento urbano à lógica do capital e do mercado. Nesse modelo, os principais agentes interessados e beneficiados por essa “produção de riquezas” são as empresas, o que leva a uma ampliação da participação empresarial nas decisões sobre o espaço urbano.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto descreve uma mudança no jeito de planejar as cidades. Antes, o objetivo era controlar o crescimento. Agora, o objetivo é fazer a cidade ‘produzir riquezas’ a todo custo. Que tipo de força ou grupo social é o principal motor por trás desse novo modelo de planejamento?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma floresta. O planejamento antigo era como o de um guarda florestal, preocupado em controlar o desmatamento, proteger as nascentes e manter o equilíbrio do ecossistema. O planejamento novo, descrito no texto, é como o de uma madeireira. A floresta deixa de ser vista como um ecossistema e passa a ser vista como uma “máquina de produzir madeira (riqueza)”. O objetivo do “planejamento” da madeireira é “azeitar a máquina”: abrir estradas, otimizar o corte, acelerar a produção. Quem está no comando desse novo modelo? As empresas madeireiras. A questão nos pede para identificar esse mesmo ator no cenário urbano.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar a Mudança de Paradigma: Qual foi a grande virada na função do planejamento urbano, segundo o texto?
- Decifrar a Metáfora Central: O que significa dizer que as cidades são “máquinas de produzir riquezas”? Quem opera e se beneficia dessa máquina?
- Identificar o Agente Principal: Qual grupo social tem como principal objetivo a “produção de riquezas”?
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas representa o agente principal desse modelo.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Análise da Metáfora da “Cidade-Máquina”. Vamos desmontá-la para entender seu funcionamento.
A ANATOMIA DA “CIDADE-MÁQUINA”
- A MÁQUINA: A Cidade.
- A FUNÇÃO DA MÁQUINA: “Produzir riquezas”.
- O “COMBUSTÍVEL”: Investimentos, construção civil, comércio, serviços.
- O OBJETIVO DO PLANEJAMENTO: “Azeitar a máquina”.
- O que significa “azeitar”? Facilitar, remover obstáculos, otimizar, acelerar o funcionamento da máquina de gerar lucro. Isso se traduz em: aprovar grandes projetos imobiliários, flexibilizar leis ambientais e de zoneamento, construir infraestrutura que sirva ao capital (shoppings, vias expressas), etc.
- OS “MECÂNICOS” E PRINCIPAIS BENEFICIÁRIOS:
- Quem tem como principal interesse a “produção de riquezas” e se beneficia diretamente de uma “máquina azeitada”? O setor empresarial (construtoras, indústria, comércio, setor financeiro).
Conclusão Forense: A metáfora da “cidade-máquina de riqueza” revela um modelo de planejamento urbano onde o poder público (o planejador) passa a trabalhar em função dos interesses do poder econômico. A consequência direta é a ampliação da participação empresarial na definição dos rumos da cidade.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa análise da metáfora já resolveu o caso. O texto descreve uma mudança fundamental.
- Antes: O planejamento era um “freio” (controlar o crescimento).
- Depois: O planejamento se tornou um “acelerador” (encorajar o crescimento).
Quando o objetivo principal de uma cidade passa a ser a geração de lucro, o planejamento deixa de servir primariamente ao cidadão (bem-estar social, qualidade de vida) e passa a servir ao mercado. As decisões sobre o que construir e onde são cada vez mais influenciadas ou diretamente tomadas por grandes empresas.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (D), “soberania do poder governamental”. O candidato lê “planejamento” e o associa ao governo. O erro é não perceber a crítica sutil do texto. O texto argumenta que, nesse modelo, o poder governamental deixa de ser soberano. Ele se torna um agente que “azeita a máquina” para outro poder, o poder empresarial, que passa a ditar as regras do jogo. O governo não está no comando; ele está a serviço da máquina.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o modelo de cidade como “máquina de riqueza” coloca o interesse econômico no centro do planejamento, dando protagonismo aos agentes desse interesse.
- Expectativa: A alternativa correta deve apontar para o fortalecimento do papel do setor empresarial.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) primazia da gestão popular.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura otimista ou desatenta.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O modelo descrito é tecnocrático e focado no mercado. É o exato oposto de um modelo com “primazia” (prioridade) da participação popular.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) uso de práticas sustentáveis.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa “planejamento urbano” com um ideal de sustentabilidade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Lógica. Um planejamento focado exclusivamente em “produzir riquezas” e “encorajar o crescimento a todo custo” tende a ignorar ou flexibilizar as regulações ambientais, sendo, portanto, contrário às práticas sustentáveis.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) construção do bem-estar social.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato assume que o crescimento econômico gera automaticamente bem-estar.
- O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Premissa. O texto critica o modelo justamente por focar na “riqueza” em detrimento de outras dimensões da vida urbana. O “bem-estar social” deixa de ser o objetivo principal para se tornar, na melhor das hipóteses, uma consequência secundária e incerta.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) soberania do poder governamental.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Interpretação Invertida. O texto sugere que o poder governamental perde sua soberania ao se tornar um mero “lubrificador” da máquina econômica, cujos verdadeiros operadores são os agentes do mercado.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) ampliação da participação empresarial.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Se a cidade é uma “máquina de produzir riquezas” e o planejamento serve para “azeitá-la”, é lógico que os agentes focados na riqueza — as empresas — terão sua participação e influência ampliadas.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. Este caso ilustra a crítica ao urbanismo neoliberal, onde o espaço urbano é tratado menos como um lar para cidadãos e mais como uma plataforma para negócios.
Resumo-flash (A Imagem Mental): No planejamento urbano criticado, a prancheta do arquiteto foi trocada pela planilha do investidor.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “azeitar a máquina” em detrimento de outros valores pode ser visto na Educação. Um modelo de educação que vê a escola como uma “máquina de produzir trabalhadores para o mercado” terá um planejamento focado em “azeitar” essa função: priorizará disciplinas técnicas, treinamento para testes padronizados e habilidades demandadas pelas empresas. Em contraste, um modelo que vê a escola como um espaço para formar cidadãos críticos e seres humanos integrais (o “bem-estar social”) terá um planejamento diferente, valorizando as humanidades, as artes e o pensamento crítico. O debate sobre o propósito da cidade é, em essência, o mesmo debate sobre o propósito da escola.