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Questão 08, caderno azul do ENEM 2019 – DIA 1

Meu caro Sherlock Holmes, algo horrível aconteceu às três da manhã no Jardim Lauriston. Nosso homem que estava na vigia viu uma luz às duas da manhã saindo de uma casa vazia. Quando se aproximou, encontrou a porta aberta e, na sala da frente, o corpo de um cavalheiro bem vestido. Os cartões que estavam em seu bolso tinham o nome de Enoch J. Drebbet Cleveland, Ohio, EUA. Não houve assalto e nosso homem não conseguiu encontrar algo que indicasse como ele morreu. Não havia marcas de sangue, nem feridas nele. Não sabemos como ele entrou na casa vazia. Na verdade, todo assunto é um quebra-cabeças sem fim. Se puder vir até a casa seria ótimo, se não eu lhe conto os detalhes e gostaria muito de saber sua opinião. Atenciosamente, Tobias Gregson.

DOYLE, A.C. Um estudo em vermelho. Cotia : Pé de Letra, 2012

Considerando o objetivo da carta de Tobias Gregson, a sequência de enunciados negativos presente nesse texto tem a função de:

A) restringir a investigação, deixando-a sob responsabilidade do autor da carta

B) refutar possíveis causas da morte do cavalheiro auxiliando na investigação

C) identificar o local da ceno do crime, localizando-o Jardim Lauriston

D) introduzir o destinatário da carta, caracterizando sua personalidade

E) apresentar o vigia, incluindo-o entre os suspeitos do assassinato

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Língua Portuguesa (Interpretação Textual).
  • Estratégias Argumentativas e Discursivas.
  • Lógica Dedutiva (Processo de Eliminação).

Tema/Objetivo Geral:

Análise da função discursiva de enunciados negativos dentro de um relato de mistério/investigação.

Nível da Questão

Médio.
Exige que o aluno perceba que, em uma investigação, dizer o que “não aconteceu” é tão importante quanto dizer o que “aconteceu”. É preciso entender a lógica da exclusão.

Gabarito

Letra B.
A série de negativas serve para eliminar as hipóteses mais óbvias (roubo, briga física), limpando o terreno para que Sherlock Holmes deduza a causa real e oculta da morte.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber qual é a utilidade prática das frases com “não” (negativas) na carta do policial Gregson. Por que ele gasta tinta dizendo o que não viu?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um médico tentando descobrir o que você tem.

  • Ele pergunta: “Teve febre?” Você diz: “Não”.
  • “Doeu a garganta?” Você diz: “Não”.
  • “Caiu recentemente?” Você diz: “Não”.
    Ao dizer esses “nãos”, você não está sendo inútil; você está ajudando o médico a riscar doenças da lista para sobrar apenas a verdadeira causa.
    O verdadeiro desafio aqui é entender que a negação é uma ferramenta de limpeza de hipóteses.

Plano de Ataque:

  1. Listar as Negações: O que o texto diz que não aconteceu?
  2. Identificar o Efeito: O que essas negações eliminam da lista de suspeitas?
  3. Concluir a Função: Como isso ajuda o detetive Sherlock Holmes?

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para resolver esse mistério, usaremos a Lógica da Exclusão (O Princípio de Sherlock Holmes).

Fluxograma da Investigação por Negação:

  1. Cenário: Um corpo é achado.
  2. Hipótese Comum 1: Foi latrocínio (roubo seguido de morte)?
    • Teste do Texto: “Não houve assalto”.
    • Resultado: ❌ Hipótese Descartada.
  3. Hipótese Comum 2: Foi uma briga violenta?
    • Teste do Texto: “Não havia marcas de sangue, nem feridas”.
    • Resultado: ❌ Hipótese Descartada.
  4. Conclusão Parcial: Se não foi roubo nem violência física visível, o caso é anormal (veneno? susto? doença?).

Conceito-Chave: Em textos argumentativos ou descritivos, a negação muitas vezes serve para refutar (negar a validade de) uma ideia pré-concebida ou esperada.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar a carta de Gregson:

  1. O Contexto: Gregson é um detetive da Scotland Yard (polícia comum) pedindo ajuda a Holmes (o gênio).
  2. O Problema: Gregson está confuso porque o crime não segue o padrão.
  3. A Execução: Ao listar os “nãos”, Gregson está dizendo: “Sherlock, eu já verifiquei o básico. Não é roubo, não é facada, não é tiro. O mistério é mais profundo.”
  4. A Função: Ele está peneirando a informação. Ele tira o cascalho (causas óbvias) para deixar apenas o ouro (o mistério real) para Holmes analisar.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O aluno pode pensar que as negativas servem para mostrar “incompetência” da polícia ou para “descrever o cenário” (Letra C).
Como não cair: Pergunte-se: “Dizer que não houve assalto ajuda a saber onde fica a casa?” Não. Ajuda a saber o motivo da morte. Portanto, a função é investigativa (causal), não geográfica.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: As negativas eliminam explicações simplistas para o óbito.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter palavras como “refutar”, “eliminar”, “descartar” ou “excluir” causas/hipóteses.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) restringir a investigação, deixando-a sob responsabilidade do autor da carta

  • Diagnóstico do Erro: Contradição de Fato.
  • Análise: O autor (Gregson) diz no final: “Se puder vir até a casa seria ótimo”. Ele quer expandir a investigação para Holmes, não restringi-la a si mesmo. Ele está pedindo socorro intelectual.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) refutar possíveis causas da morte do cavalheiro auxiliando na investigação

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
    • “Refutar possíveis causas” = Dizer que não foi roubo nem ferimento.
    • “Auxiliando na investigação” = Ao eliminar o óbvio, ele economiza o tempo de Holmes e foca no mistério real. Isso é a essência do método dedutivo.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) identificar o local da ceno do crime, localizando-o Jardim Lauriston

  • Diagnóstico do Erro: Confusão de Função.
  • Análise: O que localiza o crime é a frase afirmativa “aconteceu… no Jardim Lauriston”. As frases negativas (“não houve assalto”) não dão coordenadas geográficas.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) introduzir o destinatário da carta, caracterizando sua personalidade

  • Diagnóstico do Erro: Desvio de Foco.
  • Análise: O destinatário é Holmes. Dizer que o morto não tinha feridas não caracteriza a personalidade de Holmes. Caracteriza o estado do cadáver.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) apresentar o vigia, incluindo-o entre os suspeitos do assassinato

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação (Invenção).
  • Análise: O texto diz “nosso homem que estava na vigia viu…”. Ele é tratado como testemunha ocular, fonte de informação, e não como suspeito. As negativas não servem para incriminá-lo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa B é a correta pois reconhece que, na lógica da investigação, negar o óbvio é o primeiro passo para encontrar a verdade oculta.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
“Na investigação, o ‘NÃO’ funciona como uma peneira: retém o lixo (hipóteses falsas) para deixar passar apenas a pepita de ouro (a verdade).”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esse método é chamado na ciência e na medicina de Diagnóstico Diferencial. Quando você vai ao médico com dor de cabeça, ele pergunta o que você não tem (não tem febre? não bateu a cabeça?) para eliminar meningite ou trauma, antes de diagnosticar enxaqueca. Sherlock Holmes foi inspirado em um médico, Dr. Joseph Bell, justamente por essa habilidade de diagnóstico.


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