
A frase, título do filme, reproduz uma variedade linguística recorrente na fala de muitos brasileiros. Essa estrutura caracteriza-se pelo(a)
A) uso de uma marcação temporal.
B) imprecisão do referente de pessoa.
C) organização interrogativa da frase.
D) utilização de um verbo de ação.
E) apagamento de uma preposição.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Gramática (Sintaxe: Regência Verbal)
- Linguística (Variação Linguística: Norma-Padrão vs. Fala Coloquial)
- Tema/Objetivo Geral: Identificar um fenômeno de variação linguística (a elipse ou apagamento de uma preposição) que é comum na oralidade brasileira, mas diverge da norma-padrão escrita.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige um conhecimento específico de regência verbal (saber que a pergunta formal seria “A que horas…”) e a capacidade de reconhecer essa omissão como um traço característico da fala, e não como um erro aleatório.
- Gabarito: E
- A alternativa está correta porque, de acordo com a regência verbal da norma-padrão, a pergunta deveria ser “A que horas ela volta?”. O título do filme omite a preposição “A”, um fenômeno gramatical conhecido como elipse ou “apagamento”, que é muito recorrente na fala informal brasileira.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “A frase ‘Que horas ela volta?’ é como a gente fala no dia a dia. Mas, se fôssemos escrever essa frase em um documento formal, seguindo a gramática à risca, faltaria uma palavrinha nela. Qual é a principal característica gramatical dessa frase falada, que a diferencia da norma-padrão escrita?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na gramática normativa como o código de vestimenta de uma festa de gala. Para entrar, você precisa de todos os itens: sapato, calça, camisa, gravata, paletó. A fala do dia a dia é a roupa que usamos em casa: confortável, prática, e muitas vezes “pulamos” alguns itens, como a gravata ou o paletó. A frase “Que horas ela volta?” é a nossa “roupa de casa”. A questão nos pede para identificar qual “peça de roupa” da festa de gala foi deixada de fora.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar a Frase Suspeita: Vamos examinar a frase “Que horas ela volta?”.
- Consultar o “Código de Vestimenta” (A Norma-Padrão): Vamos determinar como essa frase seria escrita em sua forma gramaticalmente mais precisa.
- Identificar a Peça Faltante: Vamos comparar as duas versões e encontrar exatamente o que foi omitido na versão coloquial.
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas descreve com precisão essa omissão.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é uma Tabela Comparativa de Registros Linguísticos. Ela vai nos ajudar a visualizar a diferença entre a “roupa de casa” e a “roupa de gala”.
| Análise da Frase | Registro Informal / Coloquial (A Fala) | Registro Formal (A Norma-Padrão) |
| A Frase em Questão | Que horas ela volta? | A que horas ela volta? |
| Análise da Regência | O verbo “voltar”, no sentido de retornar em um determinado tempo, é usado diretamente. | Quem volta, volta A um determinado horário. A regência do verbo “voltar” exige a preposição “A”. |
| O Fenômeno Gramatical | Ocorre a omissão ou o apagamento da preposição “A”. | Todos os termos exigidos pela regência verbal estão presentes. |
Conclusão Forense: A tabela revela a “peça de roupa” que foi deixada de fora. A característica que marca a frase do título como um exemplo da fala brasileira é o apagamento da preposição “A” exigida pela norma-padrão.
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nossa tabela já identificou a evidência principal. A frase “Que horas ela volta?” soa perfeitamente natural para qualquer falante de português brasileiro, pois essa omissão da preposição antes de expressões de tempo em perguntas é extremamente comum na oralidade.
- “Que dia você vai viajar?” (em vez de “Em que dia…”)
- “Que lugar você mora?” (em vez de “Em que lugar…”)
A gramática normativa, mais conservadora e baseada na escrita, exige a presença dessas preposições. A fala, mais dinâmica e econômica, tende a eliminá-las. O título do filme captura perfeitamente essa característica da linguagem viva e real do Brasil.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora são as alternativas que descrevem características que a frase de fato possui, mas que não são o diferencial que a marca como um registro coloquial. Por exemplo, a alternativa (C), “organização interrogativa da frase”. Sim, a frase é uma pergunta. Mas a frase formal “A que horas ela volta?” também é uma pergunta. Portanto, ser interrogativa não é a característica distintiva da variedade linguística em questão. O mesmo vale para (A) e (D).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação linguística, ao comparar a frase do título com a norma-padrão, revelou que a principal diferença e a marca da oralidade é a omissão da preposição “A”.
- Expectativa: A alternativa correta deve nomear esse fenômeno de omissão ou “apagamento” de uma preposição.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) uso de uma marcação temporal.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na expressão “Que horas”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descreve o Comum, não o Distintivo). Sim, a frase tem uma marcação temporal. Mas a versão formal (“A que horas…”) também tem. Portanto, esta não é a característica que define a variedade linguística em questão.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) imprecisão do referente de pessoa.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode achar que “ela” é um termo vago.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O referente “ela” é perfeitamente preciso dentro de um contexto de diálogo (que é o que a frase simula). Não há imprecisão.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- C) organização interrogativa da frase.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descreve o Comum, não o Distintivo). A frase é uma pergunta, mas sua versão na norma-padrão também é. Ser uma pergunta não é o traço que a caracteriza como um exemplo da fala coloquial.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) utilização de um verbo de ação.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca no verbo “voltar”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descreve o Comum, não o Distintivo). O uso de um verbo de ação não tem nada de especial ou característico da variedade linguística. A versão formal também usa o mesmo verbo.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) apagamento de uma preposição.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve com precisão cirúrgica a “peça de roupa” que foi deixada de fora: a preposição “A”, cuja ausência é a marca registrada da informalidade da frase, de acordo com as regras de regência da norma-padrão.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. Este caso ilustra a diferença fundamental entre a língua viva, falada (que busca a economia e a fluidez) e a norma-padrão (que preza pela estrutura e pela tradição gramatical).
Resumo-flash (A Imagem Mental): Na festa de gala da gramática, a frase esqueceu a gravata (a preposição “A”).
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “apagamento” ou elipse por economia de linguagem é uma força motriz na evolução de linguagens de programação. As primeiras linguagens eram extremamente “verbosas”, exigindo que o programador escrevesse comandos longos e explícitos para cada pequena ação. Linguagens modernas, como Python, são famosas por sua sintaxe “limpa” e “econômica”. Elas permitem o “apagamento” de muitos elementos (declarações de tipo, pontos e vírgulas, etc.) que são obrigatórios em linguagens mais antigas, pois o compilador ou interpretador consegue inferi-los pelo contexto. O objetivo é o mesmo da fala humana: comunicar a intenção da forma mais rápida e direta possível.