Firmo, o vaqueiro
No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuzo que preparava o animal viajeiro:
– Raimundinho, como vai ele?…
De longe apontou a palhoça.
– Sim.
O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois, saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes: “Às quatro da manhã…
Atirei um verso e disse, para bulir com ele: Pega, velho! Não respondeu. Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão… Fui ver, coitado!… estava morto. E deu de esporas para que eu não lhe visse as lágrimas.
NETTO, C. In: MARCHEZAN, L. G. (Org.). O conto regionalista.
São Paulo: Martins Fontes, 2009
A passagem registra um momento em que a expressividade lírica é reforçada pela
A) plasticidade da imagem do rebanho reunido.
B) sugestão da firmeza do sertanejo ao arrear o cavalo.
C) situação de pobreza encontrada nos sertões brasileiros.
D) afetividade demonstrada ao noticiar a morte do cantador.
E) preocupação do vaqueiro em demonstrar sua virilidade.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Literatura Brasileira: Regionalismo (Simbolismo/Pós-Simbolismo e Modernismo).
- Teoria Literária: Conceito de Lirismo e Expressividade.
- Interpretação de Texto: Identificação de sentimentos e reações emocionais.
Tema/Objetivo Geral:
Analisar um trecho de conto regionalista, identificando como a morte de um personagem querido (Firmo) desperta uma reação emocional intensa (choro, comoção) que confere lirismo (poesia, sentimento) à narrativa.
Nível da Questão: Fácil.
- Justificativa: A questão é simples. O texto fala de morte, choro e comoção (“olhou-me comovido”, “lágrimas”). A alternativa (D) fala em “afetividade” e “morte”. A correspondência é direta. As outras alternativas falam de coisas que não aparecem no texto (rebanho, pobreza, virilidade).
Gabarito: D.
- Resumo: O narrador descreve a notícia da morte de Firmo (o vaqueiro/cantador). A cena é carregada de emoção: Raimundinho está “comovido”, esconde as “lágrimas” e lembra com carinho da habilidade do tio com os versos. Essa carga sentimental define a expressividade lírica do trecho.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Função Pedagógica: Identificar a fonte da emoção.
Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Onde está a poesia e o sentimento (lirismo) nessa cena?”. O que está acontecendo que deixa o texto triste e bonito ao mesmo tempo?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma cena de filme onde um cowboy durão recebe a notícia da morte do seu mentor. Ele abaixa a cabeça e esconde uma lágrima.
O que torna essa cena emocionante? O gado no fundo? Não. A pobreza? Não.
É o amor e a dor que ele sente pelo amigo morto.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Identificar o evento central (a morte de Firmo).
- Identificar a reação dos personagens (comovido, lágrimas).
- Ligar essa reação à palavra “afetividade”.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender como um texto sobre vaqueiros brutos se torna “lírico” (poético/sentimental), vamos traçar a Linha do Tempo da Emoção presente no trecho.
FLUXOGRAMA: DA ROTINA À LÁGRIMA
- O CENÁRIO (A Rotina): 🐄
- Vaqueiro preparando o animal. Gado saindo.
- Tom: Descritivo, normal.
⬇️ Ocorre uma Interrupção
- O GATILHO (A Pergunta): ❓
- O narrador pergunta: “Como vai ele?” (referindo-se ao Tio Firmo).
- Raimundinho aponta para a casa e faz o sinal de morte.
⬇️ A Transformação
- O CLÍMAX LÍRICO (A Emoção): 💧
- Ação Física: “O braço caiu-lhe” (Desânimo).
- Sentimento: “Olhou-me comovido” (Afeto).
- Desfecho: “Deu de esporas para que eu não lhe visse as lágrimas” (Dor contida).
Conceito Chave: Lirismo na Prosa
O lirismo acontece quando a narrativa para de focar no mundo exterior (o gado, o cavalo) e foca no mundo interior (a tristeza, a saudade, o amor). O texto vira poesia no momento em que a lágrima aparece.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos medir a temperatura do texto:
- “Raimundinho, como vai ele?” -> Pergunta preocupada.
- “O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido” -> Pico de Lirismo. O corpo reage à tristeza.
- “Atirei um verso… Pega, velho!” -> Tentativa de conexão através da arte (o verso).
- “Fui ver, coitado!… estava morto.” -> A revelação da tragédia.
- “…para que eu não lhe visse as lágrimas.” -> A dor é tão grande que precisa ser escondida. Isso é pura afetividade.
Conclusão:
O texto não está focado na técnica de montar cavalo (B) nem na pobreza (C). O foco é a relação humana, o carinho e a dor da perda.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“preocupação em demonstrar virilidade”) pode enganar.
- Por que seduz? Porque o homem esconde o choro (“não lhe visse as lágrimas”). No senso comum, homem não chora para parecer viril.
- Por que está errada? A questão pede o que reforça a expressividade lírica (a beleza/poesia). Ocultar o choro aqui não é um ato de “machismo tóxico”, é um ato de pudor diante da dor profunda. O lirismo vem da existência da lágrima (afeto), não da tentativa de escondê-la (virilidade). Além disso, o foco é a relação com o morto, não a autoimagem do vivo.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A cena gira em torno da morte de um ente querido e da reação emocionada de quem ficou.
- Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre sentimentos, afeto, morte ou comoção.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) plasticidade da imagem do rebanho reunido.
- Diagnóstico do Erro: Inexistência Fática.
- Narrativa do Erro: O texto menciona “hora em que saía o gado”, mas não descreve o rebanho com detalhes visuais (plasticidade). O gado é apenas cenário de fundo, não o foco lírico.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) sugestão da firmeza do sertanejo ao arrear o cavalo.
- Diagnóstico do Erro: Confusão de Foco (Ação vs. Emoção).
- Narrativa do Erro: Ele prepara o animal, mas o texto destaca que o braço dele “caiu” e ele ficou “comovido”. O foco é a fraqueza momentânea causada pela tristeza, não a firmeza técnica do trabalho.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) situação de pobreza encontrada nos sertões brasileiros.
- Diagnóstico do Erro: Leitura Sociológica Externa.
- Narrativa do Erro: Embora seja um conto regionalista, este trecho específico não denuncia a pobreza ou a fome. Ele narra um drama humano universal (o luto), que poderia acontecer em qualquer classe social.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) afetividade demonstrada ao noticiar a morte do cantador.
- Análise de Correspondência: Perfeito.
- “Afetividade”: “Olhou-me comovido”, “coitado”, “lágrimas”.
- “Noticiar a morte”: O diálogo serve para contar que Tio Firmo morreu.
- “Cantador”: Firmo é descrito como alguém que não deixava um “verso no chão”.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- Análise de Correspondência: Perfeito.
- E) preocupação do vaqueiro em demonstrar sua virilidade.
- Diagnóstico do Erro: Interpretação Equivocada da Intenção.
- Narrativa do Erro: Esconder as lágrimas é um gesto de recato e dor íntima, não necessariamente uma performance de masculinidade. Mesmo que fosse, isso não é o que gera o lirismo (poesia) da cena; o lirismo vem da emoção sentida (o afeto), não da máscara usada.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
No sertão bruto, a poesia brota da dor: a expressividade lírica do texto reside na afetividade (Alternativa D) crua e silenciosa com que os vaqueiros enfrentam a morte de um companheiro de versos e de vida.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
O verso caiu no chão porque o poeta morreu. A lágrima caiu do rosto porque o amigo sentiu.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esta figura do “cantador/vaqueiro” é central na cultura brasileira, imortalizada em obras como Grande Sertão: Veredas. A morte de um “homem de verso” é vista como a morte de uma biblioteca viva, gerando um luto que mistura admiração artística e amor pessoal.