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Questão 35, caderno azul do ENEM 2022 – LINGUAGENS

Ser cronista

Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto.

Crônica é um relato? É uma conversa? É um resumo de um estado de espírito? Não sei, pois antes de começar a escrever para o Jornal do Brasil, eu só tinha escrito romances e contos.

E também sem perceber, à medida que escrevia para aqui, ia me tornando pessoal demais, correndo o risco deem breve publicar minha vida passada e presente, o que não pretendo. Outra coisa notei: basta eu saber que estou escrevendo para jornal, isto é, para algo aberto facilmente por todo o mundo, e não para um livro, que só é aberto por quem realmente quer, para que, sem mesmo sentir, o modo de escrever se transforme. Não é que me desagrade mudar, pelo contrário. Mas queria que fossem mudanças mais profundas e interiores que não viessem a se refletir no escrever. Mas mudar só porque isso é uma coluna ou uma crônica? Ser mais leve só porque o leitor assim o quer? Divertir? Fazer passar uns minutos de leitura? E outra coisa: nos meus livros quero profundamente a comunicação profunda comigo e com o leitor. Aqui no Jornal apenas falo com o leitor e agrada-me que ele fique agradado. Vou dizer a verdade: não estou contente.

LISPECTOR, C. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

No texto, ao refletir sobre a atividade de cronista, a autora questiona características do gênero crônica, como
A) relação distanciada entre os interlocutores.
B) articulação de vários núcleos narrativos.
C) brevidade no tratamento da temática.
D) descrição minuciosa dos personagens.
E) público leitor exclusivo.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Teoria Literária / Gêneros Textuais: Definição e características da Crônica.
  • Interpretação de Texto: Identificação de críticas implícitas e explícitas.
  • Estilística: A metalinguagem (escrever sobre o ato de escrever).

Tema/Objetivo Geral:
Analisar um texto de Clarice Lispector onde ela reflete sobre sua própria produção como cronista, contrastando-a com sua obra romanesca. O objetivo é identificar qual aspecto da crônica causa desconforto à autora.

Nível da Questão: Difícil.

  • Justificativa: O texto é denso e filosófico. A autora não usa a palavra “brevidade” explicitamente. Ela usa termos como “fazer passar uns minutos de leitura” e “ser mais leve”. O aluno precisa inferir que “passar uns minutos” significa brevidade (curta duração), conectando o conceito abstrato à alternativa concreta.

Gabarito: C.

  • Resumo: Clarice questiona se deve “ser mais leve” ou “divertir” apenas para agradar o leitor de jornal. Ela reclama de ter que escrever algo para “fazer passar uns minutos”, ou seja, algo rápido, superficial e breve. Essa exigência de leveza e rapidez (brevidade) é o ponto de tensão com sua natureza de romancista profunda.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar o ponto de conflito.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “O que a Clarice Lispector não gosta na crônica?”. Ela está reclamando de quê? Do tamanho? Do tema? Dos leitores?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma chef de cozinha acostumada a fazer banquetes de 5 horas (Romances). De repente, ela é contratada para fazer fast-food (Crônicas).

Ela reclama: “Eu tenho que cozinhar rápido só para matar a fome de quem tem pressa?”.

O que ela está criticando? A rapidez, a leveza, a falta de profundidade. Isso é a brevidade.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar o que ela quer (comunicação profunda).
  • Identificar o que o jornal pede (fazer passar uns minutos, divertir).
  • Ligar “passar uns minutos” à palavra “brevidade”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender o desconforto da autora, vamos usar a Tabela de Contraste: Livro vs. Jornal.

O Mundo do Livro (Onde ela é feliz) 📚 O Mundo do Jornal (Onde ela é cronista) 📰
Acesso: “Aberto por quem realmente quer”. Acesso: “Aberto facilmente por todo mundo”.
Profundidade: “Comunicação profunda”. Profundidade: “Ser mais leve”, “Divertir”.
Tempo: Leitura densa e longa. Tempo: “Fazer passar uns minutos” (Brevidade).
Sentimento: Realização. Sentimento: “Não estou contente”.

Conceito Chave: A Leveza da Crônica
A crônica é, por definição, um gênero efêmero (dura um dia) e leve. Para uma autora existencialista como Clarice, essa superficialidade obrigatória (“fazer passar o tempo”) é dolorosa.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear a reclamação no texto:

  • Ela pergunta: “Ser mais leve só porque o leitor assim o quer?”
    • Leveza implica falta de peso/profundidade.
  • Ela pergunta: “Fazer passar uns minutos de leitura?”
    • Aqui está a chave. “Uns minutos” = pouco tempo. Pouco tempo = Brevidade.
  • Ela conclui: “Vou dizer a verdade: não estou contente.”
    • Ela não está contente porque a crônica exige que ela seja rápida e superficial, em vez de profunda.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) (“relação distanciada”) é perigosa.

  • Por que seduz? Porque o jornal atinge um público desconhecido (“todo o mundo”).
  • Por que está errada? No terceiro parágrafo, ela diz: “ia me tornando pessoal demais”. Ou seja, a relação não estava ficando distanciada, estava ficando íntima demais (“publicar minha vida passada”). Ela questiona o excesso de proximidade não planejada, não o distanciamento.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A autora critica a exigência de entretenimento rápido (“passar uns minutos”) que define a crônica.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre tempo curto, rapidez, leveza ou superficialidade.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) relação distanciada entre os interlocutores.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição Fática.
    • Narrativa do Erro: O texto diz o oposto: “ia me tornando pessoal demais”. Ela sente que está se expondo muito, criando uma intimidade indesejada com o público geral, e não se distanciando.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) articulação de vários núcleos narrativos.
    • Diagnóstico do Erro: Característica de Romance.
    • Narrativa do Erro: Múltiplos núcleos (várias histórias ao mesmo tempo) é característica de romances ou novelas. A crônica foca em um único assunto ou “estado de espírito”. A autora não menciona essa complexidade estrutural como problema.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) brevidade no tratamento da temática.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Fazer passar uns minutos”: Indica leitura rápida (brevidade).
      • “Ser mais leve”, “Divertir”: Indica tratamento superficial da temática.
      • Ela questiona se deve reduzir sua profundidade para caber nesse formato curto e leve.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) descrição minuciosa dos personagens.
    • Diagnóstico do Erro: Inexistência no Gênero.
    • Narrativa do Erro: Crônicas raramente têm descrições minuciosas (isso gasta muito espaço e tempo). Elas são flashes do cotidiano. Além disso, o texto fala de “falar com o leitor”, não de construir personagens complexos.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) público leitor exclusivo.
    • Diagnóstico do Erro: Oposto da Realidade.
    • Narrativa do Erro: Ela diz explicitamente que o jornal é “aberto facilmente por todo o mundo”. O público é amplo e massivo, não exclusivo. O livro é que é “aberto por quem realmente quer” (mais exclusivo).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Clarice Lispector, a “esfinge” da literatura, sente-se apertada no espartilho da crônica: ao questionar a necessidade de brevidade e leveza (“passar uns minutos”), ela revela o conflito eterno entre a profundidade da arte e a rapidez do jornalismo.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Romance é mergulho em águas profundas. Crônica é surfe na espuma. Clarice quer mergulhar, mas o jornal pede surfe.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa tensão reflete a Indústria Cultural. Na era do TikTok e do Twitter, a “brevidade” tornou-se a regra suprema. Conteúdos profundos são descartados porque “demoram muito”. A reclamação de Clarice nos anos 60/70 profetizou a nossa ansiedade atual por conteúdos de consumo rápido.

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