O torém dependia de organização familiar, sendo brincado por pessoas com vínculos de parentesco e afinidade que viviam no local. Era visto como uma brincadeira, um entretenimento feito para os próprios participantes e seus conhecidos. O tempo do caju era o pretexto para sua realização, sendo chamadas várias pessoas da região a fim de tomar mocororó, bebida fermentada do caju.
VALLE, C. G. O. Torém/Toré: tradições e invenção no quadro de multiplicidade étnica do Ceará contemporâneo. In: GRUNEWALD, R. A. (Org.). Toré: regime encantado dos índios do Nordeste. Recife: Fundaj-Massangana, 2005.
O ritual mencionado no texto atribui à manifestação cultural de grupos indígenas do Nordeste brasileiro a função de
A) celebrar a história oficial.
B) estimular a coesão social.
C) superar a atividade artesanal.
D) manipular a memória individual.
E) modernizar o comércio tradicional.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto
- Sociologia e Antropologia (Função Social de Rituais)
- Cultura Indígena Brasileira
Tema/Objetivo Geral: Identificar a função de coesão social de um ritual comunitário.
Nível da Questão: Fácil.
- Por quê? O texto fornece pistas explícitas e repetidas sobre a natureza coletiva e relacional do ritual (“organização familiar”, “vínculos de parentesco e afinidade”, “chamadas várias pessoas”). A alternativa correta é uma síntese direta dessas informações, enquanto as outras fogem completamente ao tema.
Gabarito: B) estimular a coesão social.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o texto descreve o torém como um evento que depende e reforça os laços entre as pessoas (“vínculos de parentesco e afinidade”, “chamadas várias pessoas da região”), funcionando como um momento de encontro e fortalecimento da comunidade.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A missão é clara: para que serve o torém? Qual é a sua principal utilidade para o grupo que o pratica?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma grande família. O “torém” é como a festa de Natal ou um grande churrasco de domingo dessa família. Qual é a função principal dessas festas? Não é apenas comer ou trocar presentes. A função principal é juntar todo mundo, reforçar os laços, fazer as pessoas se sentirem parte de um grupo unido. É um evento que serve para “colar” a família. O verdadeiro desafio aqui é entender o nome técnico dessa “cola” que une as pessoas.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Identificar os Participantes: Quem brinca o torém?
- Analisar o Contexto: Quando e por que o ritual acontece?
- Determinar a Função: Com base nos participantes e no contexto, qual é o propósito social do evento?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é uma Análise Sociológica do Ritual, que nos ajudará a extrair as funções sociais do evento.
🕵️♂️ ANÁLISE SOCIOLÓGICA: O RITUAL DO TORÉM
- Estrutura Organizacional: “dependia de organização familiar“.
- Análise: A base do ritual é a estrutura mais fundamental da sociedade: a família.
- Critério de Participação (A Pista Chave): “brincado por pessoas com vínculos de parentesco e afinidade que viviam no local”.
- Análise: O ritual não é aberto a qualquer um; ele é para a “tribo”, para a comunidade. A participação é definida pelas relações sociais preexistentes.
- O Gatilho / Pretexto: “O tempo do caju”.
- Análise: Um evento sazonal, ligado à natureza e ao ciclo da vida local, serve como um marcador de tempo para a reunião.
- A Dinâmica do Evento: “chamadas várias pessoas da região a fim de tomar mocororó”.
- Análise: O ritual é inclusivo dentro da comunidade, um convite à congregação, à celebração coletiva.
Diagnóstico Final: Todas as pistas apontam na mesma direção. O torém é um mecanismo social que opera com base nos vínculos entre as pessoas e tem como objetivo reunir a comunidade. A função de um evento que reúne um grupo e reforça os laços entre seus membros é a de estimular a coesão social.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A investigação do texto é um exercício de conectar as palavras-chave.
- “Organização familiar” e “vínculos de parentesco e afinidade”: Essas expressões nos dizem que o torém é um evento intrinsecamente social, baseado nas relações que unem as pessoas.
- “entretenimento feito para os próprios participantes e seus conhecidos”: Isso reforça a ideia de que é um evento comunitário, voltado para dentro, para fortalecer o próprio grupo.
- “chamadas várias pessoas da região”: Isso mostra que o ritual é um ato de congregação, de juntar as pessoas.
Juntar pessoas que já têm laços para celebrar algo em comum é a receita clássica para fortalecer um grupo, para fazer com que as pessoas se sintam parte de algo maior. É a “cola” social em ação.
🚨 ARMADilha CLÁ-SSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais comum em textos sobre rituais é interpretá-los de forma literal ou utilitária. Um leitor pode focar em “tempo do caju” e pensar que o ritual é sobre agricultura ou comércio (Alternativa E). Ou focar em “brincadeira” e pensar que é apenas uma diversão sem função maior. Mas a armadilha é não perceber que, em sociologia e antropologia, rituais, festas e brincadeiras coletivas quase sempre têm uma função social profunda, que é a de reforçar a identidade e a unidade do grupo.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve um evento que é definido por laços sociais e que tem como dinâmica a reunião da comunidade.
- Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, nomear a função de fortalecer os laços e a unidade do grupo.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) celebrar a história oficial.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa que todo ritual celebra a história.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não menciona “história oficial”. O pretexto é um evento natural (“tempo do caju”), não histórico.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) estimular a coesão social.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Coesão social” é o termo técnico para a “cola” que une a comunidade, exatamente a função que o ritual, ao reunir parentes e afins, cumpre.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
C) superar a atividade artesanal.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor faz uma associação sem base.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não menciona artesanato.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) manipular a memória individual.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta o ritual de forma negativa.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição de Foco. O ritual é coletivo e fortalece a memória coletiva, não manipula a individual.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) modernizar o comércio tradicional.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no “caju” e pensa em comércio.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O caju é o pretexto para a festa, não para o comércio. O texto não menciona nenhuma atividade comercial.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois o torém, como descrito, funciona como o coração pulsante da comunidade, bombeando o sentimento de pertencimento e união por todo o corpo social.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O torém não é sobre o caju; é sobre a ‘liga’ que o suco de caju fermentado ajuda a criar entre as pessoas.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A função do torém é um exemplo perfeito do conceito de “Efervescência Coletiva” do sociólogo Émile Durkheim. Para Durkheim, rituais (religiosos ou seculares) são momentos em que a comunidade se reúne e, através de uma experiência intensa e compartilhada, os indivíduos sentem a força do grupo de forma quase elétrica. Essa “efervescência” serve para reafirmar as crenças, os valores e, o mais importante, os laços sociais que unem o grupo. O torém, com sua música, dança (implícita no termo “brincado”) e a bebida fermentada, é o cenário ideal para a efervescência coletiva, um mecanismo poderoso para gerar e renovar a coesão social. A conexão surpreendente é com a Neurociência Social: estudos mostram que rituais que envolvem movimento sincronizado (dança) e experiências compartilhadas liberam ocitocina e endorfinas no cérebro, os “hormônios do vínculo social”, fortalecendo biologicamente os sentimentos de confiança e pertencimento ao grupo.