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Questão 23, caderno azul do ENEM 2022 – LINGUAGENS

Mas seu olhar verde, inconfundível, impressionante, iluminava com sua luz misteriosa as sombrias arcadas superciliares, que pareciam queimadas por ela, dizia logo a sua origem cruzada e decantada através das misérias e dos orgulhos de homens de aventura, contadores de histórias fantásticas, e de mulheres caladas e sofredoras que acompanhavam os maridos e amantes através das matas intermináveis, expostas às febres, às feras, às cobras do sertão indecifrável, ameaçador e sem fim, que elas percorriam com a ambição única de um “pouso” onde pudessem viver, por alguns dias, a vida ilusória de família e de lar, sempre no encalço dos homens, enfebrados pela procura do ouro e do diamante.

PENNA, C. Fronteira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d.

Ao descrever os olhos de Maria Santa, o narrador estabelece correlações que refletem a

A) caracterização da personagem como mestiça.
B) construção do enredo de conquistas da família.
C) relação conflituosa das mulheres e seus maridos.
D) nostalgia do desejo de viver como os antepassados.
E) marca de antigos sofrimentos no fluxo de consciência

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Literatura Brasileira: O Romance de 30 (foco no Regionalismo Introspectivo/Psicológico de Cornélio Penna).
  • Análise Estilística: Fluxo de Consciência e Descrição Psicológica.
  • Interpretação de Texto: Relação entre traços físicos e memória coletiva.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar como uma descrição física (os olhos da personagem) serve de gatilho para uma narração psicológica que recupera a memória histórica e os traumas (sofrimentos) de seus antepassados.

Nível da Questão: Difícil.

  • Justificativa: O texto é denso, composto por um período longo e labiríntico (típico de Cornélio Penna). O aluno pode facilmente se prender à informação literal da “origem cruzada” (Alternativa A), ignorando que a estrutura do texto (o fluxo de pensamento) e a carga emocional (sofrimento) são os elementos que realmente definem a correlação proposta pelo narrador.

Gabarito: E.

  • Resumo: O narrador usa o olhar de Maria Santa como um portal para o passado. Ao descrever os olhos, ele não para na cor ou na raça; ele mergulha em um fluxo contínuo de pensamentos que traz à tona as dores, as misérias e a resignação das mulheres que vieram antes dela. O olhar é a cicatriz viva desse passado.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Diferenciar a descrição física da descrição psicológica.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Quando o narrador olha para os olhos dela, o que ele vê além da anatomia?”. Ele vê uma história. Que tipo de história? Uma história de vitórias e festas ou uma história de dor e memória?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você olha para as mãos calejadas de um avô.

Uma análise superficial diria: “Mãos ásperas” (Físico).

A análise do texto diz: “Mãos que carregam o peso de anos na roça, o frio das manhãs e a dor da enxada” (Memória/Sofrimento).

O texto faz isso com os olhos: eles são arquivos de dor antiga.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar o estilo do texto (frases longas, sem pausa = fluxo).
  • Rastrear as palavras que descrevem o passado (misérias, sofredoras, febres).
  • Conectar esse estilo (fluxo) com o conteúdo (sofrimento).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a profundidade desse texto, vamos usar o Fluxograma do Olhar. O texto é um mergulho que começa na superfície e vai até a alma.

O CAMINHO DA DESCRIÇÃO:

  1. A Superfície (O Gatilho):
    • “Seu olhar verde… iluminava as sombrias arcadas.”
  2. A Primeira Camada (A Raça):
    • “Dizia logo a sua origem cruzada…” (Mestiçagem).
  3. A Camada Profunda (A História/Sofrimento):
    • “Decantada através das misérias…”
    • “Mulheres caladas e sofredoras…”
    • “Expostas às febres, às feras…”
  4. O Método (A Forma):
    • Tudo isso é dito em uma única respiração, sem pontos finais. Isso se chama Fluxo de Consciência. O narrador mistura o presente (os olhos dela) com o passado (as avós dela) num único turbilhão mental.

Conceito Chave: Regionalismo Introspectivo
Diferente de autores que descreviam apenas a seca ou a terra (como Graciliano Ramos), Cornélio Penna descrevia os “fantasmas” interiores. Os olhos não mostram apenas quem ela é, mas tudo o que ela sofreu através de seus ancestrais.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o sentimento do texto:

  • O texto diz que a origem dela foi “decantada através das misérias”. Decantar é limpar, filtrar. A essência dela foi filtrada pela dor.
  • O narrador foca nas “mulheres caladas e sofredoras”. Ele não fala de mulheres guerreiras que venceram batalhas; fala de mulheres que aguentaram o tranco (“febres”, “feras”, “cobras”).
  • O final menciona a “vida ilusória”. A esperança era uma ilusão; o sofrimento era a realidade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) (“caracterização como mestiça”) é o distrator mais forte.

  • Por que confunde? Porque o texto diz literalmente “origem cruzada” (mestiça).
  • Por que não é a resposta (nesta leitura)? Porque “ser mestiça” é apenas um dado biológico. O texto gasta 90% de suas linhas falando sobre dor, miséria, febre e solidão. Reduzir o texto à raça é ignorar a carga emocional (o sofrimento) e a estrutura narrativa (o fluxo de memória) que a questão pede para analisar.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto é uma onda de memória que conecta os olhos verdes atuais às dores antigas.
  • Expectativa: A alternativa deve unir “passado/memória” com “dor/sofrimento” e “estilo narrativo/fluxo”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) caracterização da personagem como mestiça.
    • Diagnóstico do Erro: Reducionismo / Leitura Superficial.
    • Narrativa do Erro: O aluno lê “origem cruzada” e marca. Porém, o narrador estabelece correlações muito mais profundas do que a mera etnia. Ele correlaciona os olhos à história de dor dessa mestiçagem, não apenas ao fato de ser mestiça.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) construção do enredo de conquistas da família.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição de Sentido.
    • Narrativa do Erro: O texto fala de “misérias”, “vida ilusória” e “mulheres sofredoras”. Não há conquistas vitoriosas aqui, apenas sobrevivência em meio à adversidade.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) relação conflituosa das mulheres e seus maridos.
    • Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
    • Narrativa do Erro: O texto diz que as mulheres “acompanhavam os maridos”. Elas eram submissas ou parceiras no sofrimento (“sempre no encalço”), mas o texto não descreve brigas ou conflitos diretos entre o casal, e sim o conflito contra o ambiente (sertão).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) nostalgia do desejo de viver como os antepassados.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Tom.
    • Narrativa do Erro: Nostalgia implica saudade de um tempo bom. O passado descrito é aterrorizante (“sertão ameaçador”, “feras”, “febres”). Ninguém tem nostalgia de pegar febre amarela no meio do mato.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) marca de antigos sofrimentos no fluxo de consciência.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Marca de antigos sofrimentos”: Refere-se às “misérias”, “mulheres sofredoras”, “febres”.
      • “Fluxo de consciência”: Refere-se à técnica literária de escrever os pensamentos em um jorro contínuo, misturando passado e presente numa única frase longa e complexa, como vemos no texto.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Os olhos de Maria Santa não são apenas janelas para a alma, são túneis do tempo: através do fluxo de consciência, o narrador revela que a beleza do presente foi forjada no fogo dos antigos sofrimentos do passado.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
O olho é um projetor de cinema. A imagem projetada não é uma foto 3×4 (mestiça), mas um filme triste e longo (fluxo) de mulheres caminhando no deserto (sofrimento).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa técnica de Fluxo de Consciência é a marca registrada de gigantes da literatura mundial como Clarice LispectorVirginia Woolf e James Joyce. Eles tentam colocar no papel a forma bagunçada e contínua como pensamos, onde uma imagem (olhos) puxa uma lembrança (avós), que puxa um sentimento (dor), sem pausas.

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