Por maioria, nós não entendemos uma quantidade relativa maior, mas a determinação de um estado ou de um padrão em relação ao qual tanto as quantidades maiores quanto as menores serão ditas minoritárias. Maioria supõe um estado de dominação. É nesse sentido que as mulheres, as crianças e também os animais são minoritários.
DELEUXE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. São Paulo: Editora 34, 2012 (adaptado).
No texto, a caracterização de uma minoria decorre da existência de
A) ameaças de extinção social.
B) políticas de incentivos estatais.
C) relações de natureza arbitrária.
D) valorações de conexões simétricas.
E) hierarquizações de origem biológica.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Filosófico
- Filosofia Política / Teoria Social (Conceitos de Poder, Norma e Dominação)
Tema/Objetivo Geral: Analisar o conceito filosófico de “minoria” de Deleuze e Guattari, desvinculando-o da noção quantitativa e associando-o a relações de poder.
Nível da Questão: Difícil.
- Por quê? A questão exige a compreensão de um conceito contraintuitivo e abstrato. A redefinição de “maioria” como um “padrão” e não como uma “quantidade” é complexa. O candidato precisa entender essa nova regra do jogo para conseguir resolver o enigma. As alternativas são todas conceituais, o que aumenta a dificuldade.
Gabarito: C) relações de natureza arbitrária.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque, se a “maioria” é a imposição de um “padrão” ou “estado de dominação” (e não um fato numérico ou natural), então essa imposição não tem uma base justa ou necessária; ela é fruto de uma construção de poder, ou seja, de relações que são, em sua essência, arbitrárias.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A missão é entender a “receita” de Deleuze e Guattari para criar uma “minoria”. Qual é o ingrediente principal nesse processo?
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que estamos definindo o que é um “jogador de basquete”.
- A lógica normal (quantitativa): A maioria dos jogadores tem mais de 2 metros. Quem tem menos de 2 metros é minoria.
- A lógica de Deleuze e Guattari: Eles diriam: “Não! O problema não é a altura. O problema é que um grupo decidiu que o padrão do ‘verdadeiro jogador’ é o homem, adulto, alto e forte. Esse padrão é a ‘maioria’, mesmo que existam mais pessoas no mundo que não se encaixam nele”. Segundo essa lógica, uma mulher jogadora de basquete, mesmo que seja a mais alta do time, ainda será “minoritária”, porque ela se desvia do padrão “homem”. O verdadeiro desafio aqui é entender que a ‘maioria’ não é um número, é um carimbo de ‘normalidade’ que um grupo dominante impõe aos outros. E essa imposição é arbitrária.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Descartar a Lógica Antiga: Vamos entender por que, para os autores, “maioria” não é uma questão de quantidade.
- Definir a Nova Lógica: O que é a “maioria” no novo sistema?
- Identificar a Causa da Minoria: Se a “maioria” é esse novo conceito, qual é a força que cria as “minorias”?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa de Conceitos: Senso Comum vs. Deleuze & Guattari.
| Conceito | Visão do Senso Comum | Visão de Deleuze & Guattari (D&G) |
| Maioria | A maior quantidade numérica. (Ex: Em um grupo de 10, 6 é a maioria). | Um “estado ou padrão” de referência. O modelo do que é “normal” ou “padrão”. (Ex: O padrão do ser humano é o homem adulto). |
| Minoria | A menor quantidade numérica. (Ex: Em um grupo de 10, 4 é a minoria). | Tudo aquilo que se desvia ou é medido em relação ao padrão. (Ex: Mulheres e crianças são minoritários porque não são o “homem adulto padrão”). |
| Fonte do Poder | O poder dos números, a força da quantidade. | Um “estado de dominação”. O poder de impor o seu próprio grupo como o padrão para todos os outros. |
Conclusão da Tabela: A análise revela que, para D&G, a divisão entre maioria e minoria não é um fato matemático ou natural. É o resultado de uma luta de poder em que um grupo se impõe como norma. E por que o “homem adulto” é a norma e não a “mulher” ou a “criança”? Não há uma razão lógica ou natural para isso. É uma construção histórica e social, ou seja, é arbitrária.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A primeira frase do texto é a chave de tudo: “Por maioria, nós não entendemos uma quantidade […] mas a determinação de um estado ou de um padrão”. Os autores jogam fora a régua da matemática e pegam a régua do poder.
A “maioria”, nesse novo sentido, é o metro-padrão. É o “Homem Branco Europeu Adulto”, por exemplo. Tudo o que não for isso (mulher, criança, negro, indígena) se torna “minoritário”, não porque há menos pessoas, mas porque essas pessoas são definidas e medidas em relação a esse padrão.
A frase seguinte confirma: “Maioria supõe um estado de dominação“. É o poder de dizer “Eu sou o normal, você é o desvio”.
O exemplo final é a prova dos nove: “É nesse sentido que as mulheres, as crianças e também os animais são minoritários”. Mulheres são, numericamente, cerca de metade da população mundial. Crianças, em muitos países, são um grupo numeroso. Mas, em relação ao padrão de poder (o homem adulto), elas são definidas como “minoria”. A força que as coloca nessa posição não é a biologia nem a matemática, mas uma relação de poder historicamente construída. Uma relação sem justificativa natural, portanto, arbitrária.
🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (E): “hierarquizações de origem biológica”. O leitor vê a lista “mulheres, crianças” e pensa que a diferença é biológica (sexo, idade). Mas a armadilha é confundir a característica usada como pretexto com a origem da hierarquia. A sociedade usa a biologia como desculpa, mas a hierarquia em si não é um fato biológico; é uma construção social que atribui mais poder a um grupo biológico do que a outro. Para Deleuze e Guattari, essa construção é puramente uma questão de poder, não de natureza.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto define a minoria como o resultado de um ato de poder, no qual um grupo dominante se estabelece como o padrão de “normalidade” e mede todos os outros em relação a si. Esse ato de imposição não tem fundamento na natureza ou na lógica, sendo, portanto, arbitrário.
- Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa ideia de que a hierarquia é imposta, construída, não natural, ou seja, arbitrária.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) ameaças de extinção social.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “minoria” com “risco”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto define a minoria por sua relação com o poder, não por uma ameaça de desaparecimento.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) políticas de incentivos estatais.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa em políticas para minorias.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto está fazendo uma análise filosófica da origem do conceito de minoria, não discutindo políticas públicas.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) relações de natureza arbitrária.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. Se a “maioria” é um padrão imposto por um “estado de dominação”, essa relação de poder é, por definição, arbitrária (não baseada na razão, na natureza ou na justiça).
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
D) valorações de conexões simétricas.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura invertida.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto descreve uma relação de dominação, que é, por definição, assimétrica (desigual), e não simétrica.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) hierarquizações de origem biológica.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir o Pretexto com a Causa. A biologia é usada como pretexto, mas a causa da hierarquia é a construção social do poder, que é arbitrária.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (C) é a correta, pois Deleuze e Guattari nos ensinam que ser “maioria” não é uma questão de números, mas de ter o poder arbitrário de ser o metro que mede todos os outros.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A maioria não é quem tem mais gente no time; é quem é o dono do apito e pode mudar as regras do jogo a qualquer momento.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conceito de Deleuze e Guattari se conecta de forma surpreendente com a Física da Relatividade de Einstein. Antes de Einstein, pensava-se que o tempo e o espaço eram absolutos, um “padrão” fixo para todo o universo. Einstein mostrou que o tempo e o espaço são relativos; eles dependem do referencial do observador. Da mesma forma, Deleuze e Guattari fazem uma “relatividade sociológica”: eles mostram que a “maioria” não é um padrão absoluto, mas um referencial imposto por um grupo. O que eles propõem, em sua filosofia, é a possibilidade de criar outros referenciais, de se tornar um “menor” que não se define mais em relação ao “maior”, mas cria seu próprio “espaço-tempo”. É o que eles chamam de “devir-minoritário”.