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Questão 63, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

As atividades mineradoras têm criado conflitos com extrativistas, quilombolas, pequenos agricultores, ribeirinhos, pescadores artesanais e povos indígenas. Em geral, estes sujeitos têm encontrado grande dificuldade de reproduzir suas dinâmicas territoriais depois da instalação da atividade mineradora, nem sempre com reconhecimento do impacto ao seu território pelo Estado e pela empresa, ficando sem qualquer tipo de compensação econômica. Em outros casos, nem a compensação econômica tem sido capaz de evitar esgarçamento das relações sociais destes grupos que sofrem com a reconstrução abrupta das suas identidades e de suas dinâmicas territoriais.

PALHETA, J. M. et al. Conflitos pelo uso do território na Amazônica mineral. Mercator, n. 16. 2017.

O texto apresenta uma relação entre atividade econômica e organização social marcada pelo(a)

A) escassez de incentivo cultural.

B) rompimento de vínculos locais.

C) carência de investimento financeiro.

D) estabelecimento de práticas agroecológicas.

E) enriquecimento das comunidades autóctones.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Geografia Humana (Conflitos Territoriais)
  • Sociologia (Impactos de Grandes Projetos, Relações Sociais)

Tema/Objetivo Geral: Analisar os impactos socioespaciais da instalação de grandes projetos econômicos (mineração) sobre comunidades tradicionais.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige que o leitor sintetize uma série de impactos negativos (“dificuldade de reproduzir suas dinâmicas territoriais”, “esgarçamento das relações sociais”, “reconstrução abrupta das suas identidades”) em um único conceito abrangente (“rompimento de vínculos locais”). A dificuldade está em fazer essa síntese conceitual.

Gabarito: B) rompimento de vínculos locais.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o texto descreve explicitamente o “esgarçamento das relações sociais” e a destruição das “dinâmicas territoriais”, que são os dois componentes fundamentais dos vínculos que unem uma comunidade ao seu território e a si mesma.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é clara: qual é a principal ferida social que a atividade mineradora abre nas comunidades tradicionais, segundo o texto?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma comunidade como uma teia de aranha complexa e delicada, tecida ao longo de gerações. Cada fio é uma relação social, um costume, uma forma de usar a terra (a “dinâmica territorial”). A teia é a identidade do grupo. A atividade mineradora chega como uma mão gigante que, ao se instalar no meio da teia, rasga os fios, desfaz os nós e quebra a estrutura. Mesmo que a mão gigante jogue algumas moedas na teia (“compensação econômica”), ela não consegue remendar os fios rompidos. O verdadeiro desafio aqui é entender que o principal dano não é a falta de dinheiro, mas o esfacelamento da própria teia que mantinha a comunidade unida.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Identificar as Vítimas: Quem são os grupos afetados?
    2. Analisar o Modus Operandi do Crime: Quais são os impactos que a mineração causa a esses grupos?
    3. Definir o Crime: Vamos dar o nome ao resultado final desse processo de desestruturação.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Ficha de Análise de Impacto Socioambiental, que nos ajudará a organizar as consequências listadas no texto.

🕵️‍♂️ FICHA DE ANÁLISE: O IMPACTO DA MINERAÇÃO

  • Grupos Afetados: Extrativistas, quilombolas, pequenos agricultores, ribeirinhos, pescadores artesanais e povos indígenas.
    • Característica Comum: Todos são grupos com forte ligação territorial e social.
  • Impactos Descritos no Texto:
    1. Impacto Territorial: “grande dificuldade de reproduzir suas dinâmicas territoriais“.
      • Análise: O modo de vida, que depende da terra (pesca, extrativismo, agricultura), é quebrado.
    2. Impacto Social: “esgarçamento das relações sociais“.
      • Análise: Os laços que unem as pessoas dentro da comunidade se enfraquecem e se rompem.
    3. Impacto Identitário: “reconstrução abrupta das suas identidades“.
      • Análise: A forma como o grupo se entende e se vê no mundo é violentamente alterada.
  • A Falha da “Solução”:
    • A “compensação econômica” é ineficaz: “nem a compensação […] tem sido capaz de evitar [os danos]”.

Síntese da Investigação: A mineração ataca os três pilares que sustentam uma comunidade tradicional: sua relação com a terra, suas relações entre si e sua identidade coletiva. A quebra desses pilares pode ser resumida como um rompimento dos vínculos locais (vínculos com o lugar e com as pessoas do lugar).


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A investigação do texto revela uma cascata de problemas. O primeiro é a destruição do modo de vida, a “dificuldade de reproduzir suas dinâmicas territoriais”. Um pescador não pode pescar em um rio contaminado. Um extrativista não pode coletar em uma floresta desmatada.

Mas o texto vai além do impacto material. Ele usa a palavra forte “esgarçamento“, que significa rasgar, desfiar. As “relações sociais” estão sendo desfeitas. A chegada de um grande empreendimento pode criar divisões internas, conflitos, um novo modo de vida individualista que destrói a coesão comunitária.

A frase final é a mais poderosa: “reconstrução abrupta das suas identidades”. A identidade de um povo, construída ao longo de séculos, é violentamente desfigurada.

O que a destruição das dinâmicas territoriais, o esgarçamento das relações sociais e a reconstrução da identidade têm em comum? Todas são formas de rompimento de vínculos: o vínculo com a terra, o vínculo com o vizinho, o vínculo com a própria história.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C): “carência de investimento financeiro”. O leitor pode focar na parte que diz “ficando sem qualquer tipo de compensação econômica”. Mas a armadilha é ignorar a segunda parte do argumento, que é muito mais forte: “nem a compensação econômica tem sido capaz de evitar [os danos]”. Isso mostra que o problema não é a falta de dinheiro. O dinheiro, mesmo quando existe, não consegue consertar a teia social que foi rasgada. O problema é muito mais profundo do que uma questão financeira.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O texto argumenta que o principal impacto da mineração é a desintegração do tecido social e cultural das comunidades, quebrando os laços que as definem.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, capturar essa ideia de quebra, ruptura, desintegração ou rompimento dos laços que conectam as pessoas entre si e ao seu lugar.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) escassez de incentivo cultural.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a perda de identidade como falta de “incentivo”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão. O problema não é a falta de um “incentivo” externo para a cultura, mas a destruição ativa da base material e social sobre a qual a cultura se sustenta.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) rompimento de vínculos locais.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Rompimento” descreve o “esgarçamento”. “Vínculos locais” engloba tanto as “relações sociais” (vínculos entre pessoas) quanto as “dinâmicas territoriais” (vínculos com o lugar).
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) carência de investimento financeiro.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto afirma que, mesmo com investimento financeiro (“compensação”), o problema persiste.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) estabelecimento de práticas agroecológicas.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa em alternativas à mineração.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto descreve os problemas da mineração, não menciona práticas agroecológicas.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) enriquecimento das comunidades autóctones.

  • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente invertida do texto.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto descreve um processo de empobrecimento social e cultural, não de enriquecimento.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois o texto denuncia que a mineração, em sua busca por riquezas minerais, muitas vezes destrói uma riqueza muito maior e insubstituível: o tecido social e os vínculos que formam uma comunidade.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A mineradora cava um buraco na terra e, como consequência, abre um abismo entre as pessoas.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O “esgarçamento das relações sociais” descrito no texto é um fenômeno que a Sociologia Clássica de Émile Durkheim chamaria de Anomia. A anomia é um estado de desintegração social que ocorre quando as normas e os valores que regulam a vida em comunidade perdem sua força. A chegada “abrupta” de um grande projeto como a mineração impõe novas lógicas (a do dinheiro, a do trabalho assalariado, a da competição individual) que entram em conflito e destroem as normas tradicionais da comunidade (a da cooperação, a da relação com a natureza). Isso gera um estado de anomia, um vácuo de regras sociais, que se manifesta no rompimento dos vínculos locais e na perda de identidade.

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