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Questão 43, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

D’SALETE, M. Cumbe. São Paulo: Veneta, 2018, p. 10-11 (adaptado).

A sequência dos quadrinhos conjuga lirismo e violência ao

A)sugerir a impossibilidade de manutenção dos afetos.

B) revelar os corpos marcados pela brutalidade colonial.

C) representar o abatimento diante da desumanidade vivida.

D) acentuar a resistência identitária dos povos escravizados.

E) expor os sujeitos alijados de sua ancestralidade pelo exílio.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Multimodal (História em Quadrinhos)
  • História do Brasil (Período da Escravidão, Cultura Afro-Brasileira)
  • Análise de Elementos Narrativos e Simbólicos

Tema/Objetivo Geral: Analisar como uma obra de arte pode representar a resistência cultural e afetiva em um contexto de opressão violenta.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige uma leitura que vá além da denúncia óbvia da violência. É preciso perceber como os elementos líricos (o afeto, a espiritualidade) funcionam não como uma fuga, mas como uma forma de luta. A alternativa (B) é uma distratora forte, pois descreve um aspecto visualmente poderoso, mas incompleto, da obra.

Gabarito: D) acentuar a resistência identitária dos povos escravizados.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a HQ não mostra apenas o sofrimento (a violência), mas também a forma como os escravizados se apegavam à sua cultura, espiritualidade (“Calunga”, “nsanga”) e laços afetivos para manterem sua humanidade e identidade vivas, o que é uma forma poderosa de resistência.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para entender o propósito da combinação de cenas de afeto e sonho (“lirismo”) com cenas de brutalidade e dor (“violência”). O que essa mistura nos revela?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um prisioneiro em uma cela escura e brutal (a violência). Ele tem o corpo ferido, está longe de casa. Mas, no escuro, ele começa a cantar uma canção de sua terra, em sua língua, uma canção que fala de amor e de liberdade (o lirismo). A canção não nega a existência da cela, mas a cela também não consegue calar a canção. O verdadeiro desafio aqui é entender que o ato de cantar naquela cela não é um sinal de fraqueza ou de simples tristeza; é o ato mais corajoso de resistência possível. É a afirmação de que, mesmo que o corpo esteja preso, a identidade e a alma não estão.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Investigar a Violência: Vamos identificar as marcas da opressão colonial nos quadrinhos.
    2. Investigar o Lirismo: Vamos decodificar os elementos de afeto, cultura e espiritualidade presentes.
    3. Analisar o Confronto: Entenderemos o que a sobrevivência do lirismo em meio à violência nos diz sobre os personagens.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa de Forças Opostas, que nos ajudará a visualizar o conflito central.

A Força da Opressão (A Violência) A Força da Permanência (O Lirismo)
O que faz? Busca desumanizar, apagar a identidade. O que faz? Busca preservar a humanidade, a identidade.
Como age? Através da força física (cicatrizes no quadro 6), do deslocamento forçado (“Longe daqui…”, quadro 3). Como age? Através da memória ancestral (“O tata contou…”), da espiritualidade (“Calunga”, “nsanga”), do afeto e do planejamento de um futuro juntos (“podemos ficar juntos lá na outra terra”).
Resultado no Quadrinho: O corpo está marcado, mas a mente e o coração ainda sonham e planejam usando seu próprio repertório cultural.

Conclusão da Análise: A violência não consegue destruir o lirismo. O lirismo, portanto, funciona como um ato de resistência.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A sequência começa com um sonho ou uma lembrança, um espaço mental onde a cultura ancestral ainda vive (“O Tata contou sobre o Calunga”). Isso já nos diz que a mente do personagem é um refúgio.

No quadro 2, vemos a manifestação do afeto e de um plano de fuga que envolve elementos de sua cultura (“beber a nsanga”). A união e a espiritualidade são as ferramentas para a liberdade. Isso é lirismo puro, mas um lirismo ativo, de luta.

Essa cena é brutalmente justaposta com a realidade da escravidão: homens sendo levados para o trabalho forçado (quadro 3) e o close-up em um corpo marcado por cicatrizes de açoitamento (quadro 6). A violência é explícita.

Ao colocar o sonho de liberdade cultural ao lado da realidade da tortura física, o autor não está dizendo que o sonho é impossível. Pelo contrário, ele está mostrando que é precisamente por causa da violência que o sonho, o afeto e a cultura se tornam as únicas e mais poderosas armas de resistência identitária. Manter-se humano, capaz de amar e de se conectar com sua ancestralidade, era a maior forma de rebeldia.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B): “revelar os corpos marcados pela brutalidade colonial”. O quadro 6, com as costas marcadas, é talvez o mais chocante da página. É fácil focar nele e concluir que o objetivo principal é apenas denunciar a violência física. Mas a armadilha é ignorar a pergunta, que pede a análise da conjugação entre lirismo e violência. A alternativa (B) foca apenas na violência, descrevendo uma parte, mas não o todo. Ela descreve o ataque, mas não a resposta a ele.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A HQ não é apenas um lamento sobre a dor da escravidão. É uma tese sobre como, mesmo sob a mais extrema violência, os laços culturais e afetivos foram preservados como forma de manter a identidade e a humanidade.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, ir além da simples descrição da violência e abordar como os elementos líricos (cultura, afeto) funcionam como uma forma de luta, afirmação ou resistência.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) sugerir a impossibilidade de manutenção dos afetos.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na dificuldade e na tragédia da situação.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O quadrinho mostra exatamente o oposto: a tentativa desesperada e ativa de manter os afetos, mesmo que seja em “outra terra”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) revelar os corpos marcados pela brutalidade colonial.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a parte, não o todo). Descreve a violência, mas ignora a função do lirismo em contraponto a ela.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) representar o abatimento diante da desumanidade vivida.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca nas expressões de cansaço dos personagens.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Parcial. Há sofrimento, mas a ação principal do diálogo é um plano de ação, um ato de esperança e planejamento, que é o oposto do puro abatimento.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) acentuar a resistência identitária dos povos escravizados.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. A manutenção da identidade (representada pela cultura, espiritualidade e afeto) em face da violência é a definição de resistência identitária.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) expor os sujeitos alijados de sua ancestralidade pelo exílio.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no fato do exílio (a travessia do Atlântico).
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A HQ mostra personagens que estão usando ativamente sua ancestralidade (“O tata contou”, “Calunga”, “nsanga”) como fonte de força. Eles não estão “alijados” (separados) dela; estão conectados a ela.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois “Cumbe” nos ensina que a resistência mais profunda não se dá apenas com o corpo que luta, mas com a alma que se recusa a esquecer quem é.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A chibata marcou a pele, mas não conseguiu apagar o mapa da alma que levava de volta à África.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conceito de resistência identitária presente na HQ conecta-se diretamente à Neurociência da Memória e do Trauma. Estudos mostram que, em situações de trauma extremo, o cérebro pode usar a memória afetiva e a imaginação como mecanismos de sobrevivência psicológica. A evocação de memórias positivas (como as histórias do “Tata”) e a projeção de um futuro alternativo (ficar juntos em “outra terra”) não são meras fugas da realidade. São estratégias neurobiológicas para manter a integridade do self e a esperança, protegendo o cérebro dos efeitos devastadores do estresse crônico e da desesperança. A arte de Marcelo D’Salete, portanto, retrata intuitivamente um mecanismo de resiliência psicológica que a ciência hoje começa a compreender.

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