Os velhos papéis, quando não são consumidos pelo fogo, às vezes acordam de seu sono para contar notícias do passado.
É assim que se descobre algo novo de um nome antigo, sobre o qual já se julgava saber tudo, como Machado de Assis.
Por exemplo, você provavelmente não sabe que o autor carioca, morto em 1908, escreveu uma letra do hino nacional em 1867 — e não poderia saber mesmo, porque os versos seguiam inéditos. Até hoje.
Essa letra acaba de ser descoberta, em um jornal antigo de Florianópolis, pelo pesquisador independente Felipe Rissato.
“Das florestas em que habito/ Solto um canto varonil:/ Em honra e glória de Pedro/ O gigante do Brasil”, diz o começo do hino, composto de sete estrofes em redondilhas maiores, ou seja, versos de sete sílabas poéticas. O trecho também é o refrão da música.
O Pedro mencionado é o imperador Dom Pedro II. O bruxo do Cosme Velho compôs a letra para o aniversário de 42 anos do monarca, em 2 de dezembro daquele ano — o hino seria apresentado naquele dia no teatro da cidade de Desterro, antigo nome de Florianópolis.
Disponível em: www.revistaprosaversoarte.com. Acesso em 4 dez. 2018 (adaptado)
Considerando-se as operações de retomada de informações na estruturação do texto, há interdependência entre as expressões
A) “Os velho papéis” e “É assim”.
B) “algo novo” e “sobre o qual.”
C) “um nome antigo” e “Por exemplo.”
D) “O gigante do Brasil” e “O Pedro mencionado.”
E) “o imperador Dom Pedro II” e “O bruxo do Cosme Velho”.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Gramática (Mecanismos de Coesão e Coerência Textual)
- Análise Sintática (Função de Pronomes e Expressões Anafóricas/Catafóricas)
- Interpretação de Texto
Tema/Objetivo Geral: Identificar um par de expressões que exemplifica o mecanismo de coesão referencial por retomada (anáfora).
Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige um conhecimento técnico sobre coesão textual. Não basta entender o texto; é preciso analisar sua estrutura interna. A alternativa (E) é uma distratora inteligente, pois apresenta duas expressões que se referem a personagens importantes, mas que não têm uma relação de dependência referencial entre si.
Gabarito: D) “O gigante do Brasil” e “O Pedro mencionado.”
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque “O Pedro mencionado” é uma expressão anafórica que retoma e esclarece o referente da expressão anterior, “Pedro”. Por sua vez, “Pedro” é o núcleo do epíteto “O gigante do Brasil”. A compreensão de “O Pedro mencionado” depende diretamente da menção prévia de “Pedro” no verso do hino.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para encontrar um par de “fichas de dominó” linguísticas no texto. Ou seja, duas expressões em que a segunda só faz sentido porque a primeira já foi apresentada; a segunda “cai” em cima da primeira.
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no texto como uma conversa. Se eu chego para você e digo: “Aquele cara é muito inteligente”, você vai perguntar: “Que cara?”. A expressão “Aquele cara” não funciona sozinha. Eu preciso ter apontado para alguém antes, ou ter falado dele. A questão quer que a gente encontre uma situação parecida no texto: uma expressão que funciona como um “aquele” ou “o mencionado”, que aponta para trás.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Isolar os Pares Suspeitos: Vamos analisar cada par de expressões das alternativas.
- Aplicar o Teste de Dependência: Para cada par, vamos perguntar: “A segunda expressão precisa da primeira para ser entendida neste contexto? Ela está retomando a primeira?”.
- Identificar a Conexão Real: O par que responder “sim” ao teste será a nossa resposta.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é a Análise de Coesão Referencial. Vamos usar uma tabela para aplicar nosso “Teste de Dependência” a cada alternativa. Coesão referencial é o nome técnico para o “efeito dominó” que estamos procurando.
| Par Suspeito | Teste de Dependência: A expressão 2 retoma a expressão 1? | Veredito |
| A) “Os velhos papéis” e “É assim” | “É assim” não retoma “Os velhos papéis”. A expressão “É assim” retoma a ideia da frase anterior inteira (“acordam […] para contar notícias”). É uma retomada de processo, não de um substantivo. | Inocente. A conexão é fraca. |
| B) “algo novo” e “sobre o qual.” | “sobre o qual” retoma “um nome antigo”, não “algo novo”. A frase é “…algo novo de um nome antigo, sobre o qual…”. O pronome relativo se refere ao termo mais próximo. | Inocente. Conexão errada. |
| C) “um nome antigo” e “Por exemplo.” | “Por exemplo” é um conector que introduz uma exemplificação. Ele não retoma “um nome antigo”. | Inocente. Não é coesão referencial. |
| D) “O gigante do Brasil” e “O Pedro mencionado.” | O texto cita o verso: “…em honra e glória de Pedro/ O gigante do Brasil”. Logo depois, o autor explica: “O Pedro mencionado é o imperador…”. A expressão “O Pedro mencionado” retoma diretamente o nome “Pedro” que apareceu antes. Há uma clara interdependência. | Culpado! Conexão direta e forte. |
| E) “o imperador Dom Pedro II” e “O bruxo do Cosme Velho” | “O bruxo do Cosme Velho” é um apelido para Machado de Assis. A expressão não retoma “o imperador Dom Pedro II”. São duas pessoas diferentes. | Inocente. Não há retomada. |
A análise com nossa ferramenta deixa claro qual é o par que possui a interdependência que procuramos.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano. A chave está em entender o que significa “retomada de informação”. É quando o autor usa uma palavra ou expressão para se referir a algo que ele já disse, para não precisar repetir.
No texto, o autor cita um verso do hino escrito por Machado: “Em honra e glória de Pedro/ O gigante do Brasil”.
Neste ponto, o leitor pode perguntar: “Que Pedro?”.
O autor, prevendo isso, escreve o parágrafo seguinte começando com: “O Pedro mencionado é o imperador Dom Pedro II.”
A expressão “O Pedro mencionado” é a pista. A palavra “mencionado” funciona como uma seta apontando para trás, para o nome “Pedro” que acabamos de ler no verso. Sem a menção anterior a “Pedro”, a expressão “O Pedro mencionado” ficaria flutuando sem sentido. Elas são interdependentes. A primeira apresenta o referente; a segunda o retoma para explicá-lo.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (E). “O imperador Dom Pedro II” e “O bruxo do Cosme Velho” são duas figuras centrais na história. É fácil associá-las. Mas a armadilha é confundir uma associação temática com uma conexão coesiva. O texto fala dos dois, mas uma expressão não “retoma” a outra. São referentes distintos. A questão não é sobre quem é importante na história, mas sobre como as palavras se conectam umas às outras.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação procura um par de expressões onde a segunda é um mecanismo anafórico, ou seja, uma referência explícita a um termo que apareceu antes no texto.
- Expectativa: A alternativa correta deve apresentar um par em que a segunda expressão contenha um elemento (como um pronome ou um adjetivo como “mencionado”) que aponte claramente para a primeira.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos formalizar o veredito para cada suspeito.
A) “Os velhos papéis” e “É assim”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Conexão Lógica, não Referencial. “É assim” conecta ideias, mas não se refere de volta a “papéis”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) “algo novo” e “sobre o qual.”
- O “Diagnóstico do Erro”: Referente Incorreto. O pronome “o qual” retoma “um nome antigo”, não “algo novo”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) “um nome antigo” e “Por exemplo.”
- O “Diagnóstico do Erro”: Conector Lógico, não Referencial. “Por exemplo” é um operador argumentativo, não um elemento de retomada de um substantivo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) “O gigante do Brasil” e “O Pedro mencionado.”
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “O Pedro mencionado” retoma o “Pedro” da expressão “O gigante do Brasil”. A interdependência é explícita.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
E) “o imperador Dom Pedro II” e “O bruxo do Cosme Velho”.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Associação Temática, não Coesiva. As duas expressões se referem a pessoas diferentes, ambas importantes no texto, mas sem uma relação de retomada entre si.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois demonstra um caso clássico de coesão anafórica, onde uma expressão posterior age como um holofote, iluminando e explicando um termo apresentado anteriormente.
Resumo-flash (A Imagem Mental): A coesão textual é como um GPS: a expressão “O Pedro mencionado” é o ponto azul que diz “Você está aqui”, apontando para o “Pedro” que já estava no mapa.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mecanismo de coesão analisado aqui é fundamental para a Inteligência Artificial e o Processamento de Linguagem Natural (PLN). Ensinar um computador a entender um texto envolve, crucialmente, ensiná-lo a resolver essas referências. Quando um programa como o Google Assistente ou a Alexa lê um texto e responde a perguntas sobre ele, uma de suas tarefas mais complexas é a “Resolução de Anáfora”. O computador precisa aprender que “O Pedro mencionado” não é uma nova pessoa, mas se refere ao mesmo “Pedro” do verso do hino. A análise que fizemos é exatamente o tipo de lógica que os engenheiros de IA implementam em algoritmos para que as máquinas possam, de fato, “entender” o que leem.