Seus primeiros anos de detento foram difíceis; aos poucos entendeu como o sistema funciona. Apanhou dezenas de vezes, teve o crânio esmagado, o maxilar deslocado, braços e pernas quebrados; por fim, um dia ficou lesionado da perna quando foi jogado da laje de um pavilhão. Nem todas as vezes ele soube por que apanhou, muito menos da última, quando foi deixado para morrer, mas sobreviveu. Seu corpo, moído no inferno, aguarda o fim dos seus dias. Já não questiona mais. Obedece. Cumpre as ordens. Baixa a cabeça e se retira. Apanha, às vezes com motivo, às vezes sem. Por onde passou, derramaram seu sangue. Seu rastro pode ser seguido. Intriga ter sobrevivido durante tantos anos. Pouquíssimos chegaram à terceira idade encarcerados.
MAIA, A. P. Assim na terra como embaixo da terra. Rio de Janeiro: Record, 2017.
A narrativa concentra sua força expressiva no manejo de recursos formais e numa representação ficcional que
A) buscam perpetuar visões do senso comum.
B) trazem à tona atitudes de um estado de exceção.
C) promovem a interlocução com grupos silenciados.
D) inspiram o sentimento de justiça por meio da empatia.
E) recorrem ao absurdo como forma de traduzir a realidade.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Literário
- Análise Narrativa (Foco, Tom, Estilo)
- Teoria Social/Política (Conceito de Estado de Exceção)
Tema/Objetivo Geral: Analisar como recursos estilísticos podem ser usados para representar e criticar uma realidade de violência institucional e suspensão de direitos.
Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige que o leitor conecte um estilo de escrita (a descrição fria e repetitiva da violência) a um conceito político-filosófico complexo (“estado de exceção”). Não é uma simples questão de compreensão, mas de interpretação simbólica. A alternativa (D) é uma distratora forte, o que exige um discernimento apurado.
Gabarito: B) trazem à tona atitudes de um estado de exceção.
- Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a narrativa descreve um microcosmo onde as leis e os direitos humanos foram suspensos. A violência é arbitrária, a justiça é inexistente e o poder é absoluto, características que definem um estado de exceção.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pergunta: “Qual é a grande denúncia que este texto faz, e como o jeito que ele é escrito ajuda a fazer essa denúncia?”.
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a sociedade como um tabuleiro de xadrez com regras claras. O que o texto descreve não é um jogo de xadrez; é uma cena em que uma mão gigante entra no tabuleiro, esmaga as peças aleatoriamente, quebra o tabuleiro e as peças restantes continuam se movendo como se isso fosse normal. O verdadeiro desafio aqui é entender que a história não é sobre uma peça que sofreu, mas sobre a mão que ignora todas as regras do jogo.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar a Violência: Vamos catalogar os atos de violência e, mais importante, sua natureza (ela é justa, punitiva ou aleatória?).
- Analisar a Vítima: Vamos observar o estado final do prisioneiro. O que a violência fez com sua humanidade?
- Identificar o Vilão: Com base nas provas, vamos definir quem é o verdadeiro culpado: um guarda, um inimigo ou o próprio “sistema”?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é uma Ficha Criminal do Sistema, que nos ajudará a entender o modus operandi do verdadeiro antagonista da história.
🕵️♂️ FICHA CRIMINAL: O “SISTEMA”
| Método de Controle | Evidência no Texto (O Modus Operandi) | Análise (O Efeito no Detento) |
| 1. Violência Física Sistemática | “Apanhou dezenas de vezes”, “crânio esmagado”, “maxilar deslocado”, “braços e pernas quebrados”. | Normalização da Brutalidade: O corpo é tratado como um objeto a ser quebrado e moído. A violência não é um evento, é a rotina. |
| 2. Violência Arbitrária e Aleatória | “Nem todas as vezes ele soube por que apanhou, muito menos da última”, “Apanha, às vezes com motivo, às vezes sem”. | Destruição da Lógica e da Justiça: Não há causa e efeito. As regras não existem ou não importam. Isso gera um terror constante, pois a punição é imprevisível. |
| 3. Anulação Psicológica | “Já não questiona mais. Obedece. Cumpre as ordens. Baixa a cabeça e se retira”. | Aniquilação do Indivíduo: O resultado final. O sistema não quer punir um crime, quer apagar a humanidade, a vontade, a capacidade de questionar. Ele produz submissão absoluta. |
A ficha criminal mostra que o sistema não opera sob a lei, mas sob o terror. Este é o cenário de um estado de exceção: um espaço onde as garantias legais foram suspensas e a vida humana perdeu seu valor.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A força do texto não está no que ele conta, mas em como ele conta. A linguagem é fria, quase um relatório médico: “teve o crânio esmagado, o maxilar deslocado”. Não há adjetivos, não há sentimentalismo. O autor não diz “o pobre coitado sofreu”. Ele lista as torturas como quem lista compras.
Essa frieza é a chave da denúncia. Ela espelha a frieza do próprio sistema, que trata a destruição de um corpo como um procedimento burocrático. A frase mais terrível talvez seja: “Nem todas as vezes ele soube por que apanhou”. Aqui, a narrativa expõe a ausência total de lei. Não é punição, é exercício de poder puro e arbitrário.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (D), sobre inspirar empatia e sentimento de justiça. É natural que, ao lermos um relato de sofrimento, sintamos empatia. Mas a questão é sobre a estratégia do texto. O tom seco e distanciado da narrativa sugere que o objetivo principal não é fazer o leitor chorar, mas sim fazê-lo entender a mecânica de um sistema desumano. É uma denúncia clínica, quase cirúrgica, não um apelo sentimental.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que a força expressiva do texto vem da descrição objetiva de uma realidade onde a lei foi abolida e a violência se tornou a única regra. A narrativa expõe um sistema, não apenas um indivíduo sofredor.
- Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, focar nesse aspecto sistêmico e na quebra da ordem legal, que é a definição de um estado de exceção.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
A) buscam perpetuar visões do senso comum.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente equivocada.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto desafia o senso comum de que prisões são lugares de reabilitação ou justiça, mostrando-as como centros de tortura.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) trazem à tona atitudes de um estado de exceção.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. A violência aleatória, a falta de justificativa, a submissão total e a ausência de direitos são todas “atitudes” que caracterizam um espaço onde a lei foi suspensa – um estado de exceção.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
C) promovem a interlocução com grupos silenciados.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa que dar visibilidade é o mesmo que dialogar.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto expõe a realidade de um grupo silenciado, mas não “promove a interlocução” (o diálogo). O personagem, aliás, é a imagem do silêncio forçado (“Já não questiona mais”). O foco é a denúncia, não o diálogo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) inspiram o sentimento de justiça por meio da empatia.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Efeito no Leitor com Estratégia Narrativa. Embora o texto possa gerar empatia, seu estilo frio sugere que a intenção primária é a denúncia de um sistema, e não a manipulação dos sentimentos do leitor.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) recorrem ao absurdo como forma de traduzir a realidade.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor confunde o horror da situação com o estilo literário do absurdo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Conceitual. O texto é brutalmente realista, quase documental. O horror não vem do absurdo, mas da plausibilidade aterrorizante da cena.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois a narrativa utiliza um realismo cortante para expor o sistema prisional não como uma instituição da lei, mas como um espaço fora dela, um estado de exceção permanente.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O texto não descreve um prisioneiro sendo punido; ele disseca um corpo sendo sistematicamente desmontado por uma máquina sem rosto.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A representação ficcional do texto se conecta diretamente ao conceito de “Biopoder” do filósofo Michel Foucault. Para Foucault, o poder moderno não se exerce apenas através da lei, mas através do controle sobre os corpos e a vida das populações. A prisão, em sua análise, é o laboratório máximo desse biopoder. O texto de A. P. Maia é uma ilustração literária perfeita: o sistema exerce seu poder não apenas encarcerando, mas “moendo” o corpo do detento, controlando sua saúde, sua dor e, finalmente, sua própria sobrevivência, transformando-o em um “corpo dócil” (“Obedece. Cumpre as ordens”).