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Questão 15, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

TEXTO I

Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no teclado. Começou a tocar alguma coisa própria, uma inspiração real e pronta, uma polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. […] Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.

ASSIS, M. Um homem célebre. Disponível em: www.biblio.com.br. Acesso em: 2 jun. 2019.

TEXTO II

Um homem célebre expõe o suplício do músico popular que busca atingir a sublimidade da obra-prima clássica, e com ela a galeria dos imortais, mas que é traído por uma disposição interior incontrolável que o empurra implacavelmente na direção oposta. Pestana, célebre nos saraus, salões, bailes e ruas do RIo de Janeiro por suas composições irresistivelmente dançantes, esconde-se dos rumores à sua volta num quarto povoado de ícones da grande música europeia, mergulha nas sonatas do classicismo vienense, prepara-se para o supremo salto criativo e, quando dá por si, é o autor de mais uma inelutável e saltitante polca.

WISNIK, J. M. Machado maxixe: o caso Pestana. Teresa: revista de literatura brasileira, 2004 (adaptado).

O conto de Machado de Assis faz uma referência velada ao maxixe, gênero musical inicialmente associado à escravidão e à mestiçagem. No texto II, o conflito do personagem em compor obras do gênero é representativo da

A) pouca complexidade musical das composições ajustadas ao gosto do grande público.

B) prevalência de referências musicais africanas no imaginário da população brasileira.

C) incipinte atribuição de prestígio social a músicas instrumentais feitas para a dança.

D) tensa relação entre o erudito e o popular na constituição da música brasileira.

E) importância atribuída à música clássica na sociedade brasileira do século XIX.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Literário (Machado de Assis) e Crítico (Wisnik)
  • Literatura Brasileira (Realismo/Contexto do Século XIX)
  • História da Música Brasileira (Erudito vs. Popular)

Tema/Objetivo Geral: Analisar como um conflito individual de um personagem literário pode representar uma tensão cultural mais ampla da sociedade.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige a capacidade de conectar duas fontes de informação (Texto I e II) e de extrapolar o drama pessoal do personagem para um fenômeno sociocultural. A alternativa (E) é uma distratora forte, exigindo que o candidato perceba que o problema não é apenas a existência do erudito, mas a relação conflituosa entre ele e o popular.

Gabarito: D) tensa relação entre o erudito e o popular na constituição da música brasileira.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o “suplício” de Pestana é exatamente este: ele deseja desesperadamente pertencer ao universo erudito (europeu, “imortal”), mas sua genialidade inata e espontânea pertence ao popular (brasileiro, dançante), criando uma guerra interna que espelha o conflito cultural do Brasil.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é entender o simbolismo. O que a guerra civil criativa que acontece dentro da cabeça do músico Pestana nos diz sobre a guerra cultural que acontecia no Brasil daquela época?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que Pestana é um arquiteto genial. Ele estuda dia e noite para projetar uma catedral gótica, séria e imponente (a música erudita). Ele se senta na prancheta, mas, quando dá por si, suas mãos, por conta própria, desenharam os planos de um vibrante e irresistível salão de dança (a música popular). O verdadeiro desafio aqui é entender que a frustração de Pestana não é apenas pessoal; ela representa a frustração de um país inteiro que era ensinado a valorizar a “catedral” europeia, enquanto sua alma pulsava para construir o seu próprio “salão de dança”.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Investigar a Ambição: Vamos analisar o que Pestana quer criar (Texto II).
    2. Periciar o Talento: Vamos analisar o que ele consegue criar (Texto I).
    3. Diagnosticar o Conflito: Entenderemos por que seu talento é, para ele, uma “traição”, revelando a tensão central.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Tabela Comparativa de Identidades Musicais. Ela vai expor a dualidade que atormenta o nosso protagonista.

Característica O MUNDO ERUDITO (A AMBIÇÃO DE PESTANA) O MUNDO POPULAR (O DOM DE PESTANA)
O que é? A “sublimidade da obra-prima clássica”, Mozart, sonatas, “galeria dos imortais”. “Polca buliçosa”, “irresistivelmente dançante”, maxixe, música dos saraus e ruas.
Sentimento Associado “Suplício”, “vãos esforços”, “exasperação”, “tédio”. “Inspiração real e pronta”, “vida, graça, novidade”, “fonte perene”.
Valor Social (na visão de Pestana) Prestígio, imortalidade, seriedade, arte “superior”. Sucesso imediato, popularidade, entretenimento, arte “inferior”.
Origem Europeia, importada, o modelo a ser seguido. Brasileira, mestiça, espontânea, a “disposição interior incontrolável”.

A tabela torna o diagnóstico claro: Pestana odeia aquilo em que é genial e anseia por uma genialidade que não possui. Ele é um estrangeiro em seu próprio talento.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAção GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos executar nosso plano.

O Texto II, de Wisnik, nos entrega o diagnóstico do “suplício”: Pestana é “traído por uma disposição interior incontrolável que o empurra implacavelmente na direção oposta”. A direção que ele deseja é a “grande música europeia”. A direção oposta é a “inelutável e saltitante polca”.

O Texto I, de Machado, nos mostra a cena do crime acontecendo. Após a luta (“vãos esforços da véspera”), Pestana se rende. A música que nasce dele não é cerebral, é física: “a musa compunha e bailava a um tempo”. A criação é fácil, prazerosa, cheia de “vida, graça, novidade”. E é exatamente por isso que ele a despreza. Ele associa o esforço e o sofrimento à arte nobre, e a facilidade e a alegria à arte vulgar.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (E): “importância atribuída à música clássica na sociedade brasileira do século XIX”. É verdade que a música clássica era importante e prestigiosa. Mas essa alternativa descreve apenas um lado do conflito, o polo de atração. A questão é sobre o que o conflito de Pestana representa. O conflito não existe sem os dois lados. O problema não é que a música clássica era valorizada; o problema é que essa valorização criava uma relação tensa com a cultura popular que nascia e pulsava no país.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que Pestana é o palco de uma batalha cultural. Ele internalizou o preconceito da elite de sua época, que via a cultura europeia como superior e a cultura local (mestiça, dançante) como inferior. Seu drama pessoal é o sintoma de uma doença cultural nacional.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, conter termos que expressem dualidade, conflito, embate ou uma relação problemática entre os dois universos: o erudito e o popular.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) pouca complexidade musical das composições ajustadas ao gosto do grande público.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor assume que a crítica de Pestana à sua própria música é puramente técnica.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. O problema não é a “pouca complexidade”, mas o status social e cultural da música popular. É um conflito de valor, não de técnica.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) prevalência de referências musicais africanas no imaginário da população brasileira.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na origem do maxixe.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora a influência africana seja a raiz da música popular, o conto não discute essa prevalência, mas sim o conflito que essa música gera quando confrontada com o ideal erudito.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) incipiente atribuição de prestígio social a músicas instrumentais geitas para a dança.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na questão do prestígio.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Descrever a Causa, não o Conflito. O baixo prestígio é uma das causas da tensão, mas não a “tensa relação” em si, que é o tema central. É uma descrição parcial do problema.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) tensa relação entre o erudito e o popular na constituição da música brasileira.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Tensa relação” descreve o conflito. “Erudito e o popular” descreve os dois lados em guerra. “Constituição da música brasileira” aponta para o significado simbólico e nacional do drama de Pestana.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) importância atribuída à música clássica na sociedade brasileira do século XIX.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever a parte, não o todo). Descreve apenas a ambição de Pestana, o “imã” erudito, mas ignora o “imã” oposto (o popular) e a tensão que a interação entre eles gera.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois Machado de Assis, com sua genialidade, transformou o drama de um músico em uma alegoria da própria identidade brasileira, dividida entre a cabeça que admira a Europa e o corpo que dança ao som do Brasil.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A cabeça de Pestana queria ser Mozart, mas seu coração batia no ritmo do maxixe.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conflito de Pestana é uma manifestação artística do conceito de “Colonialidade do Poder/Saber”, desenvolvido pelo sociólogo Aníbal Quijano. A colonialidade não termina com a independência política; ela persiste na mente, na forma de uma hierarquia cultural onde o conhecimento, a estética e os valores do colonizador (Europa) são vistos como universalmente superiores, enquanto os saberes e as artes locais (indígenas, africanas, mestiças) são considerados inferiores ou folclóricos. Pestana é um personagem “colonizado” em sua própria mente: ele internalizou essa hierarquia e, por isso, vive o suplício de desprezar seu próprio gênio.

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