Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir todas as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
COLASANTI, M. Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
A progressão é garantida nos textos por determinados recursos linguísticos, e pela conexão entre esses recursos e as ideias que eles expressam. Na crônica, a continuidade textual é construída, predominantemente, por meio
A) do emprego de vocabulário rebuscado, possibilitando a elegância do raciocínio.
B) da repetição de estruturas, garantindo o paralelismo sintático e de ideias.
C) da apresentação de argumentos lógicos, constituindo blocos textuais independentes.
D) da ordenação de orações justapostas, dispondo as informações de modo paralelo.
E) da estruturação de frases ambíguas, construindo efeitos de sentido opostos.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Recursos de Coesão e Coerência Textual
- Paralelismo Sintático
- Análise da Estrutura de Gênero Textual (Crônica)
Tema/Objetivo Geral: Identificar o principal recurso linguístico utilizado para construir a progressão de ideias em um texto.
Nível da Questão: Médio. A questão exige um conhecimento técnico sobre mecanismos de coesão textual, como o paralelismo. Um leitor pode perceber a repetição, mas precisa saber nomear esse recurso e entender sua função (garantir a progressão das ideias) para escolher a alternativa correta, que usa termos gramaticais específicos.
Gabarito: Letra B. O texto avança por meio da repetição sistemática da mesma estrutura de frase (“E, porque…”, “logo se acostuma a…”), criando um paralelismo sintático que reforça a ideia de uma conformidade que se acumula.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “Na crônica, a continuidade textual é construída, predominantemente, por meio…”
- O que está sendo pedido? A questão quer saber qual é a principal “ferramenta” de escrita que a autora usou para fazer o texto fluir e para conectar uma ideia na outra, criando uma sequência lógica.
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é analisar a “costura” do texto, ou seja, como as frases são ligadas umas às outras, e identificar o padrão que se repete para dar ritmo e sentido à progressão do argumento.
- Pergunta de Atenção: Você percebeu como a autora cria uma espécie de “efeito dominó”? Uma pequena conformidade leva a outra, e a outra, e a outra… Como ela faz isso com as palavras?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Conceito | Explicação Simples | Exemplo no Cotidiano |
| Coesão Textual | É a “cola” do texto. São os elementos linguísticos (pronomes, conjunções, repetições) que ligam as frases e os parágrafos, garantindo que o texto não seja apenas um amontoado de frases soltas. | Em “Maria foi ao mercado. Lá, ela comprou frutas”, a palavra “Lá” (retoma “mercado”) e o pronome “ela” (retoma “Maria”) são elementos de coesão. |
| Paralelismo Sintático | É a repetição da mesma estrutura de frase (mesma organização de sujeito, verbo, complemento) em sequência. Isso cria ritmo e clareza, e serve para enfatizar ideias que estão no mesmo nível de importância. | A famosa frase de Júlio César: “Vim, vi, venci” (“Veni, vidi, vici”). A estrutura é a mesma (verbo no passado), o que dá força e ritmo à declaração. |
| Progressão Textual | É a forma como as informações são apresentadas e desenvolvidas ao longo do texto, garantindo que o leitor consiga acompanhar o raciocínio. Um texto com boa progressão vai do mais simples ao mais complexo, ou de uma causa para uma consequência. | Em uma receita de bolo, a progressão é clara: primeiro os ingredientes, depois o modo de preparo passo a passo. A ordem é fundamental para o sucesso. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: O texto da Marina Colasanti tem um fluxo, um ritmo quase hipnótico que nos leva a concordar com a ideia dela. A questão nos pergunta: “Qual é o truque de escrita que ela usa para criar esse fluxo? Como ela faz as ideias se encaixarem tão bem, uma após a outra?”.
- Estratégia Geral: Vamos “desmontar” o parágrafo principal da crônica, frase por frase, e observar qual padrão se repete. Ao identificar esse padrão, teremos encontrado a principal ferramenta de construção do texto.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Passo a Passo Detalhado:
- Estrutura 1: “A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista…” (A gente se acostuma a [verbo no infinitivo] e a [verbo no infinitivo]).
- Estrutura 2 (Causa e Consequência): O texto engata uma sequência baseada em “porque… logo…”.
- “E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.”
- “E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir todas as cortinas.”
- “E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.”
- Análise do Padrão: A estrutura “E, porque [verbo], logo se acostuma a [verbo]” é repetida três vezes seguidas. Essa repetição de estrutura é a definição exata de paralelismo sintático.
- Verificação Intermediária: A função dessa repetição não é só estética. Ela cria uma progressão lógica e argumentativa: cada costume leva a outro, num ciclo vicioso de conformidade. A forma do texto (a repetição) espelha o conteúdo (o hábito que se acumula).
- Possível armadilha: A alternativa D fala em “ordenação de orações justapostas”. Embora haja orações lado a lado, o principal mecanismo de ligação não é a justaposição (ligação sem conectivo, só por vírgula), mas sim o uso da conjunção “E” e da estrutura “porque… logo…”, que estabelece uma relação de causa e consequência. Além disso, a ferramenta mais evidente e dominante é o paralelismo, que é mais específico e preciso para descrever o que acontece no texto.
- Fechamento e expectativa: O raciocínio nos leva a procurar a alternativa que menciona a repetição de estruturas como o principal recurso de construção do texto.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- Listagem das Alternativas:
a) Emprego de vocabulário rebuscado.
b) Repetição de estruturas, garantindo o paralelismo sintático e de ideias.
c) Apresentação de argumentos lógicos em blocos independentes.
d) Ordenação de orações justapostas.
e) Estruturação de frases ambíguas.
- Justificativa Individual:
- 🔴 A) Incorreta. O vocabulário é extremamente simples e coloquial (“A gente se acostuma”). Não há nada de rebuscado.
- 🟢 B) Correta. O texto é construído sobre a “repetição de estruturas” (“E, porque…, logo se acostuma…”), o que cria um “paralelismo sintático” perfeito e reforça a progressão da “ideia” de conformidade.
- 🔴 C) Incorreta. Os blocos textuais não são independentes; pelo contrário, são totalmente dependentes. Cada frase é a causa da seguinte, criando uma cadeia de raciocínio ininterrupta.
- 🔴 D) Incorreta. Como explicado na armadilha, o recurso dominante não é a justaposição, mas a repetição de uma estrutura sintática complexa que envolve conjunções e uma relação de causa e efeito.
- 🔴 E) Incorreta. As frases são diretas e claras, sem nenhuma ambiguidade. O efeito de sentido é único e muito bem definido.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: A autora constrói a progressão de sua crônica por meio do uso deliberado e repetido de uma mesma estrutura frasal (paralelismo sintático). Esse recurso não apenas dá ritmo ao texto, mas também reforça a ideia central de como um pequeno hábito de conformidade leva a outro, em um ciclo vicioso.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a Letra B.
- Resumo Final para Revisão 🔍: O paralelismo sintático é uma ferramenta poderosa para criar ritmo, clareza e ênfase. Quando você vir a mesma “fórmula” de frase se repetindo em um texto, desconfie que o autor está usando esse recurso para reforçar sua ideia principal.