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Questão 98, caderno azul do ENEM 2022 D2

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um produto de terapia gênica no país, indicado para o tratamento da distrofia hereditária da retina. O procedimento é recomendado para crianças acima de 12 meses e adultos com perda de visão causada pela mutação do gene humano RPE65. O produto, elaborado por engenharia genética, é composto por um vírus, no qual foi inserida uma cópia do gene normal humano RPE65 para corrigir o funcionamento das células da retina.  

ANVISA. Disponível em: www.gov.br/anvisa. Acesso em: 4 dez. 2021 (adaptado). 

O sucesso dessa terapia advém do fato de que o produto favorecerá a 

A) correção do código genético para a tradução da proteína. 

B) alteração do RNA ribossômico ligado à síntese da proteína. 

C) produção de mutações benéficas para a correção do problema. 

D) liberação imediata da proteína normal na região ocular humana. 

E) expressão do gene responsável pela produção da enzima normal.

 Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Biologia Celular e Molecular (Dogma Central da Biologia, Síntese Proteica e Biotecnologia).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender o mecanismo molecular da Terapia Gênica: a restauração da função celular através da expressão de um gene exógeno (inserido).

Nível da Questão: Fácil/Médio.

  • (Fácil/médio porque, embora o conceito de terapia gênica pareça futurista, a solução exige apenas o entendimento do conceito mais básico da genética: o Dogma Central. Porém, as alternativas usam termos técnicos como “código genético” e “RNA ribossômico” para confundir quem não tem as definições precisas).

Gabarito: Alternativa (E).

  • A terapia fornece a cópia correta do gene para que a célula do paciente possa transcrevê-lo e traduzi-lo (expressão gênica), voltando a produzir a enzima funcional necessária para a visão.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

O texto descreve um tratamento revolucionário para a cegueira causada por um defeito genético (Distrofia Hereditária da Retina). O “remédio” aprovado pela Anvisa não é uma pílula química, mas um vírus modificado que entrega uma cópia saudável do gene RPE65 para as células do olho.

Simplificando, imagine que…
A célula da retina é uma fábrica de peças automotivas. O gene RPE65 é o projeto (a planta baixa) de uma peça vital. Na pessoa doente, esse projeto foi rasgado ou tem um erro de impressão (mutação). A fábrica para de produzir a peça e o carro (a visão) não anda. O tratamento consiste em enviar um correio especial (o vírus) com uma cópia nova e perfeita desse projeto para dentro do escritório da fábrica. A pergunta é: o que a fábrica precisa fazer com esse novo projeto para que o carro volte a andar?

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Mapear o “Dogma Central da Biologia” (o fluxo de informação dentro de qualquer célula viva).
  • Entender a função exata do vetor viral (o entregador).
  • Conectar a chegada do novo gene com a produção física da enzima que cura a doença.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para dominar essa questão, precisamos abrir a caixa preta da célula. Vamos usar um Dossiê Técnico Detalhado seguido de um Diálogo de Aprofundamento para garantir que nenhum conceito fique solto.

DOSSIÊ: A Maquinaria da Vida (O Dogma Central)

Toda célula opera seguindo um fluxo de informação sagrado e unidirecional. Se você entender isso, você resolve 90% das questões de genética.

  1. O Arquivo (DNA/Gene): O DNA é o chefe. Ele fica trancado no cofre (núcleo). Ele não põe a mão na massa. Ele apenas guarda a informação. Um Gene é um pedaço desse DNA que contém a receita de uma proteína específica.
  2. O Mensageiro (mRNA): Como o DNA não sai do núcleo, a célula faz uma cópia descartável da receita. Esse processo chama-se Transcrição. O RNA mensageiro leva a informação do núcleo para o citoplasma.
  3. A Fábrica (Ribossomo): No citoplasma, o ribossomo lê o RNA mensageiro e monta a proteína aminoácido por aminoácido. Esse processo chama-se Tradução.
  4. O Produto (Proteína/Enzima): É a ferramenta final que realiza a função (neste caso, a visão).

DIÁLOGO MENTOR & ALUNO: Desconstruindo a Terapia Gênica

Mentor: Vamos simular o tratamento. O paciente tem o gene RPE65 mutado. O que isso significa na prática?
Aluno: Significa que a receita está errada.
Mentor: Exato. E se a receita está errada, o que acontece com a proteína?
Aluno: Ou ela não é feita, ou sai defeituosa e não funciona.
Mentor: Perfeito. Agora, injetamos o vírus com o gene correto. O vírus entra na célula e libera o DNA saudável no núcleo. O problema está resolvido?
Aluno: Acho que sim, agora a célula tem o gene certo.
Mentor: Cuidado. Ter o gene é como ter um livro de receitas na estante. Se você não abrir o livro e cozinhar, você continua com fome. O DNA parado no núcleo é inútil. O que a célula precisa fazer ativamente com esse DNA novo?
Aluno: Ela precisa ler o DNA… fazer aquela cópia de RNA?
Mentor: Isso! Ela precisa Transcrever o gene novo em RNA mensageiro e depois Traduzir em proteína. O conjunto desses processos (Transcrição + Tradução) tem um nome técnico. Quando um gene “fala” e vira proteína, dizemos que ocorreu a…
Aluno: Expressão Gênica?
Mentor: Exatamente. O sucesso da terapia não é a “infecção” pelo vírus, nem a “presença” do DNA. O sucesso é a Expressão desse gene. Sem expressão, o gene é um arquivo morto.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora que temos a teoria sólida, vamos dissecar o texto da questão e aplicar a lógica biológica passo a passo.

Análise Sequencial do Mecanismo de Cura:

  1. O Diagnóstico (O Estado Inicial):
    O texto diz: “perda de visão causada pela mutação do gene”.
    Tradução: O DNA original do paciente é um código quebrado. A célula tenta lê-lo, mas produz lixo molecular ou nada. A função visual está desligada.
  2. A Intervenção (O Vetor Viral):
    O texto diz: “vírus, no qual foi inserida uma cópia do gene normal”.
    Tradução: O vírus age como um “Cavalo de Troia” do bem. Ele engana a célula para entrar, mas em vez de causar doença, ele entrega o DNA RPE65 funcional no núcleo da célula da retina.
  3. O Processo Crítico (O Elo Perdido):
    Aqui está o pulo do gato. O DNA novo está lá. Para “corrigir o funcionamento das células”, a maquinaria celular (enzimas como RNA Polimerase e estruturas como Ribossomos) precisa reconhecer esse novo DNA como “amigo”.
    • A célula começa a fazer cópias de RNA mensageiro baseadas nesse novo gene (Transcrição).
    • Os ribossomos pegam esse RNA e montam a proteína RPE65 correta (Tradução).
    • A proteína RPE65 correta começa a operar no ciclo visual, restaurando a visão.

Síntese do Raciocínio:
A terapia funciona porque fornece a informação correta (gene) que permite à célula retomar a produção autônoma da ferramenta (enzima). Esse retorno à atividade produtiva baseada no DNA chama-se Expressão Gênica.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
O Erro do “Código Genético” vs. “Material Genético”.
Muitos alunos marcam a alternativa A (“correção do código genético”). Isso é um erro técnico grave.

  • Código Genético é a tabela universal de tradução (Ex: O códon AUG sempre significa Metionina, seja em você, numa bananeira ou numa bactéria). O código é uma “língua”. A língua não está errada no paciente.
  • Material Genético (Genoma/Gene): É a frase escrita nessa língua. A frase (sequência de bases A, T, C, G) está errada no paciente.
    A terapia altera o conteúdo genético (adiciona um gene), mas não muda as regras do código genético. Nunca confunda as duas coisas.

A Bússola (Síntese Final):

  • O que temos: Um gene novo dentro da célula.
  • O que precisamos: Que esse gene funcione (seja lido e traduzido).
  • Expectativa: Procurar nas alternativas o termo que significa “gene funcionando” ou “gene produzindo proteína”. O termo é Expressão.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) correção do código genético para a tradução da proteína.
Diagnóstico do Erro: Erro de Definição.
Como explicado na “Armadilha Clássica”, o código genético é a “lei universal” de leitura do DNA. Ele não está defeituoso. O defeito é na sequência do gene. Além disso, a terapia gênica clássica (de adição) não “corrige” o gene mutado original; ela apenas adiciona uma cópia extra correta ao lado dele.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) alteração do RNA ribossômico ligado à síntese da proteína.
Diagnóstico do Erro: Foco no Componente Errado.
O RNA ribossômico (rRNA) é a matéria-prima estrutural dos ribossomos (a fábrica). A doença não é na fábrica, é na planta (gene). Mudar o rRNA seria catastrófico para a célula, pois afetaria a produção de todas as proteínas do corpo, não apenas a RPE65.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) produção de mutações benéficas para a correção do problema.
Diagnóstico do Erro: Contradição Conceitual.
O termo “mutação” geralmente implica uma alteração aleatória ou um erro. A engenharia genética trabalha com precisão: inserção de uma sequência conhecida e estável (o gene normal). Não se espera que a célula sofra novas mutações para se curar, mas sim que ela use a informação correta já fornecida.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) liberação imediata da proteína normal na região ocular humana.
Diagnóstico do Erro: Confusão de Tratamento (Agudo vs. Crônico).
Isso descreveria uma injeção de enzima (terapia de reposição enzimática), que teria efeito temporário. Na terapia gênica, injeta-se o DNA. A proteína não é liberada “imediatamente” pelo produto; ela precisa ser fabricada pela célula do paciente num processo biológico que leva tempo (transcrição e tradução).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) expressão do gene responsável pela produção da enzima normal.
Análise de Correspondência:
Perfeito. “Expressão do gene” é o termo biológico exato que descreve o fluxo: Gene Inserido →→RNA →→Proteína Funcional. É essa expressão contínua que garante a correção do fenótipo (cegueira) a longo prazo.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.


PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Reafirmação:
O sucesso da terapia gênica reside na capacidade da célula hospedeira de realizar a expressão gênica do DNA exógeno, convertendo a informação genética saudável na enzima funcional que estava em falta.

Resumo-flash:
“Não adianta ter o livro (gene) na estante; a cura vem quando a célula lê a receita (expressão).”

Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
As vacinas de RNA mensageiro (como as da Pfizer e Moderna para COVID-19) operam num princípio similar, mas pulam a etapa nuclear. Elas entregam o mRNA pronto no citoplasma. A célula apenas faz a Tradução (expressão da proteína Spike). Já a terapia gênica entrega DNA no núcleo, exigindo Transcrição + Tradução. Ambas são vitórias da biotecnologia baseadas na manipulação da expressão gênica.

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