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Questão 89 caderno azul ENEM 2009 1° Dia

A mais profunda objeção que se faz à ideia da criação de uma cidade, como Brasília, é que o seu desenvolvimento não poderá jamais ser natural. É uma objeção muito séria, pois provém de uma concepção de vida fundamental: a de que a atividade social e cultural não pode ser uma construção. Esquecem-se, porém, aqueles que fazem tal crítica, que o Brasil, como praticamente toda a América, é criação do homem ocidental.

PEDROSA, M. Utopia: obra de arte. Vis – Revista do Programa de Pós-graduação em Arte (UnB),
Vol. 5, n. 1, 2006 (adaptado).

As ideias apontadas no texto estão em oposição, porque

A) a cultura dos povos é reduzida a exemplos esquemáticos que não encontram respaldo na história do Brasil ou da América.

B) as cidades, na primeira afirmação, têm um papel mais fraco na vida social, enquanto a América é mostrada como um exemplo a ser evitado. 

C) a objeção inicial, de que as cidades não podem ser inventadas, é negada logo em seguida pelo exemplo utópico da colonização da América.

D) a concepção fundamental da primeira afirmação defende a construção de cidades e a segunda mostra, historicamente, que essa estratégia acarretou sérios problemas.

E) a primeira entende que as cidades devem ser organismos vivos, que nascem de forma espontânea, e a segunda mostra que há exemplos históricos que demonstram o contrário.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Filosófico/Crítico
  • História do Brasil (Colonização e Urbanismo)
  • Análise de Argumentação

Tema/Objetivo Geral: Identificar e analisar a oposição entre duas visões sobre a formação das cidades: a “naturalista/organicista” e a “construtivista/planejada”.

Nível da Questão
Difícil – A questão é considerada difícil porque se baseia em um texto com alto grau de abstração. O aluno precisa não apenas entender as palavras, mas também decodificar os conceitos filosóficos por trás delas (“concepção de vida fundamental”, “construção”, “criação do homem ocidental”). As alternativas são sutis e exigem uma compreensão precisa da lógica argumentativa do autor.

Gabarito
E) a primeira entende que as cidades devem ser organismos vivos, que nascem de forma espontânea, e a segunda mostra que há exemplos históricos que demonstram o contrário. – Esta alternativa está correta pois capta a essência do conflito: de um lado, a visão de que cidades devem crescer “naturalmente” e, do outro, o argumento do autor de que a própria América é um exemplo histórico de “criação” planejada.


🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

1.1 Transcrição Essencial
“As ideias apontadas no texto estão em oposição, porque […]”

1.2 O que está sendo pedido?
A questão pede para que a gente explique qual é o ponto exato de conflito entre as duas ideias apresentadas no texto: a crítica à construção de Brasília e a defesa do autor.

1.3 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é dissecar o argumento do autor, identificando claramente as duas visões opostas sobre a origem e o desenvolvimento das cidades, para então encontrar a alternativa que melhor descreve essa oposição.

1.4 Pergunta de Atenção
Você já ouviu alguém dizer “essa cidade parece que não tem alma, foi toda planejada”? Essa é a essência da primeira ideia. O autor do texto, Mário Pedrosa, vai discordar e usar um exemplo gigante para provar seu ponto. Qual é esse exemplo?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

2.1 Definições e explicação de termos
Para entender o debate, precisamos conhecer as duas visões filosóficas sobre as cidades:

  • Visão Organicista (ou Naturalista):
    • Ideia Central: Enxerga a cidade como um organismo vivo. Ela deve “nascer” de forma espontânea, a partir de um pequeno núcleo, e “crescer” lentamente ao longo do tempo, de forma orgânica e natural, moldada pelas necessidades e interações de seus habitantes. Cidades como Roma ou Londres são exemplos clássicos.
    • No texto: Representada pela crítica a Brasília. A frase-chave é “o seu desenvolvimento não poderá jamais ser natural“. A atividade social “não pode ser uma construção“.
  • Visão Construtivista (ou Racionalista/Planejada):
    • Ideia Central: Enxerga a cidade como um artefato, uma obra de arte ou uma máquina que pode e deve ser projetada, planejada e construída pela razão humana para atingir determinados objetivos (sociais, políticos, estéticos). Brasília é o exemplo máximo dessa visão no Brasil.
    • No texto: Representada pelo argumento do autor. A frase-chave é “o Brasil, como praticamente toda a América, é criação do homem ocidental”. A palavra “criação” aqui é sinônimo de “construção”, de algo feito intencionalmente.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

3.1 Contextualização Simplificada
Vamos traduzir o debate para uma linguagem mais simples:

  • Crítico de Brasília (Ideia 1): “Não se pode simplesmente desenhar uma cidade no papel e construí-la no meio do nada. Uma cidade de verdade tem que nascer e crescer como uma árvore, de forma natural e espontânea. Brasília é artificial, é uma planta de plástico.”
  • Mário Pedrosa (Autor do texto / Ideia 2): “Espera aí. Quem diz isso se esquece de uma coisinha: o nosso continente inteiro, a América, não nasceu ‘naturalmente’. Ele foi uma ‘construção’, uma ‘criação’ planejada pelos europeus, que chegaram aqui e fundaram cidades onde não havia nada ou sobre as ruínas de outras. Se a América inteira é uma ‘criação’, por que uma cidade como Brasília não poderia ser?”

3.2 Estratégia Geral
Nossa estratégia será identificar a tese e a antítese no texto. A tese é a crítica (cidades devem ser naturais). A antítese é a defesa de Pedrosa (a América é um exemplo de criação). A alternativa correta vai descrever esse embate de ideias.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Análise

4.1 Passo a Passo Detalhado

  • Identificação da Ideia 1 (A Crítica):
    • Objeção: Uma cidade criada (como Brasília) não tem desenvolvimento natural.
    • Princípio por trás: A vida social e cultural “não pode ser uma construção“.
    • Conceito implícito: Visão Organicista. Cidades devem crescer espontaneamente.
  • Identificação da Ideia 2 (A Defesa do Autor):
    • Contra-argumento: Quem critica esquece que “o Brasil, como praticamente toda a América, é criação do homem ocidental”.
    • Princípio por trás: A história nos mostra exemplos de sociedades inteiras que foram “construídas”.
    • Conceito implícito: Visão Construtivista. A história prova que a criação deliberada é possível.
  • Análise da Oposição: O autor pega a palavra-chave da crítica (“construção”) e a joga de volta, mostrando que a própria história do continente onde vivemos é um exemplo de “construção”. Ele usa um exemplo histórico gigantesco para refutar a ideia de que a “naturalidade” é a única forma legítima de desenvolvimento social.

4.2 Verificação Intermediária
A oposição é clara: de um lado, uma teoria sobre como as coisas deveriam ser (desenvolvimento natural); do outro, um fato sobre como as coisas foram (a América como uma criação).

4.3 Possível armadilha
A armadilha mais sutil é a alternativa C. Ela parece correta, mas usa a palavra “utópico” de forma que pode confundir. Embora Brasília e a colonização possam ser vistas como projetos utópicos, o texto não usa essa palavra para qualificar a colonização, mas sim para apresentar um exemplo histórico e factual que se contrapõe à ideia inicial. A alternativa E é mais precisa ao descrever as duas visões em seus próprios termos (“organismos vivos” vs. “exemplos históricos”).

4.4 Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que consiga definir as duas visões opostas: a que defende o crescimento espontâneo e a que aponta para exemplos históricos de criação planejada.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

5.1 Listagem das Alternativas
A) a cultura dos povos é reduzida a exemplos esquemáticos.
B) as cidades têm um papel mais fraco, enquanto a América é um exemplo a ser evitado.
C) a objeção de que cidades não podem ser inventadas é negada pelo exemplo utópico da colonização.
D) a primeira afirmação defende a construção de cidades e a segunda mostra problemas.
E) a primeira entende que as cidades devem ser organismos vivos/espontâneos, e a segunda mostra exemplos históricos contrários.

5.2 Justificativa Individual

  • 🔴 A) a cultura dos povos é reduzida a exemplos esquemáticos que não encontram respaldo na história do Brasil ou da América. Incorreta. O texto faz exatamente o contrário: ele usa a história da América como respaldo para seu argumento.
  • 🔴 B) as cidades, na primeira afirmação, têm um papel mais fraco na vida social, enquanto a América é mostrada como um exemplo a ser evitado. Incorreta. A primeira afirmação dá um papel fortíssimo às cidades, considerando-as quase como seres vivos. E a América não é mostrada como um exemplo a ser evitado, mas como uma prova de que a “construção” é possível.
  • 🔴 C) a objeção inicial, de que as cidades não podem ser inventadas, é negada logo em seguida pelo exemplo utópico da colonização da América. Incorreta. É a alternativa mais próxima, mas menos precisa que a E. O autor apresenta a colonização como um fato histórico, não necessariamente como um “exemplo utópico”. A palavra “inventadas” também é uma simplificação.
  • 🔴 D) a concepção fundamental da primeira afirmação defende a construção de cidades e a segunda mostra, historicamente, que essa estratégia acarretou sérios problemas. Incorreta. A lógica está completamente invertida. A primeira afirmação é contra a construção, e a segunda a usa como um contra-argumento positivo, sem mencionar “sérios problemas”.
  • 🟢 E) a primeira entende que as cidades devem ser organismos vivos, que nascem de forma espontânea, e a segunda mostra que há exemplos históricos que demonstram o contrário. Correta. Esta alternativa traduz perfeitamente os conceitos filosóficos em jogo. “Organismos vivos, que nascem de forma espontânea” é uma excelente paráfrase para a ideia de “desenvolvimento natural”. E a segunda parte aponta corretamente para o uso de “exemplos históricos” (a colonização da América) para mostrar que a “construção” (o contrário da espontaneidade) também é uma realidade.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

6.1 Resumo do Raciocínio
O raciocínio consistiu em identificar as duas teses opostas no texto: a visão organicista, que critica cidades planejadas por não terem um desenvolvimento “natural”, e a visão construtivista do autor, que refuta essa crítica usando a própria história da colonização da América como um exemplo de “criação” humana em larga escala.

6.2 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E) a primeira entende que as cidades devem ser organismos vivos, que nascem de forma espontânea, e a segunda mostra que há exemplos históricos que demonstram o contrário.

6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Em textos argumentativos, procure sempre o embate de ideias. O autor geralmente apresenta a ideia que ele quer criticar primeiro, para depois apresentar o seu próprio contra-argumento. Identificar essa estrutura de “tese vs. antítese” é a chave para a interpretação.

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