Ata Geral da Conferência de Bruxelas, 2 de julho de 1890
As potências declaram que os meios mais eficazes para combater a escravatura no interior da África são os seguintes:
1º — A organização progressiva dos serviços administrativos judiciais, religiosos e militares nos territórios da África, colocados sob a soberania ou sob protetorado das nações civilizadas;
2º — O estabelecimento gradual no interior, pelas potências de quem dependem os territórios, de estações fortemente ocupadas, de maneira que a sua ação protetora ou repressiva possa se fazer sentir com eficácia nos territórios assolados pela caçada ao homem.
Disponível em: www.fd.unl.pt. Acesso em: 21 jan. 2015.
No contexto da colonização da África do século XIX, o recurso ao argumento civilizatório apresentado no texto buscava legitimar o(a)
A) estabelecimento de governos para a constituição de Estados nacionais.
B) submissão de espaços para alterar as relações de produção.
C) delimitação de jurisdições para bloquear a expansão capitalista
D) defesa do continente para encerrar as contínuas guerras civis.
E) reconhecimento da alteridade para preservar as práticas tribais.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
História Geral (Século XIX), Imperialismo/Neocolonialismo, Partilha da África (Conferência de Berlim/Bruxelas), Ideologias do Século XIX (Darwinismo Social/Missão Civilizadora).
Tema/Objetivo Geral:
A justificativa ideológica para a exploração econômica. O objetivo é compreender como as potências europeias usaram o discurso humanitário (“combater a escravidão”) como pretexto (“legitimação”) para a ocupação militar e a reorganização econômica da África.
Nível da Questão:
Médio.
Por que? O texto de apoio é uma fonte primária que usa uma linguagem positiva (“proteção”, “combate à escravatura”). O aluno precisa ter conhecimento histórico crítico para não cair na armadilha de acreditar no texto, mas sim interpretar a intenção oculta por trás dele (a dominação econômica).
Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta porque a ocupação militar e administrativa (“submissão de espaços”) era necessária para implantar o capitalismo na África, transformando a economia local de subsistência em uma economia de exploração voltada para a metrópole (“alterar as relações de produção”).
🏗 Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️
Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “O texto diz que os europeus foram para a África para acabar com a escravidão. Mas, na prática, esse discurso serviu de desculpa para eles fazerem o quê?”
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um agiota que bate na sua porta e diz: “Vim aqui te proteger dos ladrões. Para isso, vou instalar câmeras, colocar meus seguranças na sua sala e controlar sua conta bancária.”
O discurso é “proteção” (civilização). A realidade é controle total para garantir o pagamento (exploração).
O “argumento civilizatório” foi o “Cavalo de Troia” que permitiu a entrada dos exércitos europeus.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Ler o documento oficial: Ele propõe criar governos, exércitos e fortes militares no interior da África.
- Identificar a contradição: Eles dizem que é para “salvar os africanos”, mas sabemos que foi para “explorar recursos”.
- Traduzir a exploração para termos econômicos: Alteração do modo como se trabalha e produz (Relações de Produção).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰
Precisamos entender a Dupla Face do Imperialismo.
Dossiê: O Fardo do Homem Branco 🎩🌍
| A Face Pública (O Discurso) | A Face Real (A Prática) |
| Missão Civilizadora: Levar o progresso, a fé cristã e a lei. | Exploração Econômica: Extrair látex, marfim, ouro e diamantes. |
| Combate à Escravidão Tribal: “Salvar” os nativos de chefes cruéis. | Trabalho Forçado: Implantar a corveia e o trabalho compulsório para o lucro europeu. |
| Proteção: “Estações fortemente ocupadas”. | Domínio Militar: Controle territorial efetivo (Exigência da Conferência de Berlim). |
Conceito Chave:
Relações de Produção: É a forma como a sociedade se organiza para produzir bens. Na África, a Europa substituiu a produção local (tribal/subsistência) pela produção capitalista colonial (plantation/extração).
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️♂️
Vamos traduzir o “bureaucratês” do século XIX:
O Texto diz:
- “A organização progressiva dos serviços administrativos… militares… sob a soberania… das nações civilizadas.”
- Tradução: Vamos montar um Estado europeu dentro da África. Quem manda somos nós (soberania).
O Texto diz:
- “…estabelecimento… de estações fortemente ocupadas…”
- Tradução: Vamos construir quartéis e fortes para vigiar tudo.
O Objetivo Oculto:
Por que gastar dinheiro montando tribunais e quartéis no meio da selva? Não era caridade. Era para criar a infraestrutura necessária para escoar mercadorias e obrigar a população local a trabalhar nos moldes europeus.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO para não acreditar na bondade do texto!
O texto fala em “combater a escravatura”. O aluno ingênuo pode procurar uma alternativa sobre “direitos humanos”. Lembre-se: no Imperialismo, o combate à escravidão tradicional servia para liberar mão de obra para o mercado capitalista ou para justificar a invasão militar. Não era humanitarismo, era estratégia geopolítica.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O discurso moral serviu para legitimar a invasão militar que, por sua vez, reestruturou a economia africana para servir à Europa.
- Expectativa: Devemos buscar a alternativa que fale sobre domínio político (submissão) e mudança econômica (produção).
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀
Vamos interrogar os suspeitos:
- A) estabelecimento de governos para a constituição de Estados nacionais.
- Diagnóstico do Erro: Anacronismo/Conceito Errado.
- Análise: As potências não queriam criar “Estados Nacionais” (países independentes como a França ou a Alemanha) na África. Elas queriam criar Colônias dependentes. A ideia de Estado Nacional africano só vem com a Descolonização (século XX).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) submissão de espaços para alterar as relações de produção.
- Análise: Perfeita.
- “Submissão de espaços” = Ocupação militar e administrativa descrita no texto (“soberania”, “estações ocupadas”).
- “Alterar as relações de produção” = Substituir a economia tradicional/escravista local pela economia de exploração colonial (capitalismo periférico), onde o africano trabalha para a metrópole.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- Análise: Perfeita.
- C) delimitação de jurisdições para bloquear a expansão capitalista.
- Diagnóstico do Erro: Inversão Total.
- Análise: O Imperialismo é a expansão do capitalismo (fase monopolista). Eles delimitavam jurisdições (fronteiras) para garantir e organizar a expansão capitalista, jamais para bloqueá-la.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) defesa do continente para encerrar as contínuas guerras civis.
- Diagnóstico do Erro: Ingenuidade Histórica.
- Análise: Os europeus muitas vezes estimulavam rivalidades tribais para dominar mais fácil (dividir para governar). A “paz” europeia (Pax Colonial) era uma paz armada para garantir o lucro, não para o bem-estar dos povos.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) reconhecimento da alteridade para preservar as práticas tribais.
- Diagnóstico do Erro: Contradição Ideológica.
- Análise: “Alteridade” é respeitar o outro como diferente e igual. O Imperialismo baseava-se no Etnocentrismo (o europeu é superior). Eles não queriam “preservar práticas tribais”, queriam “civilizar” (ou seja, destruir a cultura local e impor a europeia).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭
Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra B, pois o discurso “civilizatório” de combate à escravidão funcionou como o pretexto moral necessário para que as potências europeias ocupassem militarmente o território africano (“submissão de espaços”) e reorganizassem sua força de trabalho para atender às demandas do capitalismo industrial (“alterar as relações de produção”).
Resumo-flash (A Imagem Mental):
✝️🔫 A Cruz e a Espada: O missionário ia na frente prometendo salvação (discurso), e o soldado vinha atrás garantindo a plantação (prática).
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este mecanismo de “usar uma causa nobre para justificar uma invasão” ainda existe. Hoje, chama-se Intervencionismo Humanitário. Muitas vezes, grandes potências invadem países alegando “defender a democracia” ou “proteger civis”, quando o interesse real pode ser petróleo ou posição geopolítica. A história muda de roupa, mas o roteiro é parecido.