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Questão 81, caderno azul do ENEM 2022 D1

Decreto-Lei n. 1 949, de 27/12/1937

Art. 1º Fica criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), diretamente subordinado ao presidente da República.

Art. 2º O DIP tem por fim:

h) coordenar e incentivar as relações da imprensa com os poderes públicos no sentido de maior aproximação da mesma com os fatos que se ligam aos interesses nacionais;

n) autorizar mensalmente a devolução dos depósitos efetuados pelas empresas jornalísticas para a importação de papel para imprensa, uma vez demonstrada, a seu juízo, a eficiência e a utilidade pública dos jornais ou periódicos por elas administrados ou dirigidos.

BRASIL apud CARONE, E. A Terceira República (1937-1945). São Paulo: Difel, 1982 (adaptado).

Com base nos trechos do decreto, as finalidades do órgão criado permitiram ao governo promover o(a)

A) diversificação da opinião pública.

B) mercantilização da cultura popular.

C) controle das organizações sindicais.

D) cerceamento da liberdade de expressão.

E) privatização dos meios de comunicação.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História do Brasil: Era Vargas, especificamente o Estado Novo (1937-1945).
  • Instituições Políticas: O papel do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).
  • Interpretação de Texto Legislativo: Análise de decretos e suas consequências práticas.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender como o governo autoritário de Getúlio Vargas institucionalizou a censura e a propaganda oficial através da criação do DIP, utilizando mecanismos burocráticos (como o controle do papel) para silenciar a oposição e promover o regime.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: O texto é um documento oficial (decreto). O aluno precisa ler nas entrelinhas. O decreto não diz “vamos censurar”; diz “incentivar relações” e “autorizar devolução de depósitos”. O aluno deve interpretar que “autorizar” é um poder de veto e controle, o que leva à conclusão de censura/cerceamento.

Gabarito: D.

  • Resumo: O DIP foi criado para controlar a informação. O texto do decreto mostra que o órgão tinha o poder de decidir quem recebia isenção fiscal para importar papel (matéria-prima vital). Se o jornal falasse mal do governo, o DIP negava o benefício. Isso, somado à “coordenação” das relações com o poder, resultou no cerceamento da liberdade de expressão.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Traduzir a linguagem burocrática para a prática política.

  • Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Para que serviu esse tal de DIP na vida real?”. O governo criou esse órgão para ajudar os jornais a serem livres ou para mandar neles?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você tem um jornal na escola.
    • O Diretor cria um departamento que diz: “Eu só vou te dar dinheiro para comprar papel se eu achar que seu jornal é útil”.
    • Se você criticar o Diretor, ele vai achar seu jornal “inútil” e cortar a verba.
    • Resultado: Você só vai falar bem dele. Isso é Censura (Cerceamento).
  • Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
    1. Analisar o Art. 2º (h): “Coordenar a imprensa com os poderes públicos” -> Alinhamento.
    2. Analisar o Art. 2º (n): “Autorizar devolução… uma vez demonstrada a utilidade pública” -> Chantagem econômica.
    3. Concluir que controlar o papel e o conteúdo é acabar com a liberdade.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender o Estado Novo, vamos usar o Tripé do Controle Varguista.

  1. Repressão Policial: Prisão de opositores (DOPS).
  2. Propaganda Oficial: Exaltação do Líder (DIP – Parte “Propaganda”).
    • A “Hora do Brasil” no rádio.
    • Cartilhas escolares.
  3. Censura: Controle da Imprensa (DIP – Parte “Imprensa”).
    • Mecanismo: O jornal só circula se o DIP deixar. O DIP controla o papel e a tinta.

Conceito Chave: Eufemismo Autoritário
Ditaduras não dizem “vamos proibir”. Elas dizem “vamos coordenar para o interesse nacional”. O aluno precisa identificar que “interesse nacional” era, na verdade, o interesse do ditador.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos ler o decreto com a lupa da desconfiança:

  • “demonstrada, a seu juízo, a eficiência e a utilidade pública dos jornais”
    • Tradução: Quem define o que é útil? O governo (“a seu juízo”).
    • Se o jornal critica o governo, ele é considerado “inútil” e perde o dinheiro do papel.
  • “maior aproximação da mesma com os fatos que se ligam aos interesses nacionais”
    • Tradução: A imprensa não pode ser independente. Ela tem que estar “próxima” do governo.

Conclusão:
Se o governo decide quem recebe papel e exige que a imprensa esteja alinhada aos seus interesses, não existe liberdade. Existe Cerceamento (corte, restrição) da liberdade de expressão.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (A) (“diversificação da opinião pública”) é o oposto.

  • Por que seduz? O texto fala em “incentivar relações”, o que pode parecer algo positivo/democrático.
  • Por que está errada? O objetivo de um regime autoritário (1937 = Ditadura do Estado Novo) é unificar a opinião pública em torno do líder, não diversificá-la. O DIP queria uma única voz (a voz de Vargas), silenciando as opiniões divergentes.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O DIP usava o poder econômico e administrativo para forçar a imprensa a obedecer ao governo.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre censura, controle, restrição ou falta de liberdade.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) diversificação da opinião pública.
    • Diagnóstico do Erro: Oposto da Realidade.
    • Narrativa do Erro: O DIP buscava a homogeneização (todo mundo pensando igual) a favor do governo, eliminando a oposição. Diversificação só existe em democracia.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) mercantilização da cultura popular.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Foco do Decreto.
    • Narrativa do Erro: Embora o rádio tenha se popularizado, o decreto específico apresentado foca na relação com a imprensa escrita e no controle político, não na venda de cultura popular.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) controle das organizações sindicais.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Alvo.
    • Narrativa do Erro: Vargas controlou os sindicatos (sindicato pelego), mas isso era função do Ministério do Trabalho, não do DIP. O DIP cuidava da comunicação e cultura.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) cerceamento da liberdade de expressão.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. “Cercear” significa cortar, diminuir, restringir. Ao condicionar a sobrevivência do jornal (importação de papel) à aprovação do governo (“juízo sobre a utilidade”), o DIP destruiu a autonomia da imprensa e a liberdade de expressão.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) privatização dos meios de comunicação.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo e Erro Conceitual.
    • Narrativa do Erro: Os jornais já eram privados. O que o Estado fez foi intervir neles (estatização do controle), não privatizá-los (vender estatais). O movimento foi de centralização estatal.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
No Estado Novo, a tinta e o papel eram armas de guerra: ao criar o DIP, Vargas não apenas fez propaganda de si mesmo, mas asfixiou seus opositores cortando-lhes os suprimentos, institucionalizando o cerceamento da liberdade de expressão (Alternativa D) como política de Estado.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
O DIP é o editor-chefe do Brasil: só publica o que ele gosta.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
A censura do DIP não era apenas política (“não fale mal do presidente”), era também moral (“não mostre beijos longos no cinema”). Esse modelo de controle da informação se repetiu, de forma ainda mais violenta, durante a Ditadura Militar (1964-1985), com a Lei de Imprensa e a censura prévia.

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