Questão 80 caderno azul do ENEM 2022 PPL – Dia 1

A sociedade burguesa moderna, que surgiu do declínio da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classes. Não fez senão estabelecer novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das anteriores. Entretanto, a nossa época, a época da burguesia, caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classe. Toda a sociedade está se dividindo, cada vez mais, em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado.

MARX, K.; ENGELS, F. O manifesto do Partido Comunista.  São Paulo: Boitempo, 2010 (adaptado).

Típico de sociedades urbanas industriais, o conflito social apresentado no texto é uma consequência da

A) imposição de políticas neoliberais.

B) exploração da propriedade privada.

C) implantação da abertura comercial.

D) repressão de movimentos sindicais.

E) consolidação da democracia representativa.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Sociologia (Clássicos: Karl Marx e o Materialismo Histórico)
    • História (Revolução Industrial e Capitalismo)
    • Geografia/Economia (Modos de Produção)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar a causa estrutural do conflito de classes na sociedade capitalista industrial, segundo a teoria marxista: a posse privada dos meios de produção.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige conhecimento teórico prévio. O texto descreve o conflito (Burguesia x Proletariado), mas não explicita a causa dele (a propriedade). O aluno precisa saber que, para Marx, o que define uma classe social é a sua relação com a propriedade privada dos meios de produção.
  • Gabarito: B
    • A alternativa está correta. Na teoria marxista, a burguesia é a classe que detém a propriedade privada dos meios de produção (fábricas, terras, máquinas), enquanto o proletariado, desprovido dessa propriedade, é obrigado a vender sua força de trabalho, gerando a relação de exploração e conflito.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto do “Manifesto Comunista” e responder: “Por que a Burguesia e o Proletariado são inimigos? O que o burguês tem que o proletário não tem, e que causa essa briga toda?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma Padaria.

  • O Dono (Burguês) é dono do forno, da farinha e do prédio.
  • O Padeiro (Proletário) só tem as mãos e a habilidade de amassar pão.
    O Dono fica com o lucro do pão e paga um salário ao Padeiro. Marx diz que eles estão em conflito porque o Dono quer pagar menos e o Padeiro quer ganhar mais. A raiz desse problema é que o forno é privado (do dono), e não de quem trabalha nele. A questão quer que você identifique essa “posse do forno” (propriedade privada) como a causa do conflito.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Identificar os Lutadores: O texto cita Burguesia e Proletariado.
  • Definir as Armas: O que define um burguês? (Ter capital/fábrica). O que define um proletário? (Ter apenas força de trabalho).
  • Achar a Causa: O conflito nasce da posse desigual das ferramentas de trabalho (Propriedade Privada).

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a anatomia dessa briga, vamos usar um Raio-X da Estrutura Social.

RAIO-X: QUEM É QUEM NO CAPITALISMO?

  • O Cenário: Sociedade Urbana Industrial (“época da burguesia”).
  • Classe A (Burguesia):
    • Posse: Detém os Meios de Produção (Fábricas, Máquinas, Terras).
    • Poder: Propriedade Privada.
  • Classe B (Proletariado):
    • Posse: Não tem meios de produção.
    • Recurso: Vende sua Força de Trabalho (tempo/energia).
  • O Conflito: A exploração ocorre porque a Classe A usa sua Propriedade Privada para lucrar sobre o trabalho da Classe B. Sem propriedade privada, essa distinção de classes desapareceria (segundo Marx).

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar a lógica do manifesto.

  • A Evolução Histórica: O texto diz que a sociedade moderna “surgiu do declínio da sociedade feudal”. No feudalismo, a briga era por terra e sangue nobre.
  • A Simplificação: Agora, a briga é direta: “dois grandes campos hostis”.
  • A Causa Oculta: O texto não diz explicitamente “propriedade privada”, ele descreve o efeito (opressão, luta). Cabe ao detetive (você) saber a causa.
    • Por que o burguês manda? Porque ele é dono da fábrica.
    • Por que o proletário obedece? Porque ele precisa do salário para comer, já que não tem fábrica.
    • Logo, a estrutura que sustenta essa relação é a exploração da propriedade privada (uso dos bens de produção para gerar lucro privado).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

A armadilha mais perigosa aqui é a alternativa A (imposição de políticas neoliberais). O aluno ouve falar muito de “neoliberalismo” e “crise” nos jornais e associa isso a conflito social. O erro é o Anacronismo (erro de tempo). Marx e Engels escreveram o Manifesto em 1848, no século XIX. O Neoliberalismo é uma teoria econômica do final do século XX (anos 1970/80). Marx não poderia estar criticando o neoliberalismo, pois ele nem existia. Ele estava analisando o nascimento do capitalismo industrial clássico.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O conflito de classes no capitalismo industrial, segundo Marx, deriva fundamentalmente do fato de que uma classe possui os meios de produção (propriedade privada) e a outra não, gerando uma relação de exploração.
  • Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “propriedade”, “meios de produção” ou “capital”.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) imposição de políticas neoliberais.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro Cronológico (Anacronismo). O texto é do século XIX (1848). O neoliberalismo é um fenômeno do final do século XX. O conflito descrito por Marx é inerente ao capitalismo em si, não apenas à sua fase neoliberal.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) exploração da propriedade privada.

  • Análise de Correspondência: Perfeita. Para o marxismo, a raiz de toda desigualdade e luta de classes no capitalismo é a instituição da propriedade privada dos meios de produção. É ela que permite ao burguês apropriar-se do trabalho do proletário.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

C) implantação da abertura comercial.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Fator Secundário. Abertura comercial (livre comércio entre países) é uma característica do mercado, mas não é a causa fundamental da divisão da sociedade em duas classes antagônicas. A divisão ocorre dentro da fábrica, independentemente de haver comércio exterior ou não.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) repressão de movimentos sindicais.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Confusão entre Causa e Efeito. A repressão aos sindicatos é uma ferramenta usada pela burguesia na luta de classes, uma consequência do conflito, mas não a causa originária dele. O conflito existe porque os interesses são opostos (lucro x salário), não apenas porque há repressão.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) consolidação da democracia representativa.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Irrelevância Econômica. Marx considera a política (democracia, estado) como uma “superestrutura” que reflete a base econômica. A democracia burguesa, para ele, é apenas uma forma de gerenciar os interesses da classe dominante, não a causa da divisão de classes em si.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. Para Marx, a história da humanidade não é a história de reis ou ideias, mas a história de quem é dono das ferramentas e de quem só tem o suor para vender.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O muro que separa o patrão do empregado é feito de tijolos de Propriedade Privada.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse conceito é a base da teoria da Mais-Valia. Se o operário produz um sapato que vale 100, mas recebe 10 de salário, os outros 90 (a mais-valia) ficam com o burguês. Por que o burguês pode ficar com esses 90 sem ter pregado um prego? Porque ele é dono da fábrica (propriedade privada). Entender isso é entender o motor da crítica marxista que influencia debates sobre desigualdade até hoje, como nos livros de Thomas Piketty.

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