Questão 77 caderno verde ENEM 2017 Libras 1° Dia

E venham, então, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas! Desviem o curso dos canais, para inundar os museus! Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e deitem abaixo sem piedade as cidades veneradas!

MARINETTI, F. T. Manifesto futurista. Disponível em: www.sibila.com.br.  Acesso em: 2 ago. 2012 (adaptado).

Que princípio marcante do Futurismo e comum a várias correntes artísticas e culturais das primeiras três décadas do século XX está destacado no texto?

A)  A tradição é uma força incontornável.

B)  A arte é expressão da memória coletiva.

C)  A modernidade é a superação decisiva da história.

D)  A realidade cultural é determinada economicamente.

E) A memória é um elemento crucial da identidade cultural.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto
    • Literatura (Vanguardas Europeias – Futurismo)
    • História da Arte (Modernismo)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar a ideologia central do Futurismo, especificamente a sua relação com o passado e a tradição.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Detalhe: A questão é de nível médio porque não basta interpretar o texto literalmente como um simples chamado à violência. É necessário compreender que os atos de destruição propostos são simbólicos e representam um princípio filosófico das vanguardas do século XX: a negação radical do passado para a construção de um novo futuro. Esse salto interpretativo exige um raciocínio mais abstrato.
  • Gabarito: Letra C.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o texto conclama à destruição de todos os símbolos da tradição e da história (bibliotecas, museus), defendendo que a modernidade só pode existir a partir de uma ruptura total e violenta com o passado.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos mostra um texto extremamente agressivo e nos pergunta: “Qual é a grande ideia, a filosofia por trás de todo esse ódio contra museus, bibliotecas e cidades antigas?”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como a demolição de um prédio antigo para construir um arranha-céu. O texto de Marinetti não está focado na planta do novo arranha-céu (a arte futurista em si), mas no ato explosivo e barulhento de dinamitar a estrutura velha. Ele argumenta que é impossível construir o novo sobre alicerces velhos e podres. Nossa missão é entender a justificativa do engenheiro para essa demolição total.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Identificar as Vítimas: Fazer uma “lista de alvos” com base no manifesto de Marinetti.
  • Decifrar o Simbolismo: Entender o que essas “vítimas” representam coletivamente.
  • Conectar o Crime à Motivação: Ligar o ato de destruição proposto à ideologia que o justifica.
  • Traçar o Perfil do Culpado: Descrever como deve ser a alternativa que resume essa ideologia.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender o Futurismo, precisamos de uma ficha de perfil. Vamos criar um Dossiê da Vanguarda Futurista.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ DO CASO: FUTURISMO 🕵️‍♂️

  • Codinome: A Vanguarda da Aceleração.
  • Data de Atividade: Início do século XX.
  • Inimigo Declarado: O “Passadismo”. Qualquer coisa que represente o passado: tradição, museus, bibliotecas, academias de arte, nostalgia, história.
  • Ídolos / Armas: A Máquina, a Velocidade, a Indústria, a Eletricidade, a Guerra (“a única higiene do mundo”), a Força, o futuro.
  • Modus Operandi: Choque, ruptura radical, destruição do antigo para a construção do novo.
  • Crença Central / Justificativa: A História não é uma base sobre a qual se constrói, mas sim uma prisão que impede o progresso. Para que o futuro possa nascer, o passado deve morrer de forma violenta e definitiva. Não há reforma, apenas revolução.

Este dossiê nos mostra que a destruição não é um fim em si mesma, mas um meio para um fim: a libertação total do peso da história.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  1. Executando o Plano:
    • Vítimas: A lista de alvos de Marinetti é clara: “estantes das bibliotecas”, “museus”, “cidades veneradas”.
    • Simbolismo: O que une esses alvos? Bibliotecas guardam o conhecimento do passado. Museus preservam a arte do passado. Cidades veneradas são monumentos vivos da história do passado. Todos são, portanto, santuários da memória e da tradição.
    • Motivação: Ao clamar pela destruição física desses locais, Marinetti está, simbolicamente, exigindo a aniquilação do próprio conceito de passado e de sua influência sobre o presente. É um exorcismo cultural.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é interpretar o texto de forma oposta, como uma ironia. O aluno pode pensar: “Ninguém falaria isso a sério, então ele deve estar, na verdade, criticando quem ataca a tradição”. Mas não! As vanguardas eram radicais. A proposta é literal em seu ímpeto filosófico. Outro erro é focar apenas na violência e não na sua finalidade, perdendo o ponto central da questão.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O texto propõe a destruição de símbolos do passado como método para libertar o presente e possibilitar um futuro radicalmente novo. O princípio é o de que a modernidade exige uma ruptura total com a história.
    • Expectativa: A alternativa correta deve expressar essa ideia de rompimento, de superação, de quebra, mostrando a história como algo a ser vencido pela modernidade.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.

  • A) A tradição é uma força incontornável.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que o texto, por ser tão violento, está na verdade mostrando o quão forte é a tradição que precisa ser combatida.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto inteiro é um grito de que a tradição não só pode como deve ser contornada e destruída.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) A arte é expressão da memória coletiva.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa na definição clássica de arte e a aplica aqui.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Futurismo quer destruir os repositórios da “memória coletiva” (museus). Para eles, a arte deveria ser a expressão da velocidade do futuro, não da memória.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) A modernidade é a superação decisiva da história.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. Esta frase resume a filosofia por trás do manifesto. “Superação decisiva” captura tanto a ideia de rompimento quanto a violência (“decisiva”, final) do ato de atear fogo e usar picaretas. É a modernidade se impondo sobre a história.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) A realidade cultural é determinada economicamente.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que a modernidade (industrial, econômica) influencia a cultura.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora o Futurismo exalte a indústria, o foco do manifesto de Marinetti não é uma análise econômica (como faria o Marxismo), mas sim uma proposta de revolução cultural e estética.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) A memória é um elemento crucial da identidade cultural.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa no senso comum de que a memória forma quem somos.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Para o Futurismo, a memória é um câncer, um peso morto. A identidade cultural deveria ser forjada na velocidade do presente, olhando apenas para o futuro.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Fica evidente que a alternativa C é a correta, pois o ímpeto violento e destruidor do Manifesto Futurista é a expressão máxima da crença de que a modernidade só pode existir através da aniquilação e superação total da história.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Para o Futurista, a História é uma âncora; para ser moderno, é preciso cortar a corda com um machado.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “ruptura paradigmática” é central na História da Ciência, conforme descrito por Thomas Kuhn. Uma revolução científica (como a passagem da física de Newton para a de Einstein) não é um acréscimo suave ao conhecimento antigo. É uma quebra violenta. O novo paradigma (Relatividade) força os cientistas a “atear fogo” às velhas certezas e a “demolir” as estruturas conceituais do passado para poderem enxergar o universo de uma forma completamente nova. Marinetti propôs para a arte o que Einstein, de forma não-violenta, provocou na física: uma superação decisiva da história.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.