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Questão 77 caderno azul ENEM 2010 PPL

O cádmio, presente nas baterias, pode chegar ao solo quando esses materiais são descartados de maneira irregular no meio ambiente ou quando são incinerados. Diferentemente da forma metálica, os íons Cd2+ são extremamente perigosos para o organismo, pois eles podem substituir íons Ca2+, ocasionando uma doença degenerativa nos ossos, tornando-os muito porosos e causando dores intensas nas articulações. Podem ainda inibir enzimas ativadas pelo cátion Zn2+, que são extremamente importantes para o funcionamento dos rins. A figura mostra a variação do raio de alguns metais e seus respectivos cátions.

Com base no texto, a toxicidade do cádmio em sua forma iônica é consequência de esse elemento

A) apresentar baixa energia de ionização, o que favorece a formação do íon e facilita sua ligação a outros compostos.

B) possuir tendência de atuar em processos biológicos mediados por cátions metálicos com cargas que variam de +1 a +3.

C) possuir raio e carga relativamente próximos aos de íons metálicos que atuam nos processos biológicos, causando interferência nesses processos.

D) apresentar raio iônico grande, permitindo que ele cause interferência nos processos biológicos em que, normalmente, íons menores participam.

E) apresentar carga +2, o que permite que ele cause interferência nos processos biológicos em que, normalmente, íons com cargas menores participam.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Química Geral e Tabela Periódica (Propriedades Periódicas: Raio Atômico e Iônico)
  • Bioquímica / Química Bioinorgânica (Função de íons metálicos em sistemas biológicos)
  • Interpretação de Textos e Gráficos

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a toxicidade de um elemento (cádmio) com base no conceito de mimetismo iônico, relacionando a semelhança de carga e raio iônico com a interferência em processos biológicos.

Nível da Questão
Médio – A questão é de nível médio porque não se resolve apenas com a leitura do texto ou a análise da figura de forma isolada. É necessário sintetizar as informações das duas fontes: o texto aponta a substituição de íons (Ca²⁺ e Zn²⁺), e a figura fornece os dados quantitativos (raio e carga) que explicam o porquê dessa substituição ser possível.

Gabarito
Alternativa C. Esta alternativa está correta porque a toxicidade do cádmio (Cd²⁺) decorre de sua impressionante semelhança em carga (+2) e tamanho (raio iônico) com íons essenciais como o cálcio (Ca²⁺), o que lhe permite “enganar” o corpo e tomar o lugar deles em processos vitais.


🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

1.1 Transcrição Essencial
“Com base no texto, a toxicidade do cádmio em sua forma iônica é consequência de esse elemento…”

1.2 O que está sendo pedido?
A questão nos pede para identificar a causa fundamental, a razão química, pela qual o íon cádmio (Cd²⁺) é tão prejudicial ao nosso organismo.

1.3 Objetivo Cristalino
Nossa meta é usar as pistas do texto e os dados da figura para encontrar as propriedades do íon Cd²⁺ que o tornam um “impostor” capaz de interferir nas funções normais de outros íons metálicos em nosso corpo.

1.4 Pergunta de Atenção
Você já tentou abrir uma porta com uma chave muito parecida, mas que não era a certa? A chave entra na fechadura, mas não consegue girar e acaba emperrando tudo. O cádmio faz exatamente isso nas “fechaduras” químicas do nosso corpo!


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

2.1 Definições e Fórmulas / explicação de termos
Para resolver esta questão, precisamos entender alguns conceitos:

  • Raio Iônico: É a medida do tamanho de um íon. Assim como pessoas de tamanhos semelhantes podem usar as mesmas roupas, íons de raios semelhantes podem “se encaixar” nos mesmos locais biológicos (como enzimas e canais celulares).
  • Carga Iônica: É a carga elétrica de um íon (ex: +1, +2, +3). Os sítios ativos de proteínas e enzimas são quimicamente projetados para atrair e se ligar a íons de uma carga específica.
  • Mimetismo Iônico (ou Ionic Mimicry): Este é o conceito central aqui. Ocorre quando um íon tóxico possui carga e raio iônico muito semelhantes aos de um íon essencial para o corpo. Por causa dessa semelhança, o organismo não consegue diferenciá-los. O íon tóxico (o “impostor”) acaba tomando o lugar do íon essencial (o “trabalhador”), mas não consegue realizar sua função, causando danos.
  • Energia de Ionização: É a energia necessária para remover um elétron de um átomo no estado gasoso. Uma baixa energia de ionização significa que o átomo forma um cátion (íon positivo) com facilidade. Embora explique por que o Cd²⁺ se forma, não é a causa direta de sua toxicidade uma vez que ele já está no corpo.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

3.1 Contextualização Simplificada
O texto nos conta que o cádmio (Cd²⁺) é um vilão que entra no nosso corpo e causa estragos de duas maneiras principais: ele se finge de Cálcio (Ca²⁺) e bagunça nossos ossos, e se mete no trabalho do Zinco (Zn²⁺), atrapalhando nossos rins. A figura nos mostra as “fichas criminais” desses íons, com seus tamanhos (raios) e cargas. A pergunta é: olhando para essas fichas, o que o cádmio tem de tão parecido com o cálcio e o zinco que o torna um impostor tão eficaz?

3.2 Estratégia Geral
Nosso plano será:

  1. Identificar no texto quais íons essenciais são substituídos pelo cádmio (Ca²⁺ e Zn²⁺).
  2. Extrair da figura os valores de raio iônico e as cargas para o Cd²⁺, Ca²⁺ e Zn²⁺.
  3. Comparar esses valores para confirmar a semelhança entre o “impostor” (Cd²⁺) e os “trabalhadores” (Ca²⁺ e Zn²⁺).
  4. Concluir que essa semelhança em raio e carga é a causa da toxicidade.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Análise Lógica

4.1 Passo a Passo Detalhado
Vamos executar nossa estratégia, combinando as informações:

  1. Pista do Texto: O texto afirma explicitamente que os íons Cd²⁺ “podem substituir íons Ca²⁺” e “inibir enzimas ativadas pelo cátion Zn²⁺“. Isso nos diz exatamente quem o cádmio está imitando.
  2. Dados da Figura (FIGURA 1): Vamos coletar os dados dos íons:
    • Íon Cádmio (o impostor): Cd²⁺ → Carga +2, Raio Iônico 103 pm
    • Íon Cálcio (a vítima): Ca²⁺ → Carga +2, Raio Iônico 100 pm
    • Íon Zinco (a outra vítima): Zn²⁺ → Carga +2, Raio Iônico 83 pm
  3. Comparação e Análise:
    • Comparando Cargas: A carga do Cd²⁺ (+2) é idêntica à do Ca²⁺ (+2) e do Zn²⁺ (+2). As “fechaduras” biológicas que procuram uma carga +2 podem ser facilmente enganadas.
    • Comparando Raios: O raio do Cd²⁺ (103 pm) é extremamente próximo ao do Ca²⁺ (100 pm). A diferença é de apenas 3%, o que os torna quase indistinguíveis em termos de tamanho para muitas estruturas biológicas. Embora o raio do Zn²⁺ (83 pm) seja um pouco menor, ainda está na mesma ordem de magnitude, permitindo a interferência em sítios enzimáticos.

4.3 Possível armadilha
Uma armadilha comum é olhar para os raios atômicos (a fileira de cima na figura) em vez dos raios iônicos (a fileira de baixo). A toxicidade é causada pelo íon Cd²⁺, não pelo átomo de cádmio metálico. Outra armadilha é considerar apenas a carga (Alternativa E) ou apenas o tamanho (Alternativa D), quando a eficácia do “disfarce” do cádmio vem da combinação de ambos os fatores.

4.4 Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio demonstra que a toxicidade do íon cádmio é uma consequência direta de ele possuir raio e carga muito similares aos de íons vitais como o cálcio. Portanto, a alternativa correta deve mencionar explicitamente essa semelhança em ambos os quesitos.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

5.1 Listagem das Alternativas
A) apresentar baixa energia de ionização…
B) possuir tendência de atuar em processos biológicos mediados por cátions com cargas de +1 a +3.
C) possuir raio e carga relativamente próximos aos de íons metálicos que atuam nos processos biológicos…
D) apresentar raio iônico grande…
E) apresentar carga +2…

5.2 Justificativa Individual

  • 🔴 A) apresentar baixa energia de ionização, o que favorece a formação do íon e facilita sua ligação a outros compostos.
    Errada. A baixa energia de ionização explica por que o átomo de cádmio forma o íon Cd²⁺ com facilidade, mas não explica por que esse íon, uma vez formado, é tóxico. É a causa da formação, não da toxicidade.
  • 🔴 B) possuir tendência de atuar em processos biológicos mediados por cátions metálicos com cargas que variam de +1 a +3.
    Errada. Esta afirmação é muito genérica e imprecisa. A toxicidade do cádmio não se deve a uma tendência geral, mas sim a uma semelhança específica com íons de carga +2 e raio em torno de 100 pm.
  • 🟢 C) possuir raio e carga relativamente próximos aos de íons metálicos que atuam nos processos biológicos, causando interferência nesses processos.
    Correta. Esta é a descrição perfeita do mimetismo iônico. Ela aborda os dois fatores cruciais que identificamos: a proximidade do raio iônico e da carga, que são a causa da interferência.
  • 🔴 D) apresentar raio iônico grande, permitindo que ele cause interferência nos processos biológicos em que, normalmente, íons menores participam.
    Errada. O problema não é o cádmio ser “grande”, mas sim ter o tamanho certo para se passar por outro íon. Além disso, ele se passa pelo Ca²⁺, que tem um tamanho quase idêntico, não menor.
  • 🔴 E) apresentar carga +2, o que permite que ele cause interferência nos processos biológicos em que, normalmente, íons com cargas menores participam.
    Errada. Esta alternativa acerta a carga (+2), mas erra na justificativa. O Cd²⁺ interfere em processos que usam íons de carga igual (+2), como Ca²⁺ e Zn²⁺, não íons de cargas menores (como Na⁺, que tem carga +1).

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

6.1 Resumo do Raciocínio
A toxicidade do íon cádmio (Cd²⁺) é um caso clássico de mimetismo iônico. Devido à sua carga (+2) e raio iônico (103 pm) serem quase idênticos aos do íon cálcio (Ca²⁺, +2, 100 pm), ele consegue substituir o cálcio em processos biológicos, como na estrutura óssea, causando danos severos.

6.2 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a C.

6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Em toxicologia de metais, lembre-se do princípio do “impostor”: a toxicidade muitas vezes surge quando um íon prejudicial tem tamanho e carga semelhantes a um íon essencial, permitindo que ele o substitua e sabote as funções do corpo.

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