Questão 77, caderno azul do ENEM 2021 PPL

O nacionalismo curdo é um nacionalismo muito antigo. Os curdos são um povo que tem uma língua própria, uma cultura, uma história, uma tradição. O Curdistão já existe no papel, numa tentativa desde os anos 1920, mas que depois foi quebrado porque não interessava nem aos turcos, nem ao Irã e, principalmente, à Grã-Bretanha e à França, que eram as potências dominantes na região. Então, o nacionalismo curdo é consequência dessa história.

RAUPE, E.; SPARENBERGER, V. Entrevista com Luiz Antônio Araújo: perspectivas sobre o Oriente Médio. Novas Fronteiras: Revista Acadêmica de Relações Internacionais da ESPM-Sul, n. 1, jan.-jun. 2015 (adaptado).

Um empecilho para a autodeterminação da nação em questão é o(a)

A) limite imposto pelo espaço natural.
B) controle religioso sobre reservas petrolíferas.
C) imposição do idioma pelo colonizador europeu.
D) distribuição da população por diferentes países.
E) divisão do território por fundamentalistas islâmicos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Geografia Política (Oriente Médio), Conceitos de Estado vs. Nação, Conflitos Étnico-Territoriais.

Tema/Objetivo Geral:
A Questão Curda. O objetivo é compreender por que os Curdos, apesar de terem todos os requisitos culturais para serem um país (língua, história, povo), não conseguem ter seu território (Estado) reconhecido internacionalmente.

Nível da Questão:
Médio.
Por que? Exige conhecimento geográfico espacial. O aluno precisa saber onde os curdos vivem para entender por que a criação do país deles é um pesadelo diplomático para quatro nações vizinhas.

Gabarito:
Letra D.
A alternativa está correta porque o território histórico do Curdistão foi fatiado entre quatro países diferentes (Turquia, Iraque, Síria e Irã) após a Primeira Guerra Mundial, tornando a unificação impossível sem uma guerra generalizada.


🏗 Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “Qual é a barreira física e política que impede os Curdos de colocar uma bandeira no chão e dizer ‘Isso aqui é o Curdistão’?”

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine uma grande família (os Curdos) que morava numa fazenda gigante.
Quando o dono da fazenda morreu (Império Otomano), os advogados (Europa) dividiram a fazenda em quatro pedaços e deram para quatro vizinhos diferentes: o Sr. Turquia, o Sr. Iraque, o Sr. Irã e o Sr. Síria.
Agora, a família Curda continua existindo, mas cada irmão mora no quintal de um vizinho diferente. Para reunir a família e recriar a fazenda, eles teriam que tirar um pedaço do terreno de cada um desses quatro vizinhos. E nenhum vizinho quer devolver a terra.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Diferenciar Nação (Povo/Cultura) de Estado (Território/Governo).
  2. Identificar no texto os “inimigos” do Curdistão (Turcos, Irã, Potências europeias).
  3. Visualizar o mapa: Onde estão os curdos? Espalhados.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰

Precisamos entender a diferença crucial entre Nação e Estado.

Dossiê: O Povo Sem Mapa 🚩

Conceito Definição Os Curdos têm?
Nação Um grupo de pessoas com identidade, língua, cultura e história comuns. SIM. (São cerca de 30 milhões de pessoas com identidade forte).
Estado Um território delimitado por fronteiras, com governo soberano e reconhecimento internacional. NÃO. (São apátridas em termos de soberania).

O Problema Geográfico:
O “Curdistão” é uma região cultural, não política. Ela fica nas montanhas onde se encontram as fronteiras da TurquiaIraqueSíria e Irã.
Para criar o Estado Curdo, esses 4 países teriam que ceder território. Ninguém cede território de bom grado.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️‍♂️

Vamos rastrear a explicação histórica do texto:

A Legitimidade:

  • “…povo que tem uma língua própria, uma cultura, uma história…”
  • Isso confirma que eles são uma Nação.

O Fracasso Histórico:

  • “O Curdistão já existe no papel… tentativa desde os anos 1920…”
  • Refere-se ao Tratado de Sèvres, que prometeu o país, mas nunca foi cumprido.

O Motivo do Fracasso (A Chave):

  • “…não interessava nem aos turcos, nem ao Irã…”
  • Por que não interessava? Porque os curdos vivem dentro da Turquia e dentro do Irã. A criação do Curdistão significaria rasgar o mapa desses países.

Conclusão: O problema é a distribuição desse povo através de fronteiras alheias.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa B (“controle religioso sobre petróleo”).
É verdade que a região tem muito petróleo (Kirkuk, no Iraque). É verdade que o petróleo é um motivo para não darem a independência. MAS… a alternativa fala em “controle religioso“. O conflito pelo petróleo é econômico e político, não religioso. Curdos são majoritariamente muçulmanos sunitas, assim como parte dos turcos e iraquianos. O problema não é a reza, é a fronteira e o poço de petróleo.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A nação curda foi fragmentada pelas fronteiras artificiais criadas pelas potências coloniais após a 1ª Guerra Mundial, ficando presa dentro de quatro estados soberanos diferentes.
  • Expectativa: Devemos buscar a alternativa que fale sobre “espalhamento”, “divisão”, “fronteiras” ou “distribuição” da população.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀

Vamos interrogar os suspeitos:

  • A) limite imposto pelo espaço natural.
    • Diagnóstico do Erro: Determinismo Geográfico.
    • Análise: O Curdistão é uma região montanhosa, mas montanhas não impedem a criação de países (veja a Suíça ou o Nepal). O limite é político (fronteiras humanas), não natural (pedras).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • B) controle religioso sobre reservas petrolíferas.
    • Diagnóstico do Erro: Imprecisão Conceitual.
    • Análise: O petróleo é um fator chave (ninguém quer perder os poços para os curdos), mas o controle sobre ele é estatal/econômico, não “religioso”. Além disso, isso é uma consequência da posse da terra, não a definição do problema territorial em si.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) imposição do idioma pelo colonizador europeu.
    • Diagnóstico do Erro: Fato Falso.
    • Análise: O texto diz o contrário: “os curdos são um povo que tem uma língua própria”. Eles mantiveram a língua apesar da repressão. O problema não é perder a língua, é não ter a terra.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • D) distribuição da população por diferentes países.
    • Análise: Perfeita.
      • A população curda não está concentrada em uma ilha deserta; está “espalhada” (distribuída) sobre o território de quatro nações soberanas.
      • Para se autodeterminarem, precisariam quebrar a integridade territorial desses quatro vizinhos.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

  • E) divisão do território por fundamentalistas islâmicos.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo.
    • Análise: O texto fala dos anos 1920 (Pós-Primeira Guerra). Quem dividiu o território foram a Grã-Bretanha e a França (Acordo Sykes-Picot e Tratados posteriores), não fundamentalistas islâmicos (como o ISIS, que surgiu quase 100 anos depois). Os curdos, inclusive, lutaram contra o Estado Islâmico.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭

Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra D, pois a diáspora curda não ocorreu para longe, mas sim “imóvel”: as fronteiras desenhadas pela França e Grã-Bretanha após a queda do Império Otomano fatiaram a nação curda entre Turquia, Síria, Iraque e Irã, impedindo a unificação territorial necessária para a soberania.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🍕 A Pizza Fatiada: O Curdistão é uma pizza que foi cortada em 4 fatias, e cada fatia foi comida por um vizinho diferente. A pizza não existe mais na mesa.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O caso mais próximo de sucesso dos curdos é o Curdistão Iraquiano, uma região autônoma no norte do Iraque que tem seu próprio parlamento e exército (os Peshmergas), mas ainda não é um país independente. É um “quase-estado”. A luta curda é o exemplo clássico de como as fronteiras retas desenhadas com régua pelos europeus no Oriente Médio ignoraram a realidade humana local.

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