Questão 76 caderno azul ENEM 2020 Digital 1° Dia

Há um tempo, belas e boas são todas as ações justas e virtuosas. Os que as conhecem nada podem preferir-lhes. Os que não as conhecem, não somente não podem praticá-las como, se o tentam, só cometem erros. Assim praticam os sábios atos belos e bons, enquanto os que não o são só podem descambar em faltas. E se nada se faz justo, belo e bom que não pela virtude, claro é que na sabedoria se resumem a justiça e todas as mais virtudes.

XENOFONTE. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. Apud CHALITA, G. Vivendo a filosofia.
São Paulo: Ática, 2005.

Ao fazer referência ao conteúdo moral da filosofia socrática narrada por Xenofonte, o texto indica que a vida virtuosa está associada à

a) aceitação do sofrimento como gênese da felicidade suprema. 

b) moderação dos prazeres com vistas à serenidade da alma. 

c) contemplação da physis como fonte de conhecimento. 

d) satisfação dos desejos com o objetivo de evitar a melancolia. 

e) persecução da verdade como forma de agir corretamente.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Filosofia (Filosofia Antiga, Ética Socrática).

Tema/Objetivo Geral:
Interpretação de um texto clássico de Xenofonte para compreender o conceito socrático de Intelectualismo Moral, que une virtude e conhecimento.

Nível da Questão
Médio – A questão é considerada de nível médio. Embora o texto seja bastante direto em sua argumentação, ele exige que o aluno compreenda o conceito filosófico central de que, para Sócrates, o conhecimento (sabedoria) e a ação correta (virtude) são inseparáveis, e consiga traduzir essa ideia para os termos da alternativa correta (“verdade” e “agir corretamente”).

Gabarito
A alternativa correta é a e. O texto estabelece uma relação direta de causa e consequência: apenas quem “conhece” as ações boas pode praticá-las, pois a “sabedoria” resume todas as virtudes. Portanto, a busca pelo conhecimento (a verdade) é o caminho para a ação virtuosa.


🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

1.1 Transcrição Essencial
“…o texto indica que a vida virtuosa está associada à…”

1.2 O que está sendo pedido?
O exercício pede que você identifique, com base no relato de Xenofonte sobre o pensamento de Sócrates, qual é a condição fundamental para se viver uma vida virtuosa, ou seja, para praticar ações boas e justas.

1.3 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é decifrar a principal tese do texto sobre a relação entre saber e agir, e encontrar a alternativa que melhor expressa essa conexão.

1.4 Pergunta de Atenção
Você já pensou se é possível alguém fazer o mal sabendo que aquilo é mal? Para Sócrates, a resposta era um sonoro “não”! Essa ideia radical é a chave para resolver a questão.


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

2.1 Definições e Fórmulas / explicação de termos
Para entender o texto, é essencial conhecer o conceito central da ética de Sócrates:

  • Intelectualismo Moral Socrático:
    • Classificação: Doutrina da filosofia moral.
    • Explicação simples: É a ideia revolucionária de que virtude é conhecimento. Para Sócrates, ninguém comete um erro (ou um mal) voluntariamente. As pessoas agem de forma errada apenas por ignorância, por não saberem o que é verdadeiramente o bem. Se uma pessoa alcança o conhecimento genuíno do que é bom e justo, ela necessariamente agirá de acordo com esse conhecimento. A falta de virtude é uma falta de sabedoria.
    • Exemplo do cotidiano: Imagine que você está com sede e vê dois copos: um com água e outro com veneno, mas você não sabe qual é qual. Se você beber o veneno por engano, não foi por “maldade” ou “fraqueza”, mas por ignorância. Para Sócrates, todas as escolhas morais funcionam assim: para escolher o bem, você precisa primeiro saber o que é o bem.
  • Virtude (em grego, Aretê):
    • Classificação: Conceito ético.
    • Explicação simples: Para os gregos, significava “excelência”. A virtude de um cavalo é ser veloz; a virtude de um médico é curar. A virtude de um ser humano é viver bem, de forma justa e correta. O texto a associa a “ações justas” e “atos belos e bons”.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

3.1 Contextualização Simplificada
Vamos “traduzir” o que Sócrates, segundo Xenofonte, está dizendo: Fazer coisas boas e justas é a melhor coisa que existe. Quem sabe o que são essas coisas, sempre vai escolhê-las. Quem não sabe, mesmo que tente acertar, vai acabar errando. No fim das contas, a sabedoria é o “pacote completo” que inclui a justiça e todas as outras qualidades boas. A questão nos pede para resumir essa ideia em uma frase.

3.2 Estratégia Geral
A estratégia é encontrar o par de conceitos que o texto conecta o tempo todo. O texto liga “conhecer” e “sabedoria” a “praticar” atos “justos, belos e bons”. A resposta correta será a alternativa que melhor expressar essa relação de dependência: a ação correta depende do conhecimento verdadeiro.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Cálculos

4.1 Passo a Passo Detalhado
Vamos analisar a estrutura lógica do texto:

  • Afirmação 1: “Os que as conhecem [as ações justas e virtuosas] nada podem preferir-lhes.” -> Isso significa que o conhecimento do bem leva inevitavelmente à sua prática.
  • Afirmação 2: “Os que não as conhecem… só cometem erros.” -> Isso significa que a ignorância do bem leva inevitavelmente ao erro (à falta de virtude).
  • Síntese Final: “na sabedoria se resumem a justiça e todas as mais virtudes.” -> Esta é a conclusão explícita. A sabedoria não é apenas um caminho para a virtude; a sabedoria é a própria virtude.
  • Conclusão Lógica: Se a virtude é sabedoria, então viver uma vida virtuosa (agir corretamente) é, por definição, uma vida dedicada a buscar e a viver segundo o conhecimento e a verdade.

4.2 Verificação Intermediária
O argumento é hermeticamente fechado: conhecimento é a causa, e a ação virtuosa é o efeito. Não há espaço para fraqueza ou má intenção se o verdadeiro conhecimento estiver presente.

4.3 Possível armadilha
Uma armadilha comum é pensar em conceitos de outras filosofias. Por exemplo, a alternativa (b) moderação dos prazeres é uma ideia importante em Aristóteles e no Epicurismo, mas não é o ponto central do argumento socrático apresentado aqui. Outra armadilha é a alternativa (c) contemplação da physis, que remete aos filósofos pré-socráticos, que estudavam a natureza, enquanto Sócrates voltou sua filosofia para as questões humanas (a ética e a política).

4.4 Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que coloque a busca pelo conhecimento (verdade, sabedoria) como a condição essencial para a ação correta (virtude).


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

5.1 Listagem das Alternativas
a) aceitação do sofrimento como gênese da felicidade suprema.
b) moderação dos prazeres com vistas à serenidade da alma.
c) contemplação da physis como fonte de conhecimento.
d) satisfação dos desejos com o objetivo de evitar a melancolia.
e) persecução da verdade como forma de agir corretamente.

5.2 Justificativa Individual

(🔴) a) aceitação do sofrimento…: Incorreta. O texto não menciona sofrimento. Essa ideia é mais associada a filosofias posteriores ou a religiões.

(🔴) b) moderação dos prazeres…: Incorreta. Embora a moderação seja uma virtude, o texto argumenta que todas as virtudes derivam de uma fonte única: a sabedoria. Portanto, a moderação seria uma consequência do saber, não o princípio fundamental em si.

(🔴) c) contemplação da physis…: Incorreta. O foco de Sócrates não era a natureza (physis), mas a alma humana e a vida na cidade. A virtude, para ele, é um conhecimento ético, não cosmológico.

(🔴) d) satisfação dos desejos…: Incorreta. Esta é uma visão hedonista, o oposto do que Sócrates pregava. Para ele, a razão e o conhecimento deveriam governar os desejos, e não o contrário.

(🟢) e) persecução da verdade como forma de agir corretamente: Correta. Esta alternativa traduz perfeitamente o intelectualismo moral socrático. A “persecução da verdade” é a busca pela sabedoria, e o texto afirma que é somente através dela (“os que conhecem”) que se pode “agir corretamente” (“praticam os sábios atos belos e bons”).


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

6.1 Resumo do Raciocínio
O texto de Xenofonte expõe a tese central da ética de Sócrates: a virtude é conhecimento. Ele argumenta que a capacidade de agir de forma justa e boa está intrinsecamente ligada ao conhecimento do que é o justo e o bom. Portanto, a vida virtuosa não é uma questão de força de vontade ou de controle dos prazeres, mas sim o resultado direto de uma vida dedicada à busca pela verdade e pela sabedoria.

6.2 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a e) persecução da verdade como forma de agir corretamente.

6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se da equação de Sócrates: Conhecimento = Virtude. Para ele, ninguém é “mau” de propósito, apenas ignorante. A raiz de todo erro está na falta de saber, e o caminho para uma vida boa é o caminho da filosofia: a busca incessante pela verdade.

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