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Questão 73, caderno azul do ENEM 2022 D1

A história do Primeiro de Maio de 1890 — na França e na Europa, o primeiro de todos os Primeiros de Maio — é, sob vários aspectos, exemplar. Resultante de um ato político deliberado, essa manifestação ilustra o lado voluntário da construção de uma classe — a classe operária — à qual os socialistas tentam dar uma unidade política e cultural através daquela pedagogia da festa cujo princípio, eficácia e limites há muito tempo tinham sido experimentados pela Revolução Francesa.

PERROT, M. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

Com base no texto, a fixação dessa data comemorativa tinha por objetivo

A) valorizar um sentimento burguês.

B) afirmar uma identidade coletiva.

C) edificar uma memória nacional.

D) criar uma comunidade cívica.

E) definir uma tradição popular.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História Contemporânea: O Movimento Operário no século XIX.
  • Sociologia do Trabalho: Formação da Consciência de Classe.
  • Historiografia: O conceito de “Invenção das Tradições” (Eric Hobsbawm) aplicado a datas comemorativas.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender que as datas comemorativas (como o 1º de Maio) não são apenas feriados aleatórios, mas construções políticas deliberadas (“pedagogia da festa”) com o objetivo de criar uma identidade de grupo e unificar politicamente uma classe social.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: O texto é teórico e usa termos como “pedagogia da festa” e “construção de uma classe”. O aluno precisa traduzir isso: a festa serve para ensinar aos operários que eles são um grupo unido. Isso é “afirmar uma identidade coletiva”. As outras alternativas são distratores que confundem classe operária com nação ou burguesia.

Gabarito: B.

  • Resumo: O texto diz que o 1º de Maio foi um “ato político deliberado” para dar “unidade política e cultural” à classe operária. Se o objetivo é criar unidade onde antes havia indivíduos dispersos, o objetivo é construir e afirmar uma identidade coletiva (nós somos operários).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar a intenção por trás do feriado.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Para que os socialistas inventaram o 1º de Maio?”. Foi para descansar? Para fazer festa? Ou para transformar um bando de trabalhadores em uma ‘Classe Operária’ unida?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você quer criar um time de futebol com pessoas que não se conhecem.

Você marca um churrasco (festa) e dá a mesma camisa para todo mundo.

O objetivo do churrasco não é só comer, é fazer todo mundo se sentir parte do mesmo time (identidade coletiva).

O 1º de Maio é esse “churrasco político”.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar o agente: Socialistas/Classe Operária.
  • Identificar a ação: “Construção de uma classe”, “dar unidade política e cultural”.
  • Traduzir “dar unidade” para “afirmar identidade coletiva”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender como um feriado pode criar um grupo social, vamos desenhar o processo descrito pela historiadora Michelle Perrot. Não foi algo natural; foi uma construção.

FLUXOGRAMA: A FÁBRICA DE IDENTIDADE

  1. 🧩 O CENÁRIO INICIAL (A Dispersão):
    • Existem operários nas fábricas, mas eles estão isolados, sem consciência de sua força. São apenas indivíduos sofrendo.

    ⬇️ A Ação dos Socialistas (A Estratégia)

  2. 📅 O ATO POLÍTICO (A Ferramenta):
    • Criação do Primeiro de Maio.
    • Método: A “Pedagogia da Festa” (Usar a celebração para ensinar política).

    ⬇️ O Efeito Prático

  3. 🤝 A UNIFICAÇÃO (O Processo):
    • Ao saírem às ruas juntos, os operários se veem. Eles percebem que têm a mesma cultura, os mesmos problemas e os mesmos inimigos.

    ⬇️ O Resultado Final

  4. 🚩 A IDENTIDADE COLETIVA (O Objetivo):
    • O indivíduo deixa de ser apenas “um trabalhador” e passa a se sentir parte da “Classe Operária”.

Conceito Chave: A Pedagogia da Festa
O texto usa essa expressão brilhante. Significa que a festa não é (apenas) para beber e dançar. Ela é uma aula. Ela ensina aos participantes quem eles são. Ao marchar juntos, eles aprendem que são fortes e unidos.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o texto da historiadora Michelle Perrot:

  • “Resultante de um ato político deliberado”. (Não foi natural, foi planejado).
  • “Construção de uma classe — a classe operária”. (A classe não nasce pronta, ela se constrói).
  • “Dar uma unidade política e cultural”. (Unir as pessoas).

Síntese:
Se o objetivo é dar unidade e construir a classe, o feriado não é para a burguesia (A), nem para a nação inteira (C). É para fortalecer o grupo específico dos trabalhadores. É para afirmar quem eles são (identidade) e o que eles querem (política).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“definir uma tradição popular”) é um distrator perigoso.

  • Por que seduz? Porque o 1º de Maio virou uma tradição popular.
  • Por que está errada? O texto diz que foi um ato político deliberado dos socialistas, não uma tradição que nasceu espontaneamente do povo (folclore). O objetivo era político (construir a classe), e não apenas cultural/folclórico. A tradição foi o meio (pedagogia da festa), não o fim em si mesmo.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A festa foi criada para transformar trabalhadores dispersos em uma classe operária unida e consciente de sua força.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre união, identidade de grupo, consciência de classe ou coletividade operária.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) valorizar um sentimento burguês.
    • Diagnóstico do Erro: Oposto do Sujeito Histórico.
    • Narrativa do Erro: O texto fala de “classe operária” e “socialistas”. Esses grupos são historicamente antagônicos à burguesia. O 1º de Maio é uma festa antiburguesa por excelência.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) afirmar uma identidade coletiva.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Afirmar”: Dar unidade, construir.
      • “Identidade coletiva”: A consciência de pertencer à “classe operária”, superando as divisões individuais.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • C) edificar uma memória nacional.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Escala (Internacionalismo).
    • Narrativa do Erro: O movimento socialista é internacionalista (“Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”). O texto cita “França e Europa”, mostrando que o fenômeno transborda a fronteira nacional. O objetivo é a classe (operários), não a nação (franceses).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) criar uma comunidade cívica.
    • Diagnóstico do Erro: Termo Genérico Demais.
    • Narrativa do Erro: Comunidade cívica envolve todos os cidadãos (incluindo patrões). O 1º de Maio é uma festa de classe, sectária, que exclui a burguesia para afirmar a identidade do trabalhador.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) definir uma tradição popular.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão entre Meio e Fim.
    • Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, a tradição (festa) é a ferramenta (pedagogia) usada para atingir o objetivo político (identidade de classe), não o objetivo final. Além disso, “popular” é vago; “operária” é preciso.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Feriados não caem do céu, são construídos na terra: o 1º de Maio foi a estratégia genial dos socialistas para usar a “pedagogia da festa” e transformar a massa de trabalhadores em uma força política com identidade coletiva (Alternativa B), mostrando que a união faz a classe.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Antes da festa, eram operários isolados. Depois da festa, eram um Exército Vermelho.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este processo de criar símbolos para unir grupos é estudado hoje em Marketing Político e Identidade de Grupo. Movimentos modernos (como o LGBT com a Parada do Orgulho) usam a mesma lógica: criar uma data festiva para dar visibilidade e fortalecer a identidade de quem participa.

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