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Questão 70, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

No cemitério, a sociedade religiosa encarregada do funeral, aterrorizada, apressou a cerimônia de tal forma que a mãe de Herzog perdeu o momento em que o caixão do filho começou a ser coberto pela terra. Quatro jornalistas que estavam presos no DOI chegaram para assistir ao sepultamento. Um se afastara, chorando. Dizia: Eles matam, eles matam! Não pergunte nada. Não podemos dizer nada. Eles matam mesmo. Falava-se baixo. Ouviram-se dois curtos discursos. O primeiro, da atriz Ruth Escobar: Até quando vamos suportar tanta violência Até quando vamos continuar enterrando nossos mortos em silêncio? No segundo, Audálio Dantas recitou o Navio negreiro, de Castro Alves: Senhor Deus dos desgraçados / Dizei-me Vós, Senhor Deus / Se é mentira, se é verdade, / Tanto horror perante os céus.

GASPARI, E. A ditadura encurralada. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.

O acontecimento descrito no texto, ocorrido em meados dos anos 1970, atesta a seguinte característica do regime político-institucional vigente:

a) Incorporação da estética popular para justificar o ideal de integração nacional.

b) Afirmação da estratégia psicossocial para favorecer o objetivo de propaganda cívica.

c) Institucionalização de mecanismos repressivos para eliminar os focos de resistência.

d) Adoção de cerimoniais públicos para controlar as manifestações de grupos opositores.

e) Estatização de meios de comunicação para selecionar a divulgação de atos governamentais.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto
    • História do Brasil (Ditadura Militar, Anos de Chumbo)
    • Sociologia (Violência de Estado, Repressão Política)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar as características de um regime autoritário a partir da descrição de um evento que expõe o clima de medo e violência política.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque, embora o texto descreva claramente um ambiente de medo, as alternativas usam um vocabulário técnico e sociológico. O candidato precisa traduzir a narrativa dramática e emocional do funeral para a linguagem precisa que descreve o funcionamento de um aparato estatal de repressão.
  • Gabarito: C) Institucionalização de mecanismos repressivos para eliminar os focos de resistência.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o medo generalizado, a presença de presos políticos no funeral, a fala “Eles matam” e a cerimônia apressada são todas consequências diretas de um sistema de repressão organizado pelo próprio Estado (institucionalizado) para silenciar e eliminar qualquer oposição.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto descreve o clima de terror durante o enterro de um jornalista morto pela ditadura. A questão nos pede para ler essa descrição e identificar qual era a principal “ferramenta” ou “característica” do governo daquela época que causava todo esse medo.

Simplificando, imagine que o texto é o depoimento de uma testemunha descrevendo a vida sob o controle de uma máfia poderosa. Ela conta que ninguém pode falar, que as pessoas têm medo até nos funerais e que a máfia “mata mesmo”. A questão quer saber: qual é a principal característica dessa máfia? A resposta, claro, é que ela usa a violência e a repressão organizada para controlar tudo e todos. Precisamos encontrar a alternativa que diz isso em linguagem mais formal.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Coletar as Evidências do Medo: Vamos sublinhar todas as palavras e frases no texto que descrevem o clima de terror e a presença da violência estatal.
  • 2. Identificar a Fonte do Medo: Vamos nos perguntar: quem são “Eles”, que “matam”? De onde vem essa ameaça que aterroriza até uma cerimônia religiosa?
  • 3. Diagnosticar a “Doença” do Regime: Com base nas evidências, vamos dar um nome técnico à característica do governo que se baseia nessa prática de violência e intimidação.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é um Dossiê do Clima de Terror, onde vamos listar as evidências diretas do texto que apontam para a natureza do regime.

Dossiê: O Funeral de Herzog

  • Evidência 1 (O Medo Institucional): “a sociedade religiosa encarregada do funeral, aterrorizadaapressou a cerimônia“.
    • Análise: O medo não é apenas pessoal; ele atinge até as instituições (uma sociedade religiosa), forçando-as a quebrar seus próprios rituais.
  • Evidência 2 (A Presença do Aparato Repressivo): “Quatro jornalistas que estavam presos no DOI chegaram para assistir”.
    • Análise: O DOI-CODI era um dos principais órgãos de repressão e tortura da ditadura. Sua menção situa o evento diretamente no coração do aparato repressivo.
  • Evidência 3 (A Confissão da Violência): “Um se afastara, chorando. Dizia: Eles matam, eles matam! Não podemos dizer nada. Eles matam mesmo.
    • Análise: Esta é a confissão explícita. “Eles” são os agentes do regime. A violência não é acidental, é uma prática sistemática. O silêncio é imposto pela ameaça de morte.
  • Evidência 4 (O Protesto): O discurso de Ruth Escobar (“Até quando vamos suportar tanta violência?”) e a citação de Audálio Dantas (“Tanto horror perante os céus”).
    • Análise: Mesmo em meio ao medo, surgem vozes de resistência que nomeiam o problema: violência e horror.

Este dossiê pinta um quadro inequívoco de um Estado que usa a violência, a prisão e o assassinato como ferramentas políticas para silenciar a oposição.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a uma conclusão inevitável. O medo descrito no funeral não é um medo vago de um criminoso comum. É um medo específico, direcionado a uma entidade poderosa e organizada: o próprio Estado. A presença de presos do DOI, um órgão oficial do governo, e a frase “Eles matam” deixam claro que a repressão não era um ato isolado, mas uma política de Estado.

O regime não apenas desaprovava a oposição; ele havia criado todo um sistema, com órgãos (DOI), regras e práticas (prisão, tortura, assassinato) para esmagá-la. Isso é o que significa “institucionalizar mecanismos repressivos”: transformar a repressão em parte do funcionamento normal do governo. O objetivo era claro: “eliminar os focos de resistência”, como jornalistas, artistas e políticos de oposição.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui pode ser a alternativa (D) “Adoção de cerimoniais públicos para controlar as manifestações”. O aluno pode ler sobre um funeral (um cerimonial público) e pensar que o governo o organizou para controlar a oposição. O erro é uma inversão de lógica. O governo não adotou o cerimonial; ele o reprimiu. A cerimônia foi apressada pelo medo do controle, não como uma forma de controle pelo regime.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação demonstra que o evento descrito é um sintoma de um sistema político onde o Estado utiliza aparatos de violência organizados e oficiais para perseguir, silenciar e eliminar cidadãos considerados opositores.
    • Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa característica de um Estado que oficializa e sistematiza a repressão como política para conter a dissidência.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil da característica do regime em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) Incorporação da estética popular para justificar o ideal de integração nacional.
O erro é Fuga ao Tema. O texto descreve um funeral, medo e violência. Não há nenhuma menção a cultura popular, estética ou integração nacional.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) Afirmação da estratégia psicossocial para favorecer o objetivo de propaganda cívica.
O erro é Fuga ao Tema. O texto fala de repressão física e direta (“Eles matam”), não de propaganda ou manipulação psicológica sutil para fins cívicos.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) Institucionalização de mecanismos repressivos para eliminar os focos de resistência.
Análise de Correspondência: Esta é a descrição técnica e precisa do cenário. “Mecanismos repressivos” (como o DOI), “institucionalizados” (oficializados pelo Estado) com o objetivo de “eliminar os focos de resistência” (jornalistas, artistas, etc.). A correspondência é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

d) Adoção de cerimoniais públicos para controlar as manifestações de grupos opositores.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é Inversão de Lógica. O regime não usou o funeral para controlar, mas sim o reprimiu e o intimidou.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) Estatização de meios de comunicação para selecionar a divulgação de atos governamentais.
O erro é Foco Incorreto. Embora a censura à imprensa fosse uma característica do regime, o texto foca na violência física e no medo da morte, uma forma de repressão muito mais direta do que o controle da mídia.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa C é a correta. O trágico funeral de Vladimir Herzog não foi apenas um evento isolado, mas uma janela para a alma de um regime que havia transformado a repressão em sua principal ferramenta de governança.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Naquele cemitério, o silêncio dos vivos era tão eloquente quanto a morte do homenageado, ambos orquestrados pela mesma mão de ferro do Estado.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo conceito de “institucionalização de mecanismos repressivos” é crucial para entender o funcionamento de Governança Algorítmica em regimes autoritários modernos. Países utilizam sistemas de “crédito social” e vigilância em massa (câmeras com reconhecimento facial, monitoramento online) como mecanismos institucionalizados para reprimir a dissidência. Em vez do DOI-CODI físico, existe uma infraestrutura digital que pune automaticamente cidadãos com notas baixas, restringindo seu acesso a viagens, empregos ou crédito. A ferramenta mudou da tortura física para o controle digital, mas a lógica de “eliminar os focos de resistência” através de um sistema oficializado pelo Estado permanece assustadoramente a mesma.

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