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Questão 70, caderno azul do ENEM 2022 D1

TEXTO I

Interseccionalidade: intercruzamento de desigualdades que gera padrões complexos de discriminação.

TEXTO II

Considerando o conceito apresentado no Texto I e os dados apresentados no Texto II, no Brasil, são fatores que intensificam o fenômeno da discriminação:

A) Raça e gênero.

B) Etnia e habitação.

C) Idade e nupcialidade.

D) Profissão e sexualidade.

E) Escolaridade e fecundidade.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Sociologia: Desigualdade Social, Gênero e Raça.
  • Conceito Chave: Interseccionalidade (Kimberlé Crenshaw).
  • Interpretação de Gráficos: Leitura de dados estatísticos do IBGE.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender como a sobreposição de diferentes marcadores sociais (cor da pele e sexo) cria camadas de vulnerabilidade que intensificam a pobreza, exemplificando o conceito de Interseccionalidade.

Nível da Questão: Fácil.

  • Justificativa: O aluno precisa apenas ler o gráfico e o texto. O Texto I define interseccionalidade (“intercruzamento de desigualdades”). O Texto II (gráfico) mostra que a barra maior (mais pobreza) pertence ao grupo “Mulher preta ou parda”. Logo, os fatores que se cruzam são “Mulher” (Gênero) e “Preta” (Raça). A resposta é visual.

Gabarito: A.

  • Resumo: O gráfico mostra que o grupo mais pobre no Brasil é o de mulheres negras (pretas ou pardas) sem cônjuge com filhos. Isso prova que a discriminação não é apenas por ser mulher ou apenas por ser negra, mas pela soma (interseção) de raça e gênero, criando um cenário de maior exclusão econômica.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Identificar os “ingredientes” da desigualdade.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Olhando para o gráfico, quais são as duas características que, quando juntas, deixam a pessoa mais pobre?”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um jogo de cartas.

Ter a carta “Mulher” já dificulta o jogo.

Ter a carta “Negra” também dificulta.

Quem tem as duas cartas ao mesmo tempo (Mulher + Negra) joga no modo “Hard”.

A questão quer o nome dessas duas cartas.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Olhar para a barra maior do gráfico (quem é mais pobre?).
  • Ler a legenda dessa barra: “Mulher preta ou parda”.
  • Traduzir “Mulher” para Gênero e “Preta” para Raça.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

PPara entender o conceito de Interseccionalidade, não basta saber a teoria, é preciso ver como ela funciona na prática. Vamos analisar os dados juntos.

🕵️‍♂️ Mentor (Detetive): Olhe para o gráfico (Texto II). Qual é o grupo geral que já sofre com a pobreza?
🧠 Aluno (Cérebro): As “Mulheres sem cônjuge com filhos”. Mais da metade (56,9%) está na pobreza.

🕵️‍♂️ Mentor: Certo. Isso mostra que o Gênero (ser mulher/mãe solo) é um fator de risco. Agora, o gráfico divide essas mulheres em dois grupos. O que acontece?
🧠 Aluno: As mulheres brancas têm 41,5% de pobreza. As mulheres pretas ou pardas têm 64,4%.

🕵️‍♂️ Mentor: Interessante. Ambas são mulheres. Ambas são mães solo. Por que a diferença é tão brutal (quase 23% a mais)?
🧠 Aluno: A única diferença entre elas é a cor da pele. Então deve ser o racismo.

🕵️‍♂️ Mentor: Exatamente. A mulher negra sofre duas opressões ao mesmo tempo: o machismo (por ser mulher) e o racismo (por ser negra). Esses dois problemas se cruzam e criam uma tempestade perfeita de exclusão. Qual é o nome desse cruzamento?
🧠 Aluno: Interseccionalidade.

Conceito Chave: A Matemática da Opressão
Na sociologia, a Interseccionalidade não é apenas somar preconceitos. É entender que Raça e Gênero funcionam como vias de uma estrada. Quem está no cruzamento (a mulher negra) é atingida pelo tráfego vindo de todas as direções.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos olhar o gráfico (Texto II):

  • Topo da Lista (Pior Situação): “Mulher preta ou parda sem cônjuge e com filho(s)” -> 64,4%.
  • Fatores Identificados:
    • “Mulher” = Gênero.
    • “Preta ou Parda” = Raça/Cor.
    • “Sem cônjuge com filhos” = Arranjo familiar (Maternidade solo).

Conclusão:
Os dados provam que a pobreza tem cor e sexo. Se você é mulher e negra, a chance de ser pobre é muito maior do que se você for apenas mulher (branca) ou homem. A discriminação é intensificada pela união de Raça e Gênero.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“Escolaridade e fecundidade”) pode confundir.

  • Por que seduz? Porque ter filhos (“fecundidade”) aparece no gráfico (“com filhos até 14 anos”).
  • Por que está errada? A questão pede os fatores que intensificam a discriminação dentro do recorte apresentado. O gráfico compara “Mulher Preta” com “Mulher Branca”. Ambas têm filhos. O fator que muda o número de 41% para 64% não é ter filhos (ambas têm), é a Raça. A escolaridade nem é citada no gráfico.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O gráfico separa as mulheres em dois grupos: brancas e negras. A diferença gritante nos dados de pobreza entre esses grupos mostra o peso da raça somado ao gênero.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter “Raça” e “Gênero” (ou sexo).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) Raça e gênero.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. O gráfico explicita a categoria “Mulher” (Gênero) e subdivide em “Preta ou parda” vs. “Branca” (Raça). A combinação desses dois fatores gera o maior índice de pobreza (64,4%), ilustrando o conceito de interseccionalidade.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) Etnia e habitação.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema do Gráfico.
    • Narrativa do Erro: O gráfico fala de “arranjo domiciliar” (quem mora com quem), não de condições de habitação (favela, asfalto, saneamento). Etnia é um conceito cultural, enquanto o IBGE usa “cor ou raça” (fenótipo).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) Idade e nupcialidade.
    • Diagnóstico do Erro: Foco Secundário.
    • Narrativa do Erro: “Nupcialidade” (estado civil) aparece em “sem cônjuge”, e idade dos filhos aparece (“até 14 anos”). Porém, esses fatores são constantes na comparação. O que diferencia e intensifica a discriminação no destaque do gráfico é a cor da pele (raça), não a idade da mãe.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) Profissão e sexualidade.
    • Diagnóstico do Erro: Inexistência de Dados.
    • Narrativa do Erro: O gráfico não traz dados sobre emprego/profissão nem sobre orientação sexual. Ele foca em estrutura familiar, gênero e raça.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) Escolaridade e fecundidade.
    • Diagnóstico do Erro: Ausência de Dados.
    • Narrativa do Erro: Embora a escolaridade influencie a pobreza, ela não está no gráfico. Fecundidade (ter filhos) está presente, mas, como vimos na armadilha, ela é igual para brancas e negras no recorte. O fator diferencial (a variável independente) é a raça.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A desigualdade no Brasil não é uma linha reta, é uma encruzilhada: o conceito de Interseccionalidade nos mostra que a pobreza atinge com força máxima quem está no cruzamento das opressões de Raça e Gênero (Alternativa A), revelando que a mulher negra é o pilar mais vulnerável da nossa pirâmide social.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
A pobreza tem rosto: é o rosto de uma mãe negra solo.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este dado é fundamental para políticas públicas. Não adianta fazer uma política só para “mulheres” ou só para “negros”. É preciso fazer políticas específicas para mulheres negras, pois elas enfrentam barreiras únicas que nem o homem negro nem a mulher branca enfrentam.

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