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Questão 69, caderno azul do ENEM 2024

Atribuo a causa desse florescimento estéril a um sistema de educação falso, extraído de livros sobre o assunto escrito por homens que, ao considerar as mulheres mais como fêmeas do que como criaturas humanas, estão mais ansiosos em torná-las damas sedutoras do que esposas afetuosas e mães racionais. O entendimento do sexo feminino tem sido tão distorcido por essa homenagem ilusória de que as mulheres civilizadas de nosso século, com raras exceções, anseiam apenas inspirar amor, quando deveriam nutrir uma ambição mais nobre e exigir respeito por suas capacidades e virtudes.

WOLLSTONECRAFT, M. Reivindicação dos direitos da mulher. São Paulo: Boitempo, 2016.

Nesse texto, escrito no século XVIII, a autora reivindica para as mulheres a

A) recuperação de sua participação política.

B) equiparação de ganhos salariais.

C) valorização de seu papel social.

D) distinção de padrões biológicos.

E) ocupação de cargos públicos.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
História Geral (Iluminismo e Primórdios do Feminismo).
Sociologia (Gênero e Papéis Sociais).
Interpretação de Texto (Identificação de Tese e Argumento).

Tema/Objetivo Geral:
Analisar um texto clássico do século XVIII (Mary Wollstonecraft) que critica a educação voltada apenas para a futilidade e submissão feminina, reivindicando que a mulher seja reconhecida como um ser racional e capaz, e não apenas como um objeto decorativo ou reprodutor.

Nível da Questão
Médio.
Embora o texto seja claro, o aluno pode cair em anacronismos (erros de tempo), buscando reivindicações modernas (como salário ou voto) que, embora façam parte da luta feminina geral, não estão presentes neste trecho específico de 1792.

Gabarito
Letra C.
A autora argumenta que a educação da época reduzia a mulher à condição de “fêmea” (biológica) e “dama sedutora” (enfeite), impedindo-a de desenvolver suas “capacidades e virtudes” (potencial humano e racional). Portanto, ela pede uma ressignificação e valorização do papel da mulher na sociedade.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão pergunta: “O que essa mulher do século XVIII está pedindo?”.
Ela está pedindo para votar? Para ganhar dinheiro? Ou ela está pedindo algo mais básico, como respeito intelectual?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você tem um computador superpotente, mas só usa ele para jogar “Paciência”.
Alguém chega e diz: “Isso é um desperdício! Esse computador pode fazer cálculos complexos, pode criar coisas incríveis. Parem de tratá-lo como um brinquedo!”.
Mary Wollstonecraft está dizendo isso sobre as mulheres. A sociedade da época tratava a mulher como “brinquedo” (dama sedutora). Ela grita: “A mulher tem cérebro (razão)! Deixem ela usar!”. O desafio é identificar que ela quer mudar a função/papel que a sociedade deu à mulher.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. O Diagnóstico: Ler o que ela critica (“sistema de educação falso”, mulher vista como “fêmea”).
  2. O Remédio: Ler o que ela propõe (“ambição mais nobre”, “exigir respeito por suas capacidades”).
  3. A Tradução: Converter “exigir respeito” em “valorização do papel social”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta do Espelho do Iluminismo.

Mary Wollstonecraft escreve no auge do Iluminismo (Século das Luzes). A palavra mágica dessa época é RAZÃO.

Tabela: A Mulher no Século XVIII vs. A Mulher que Mary Quer

Visão Tradicional (Crítica) Visão Proposta (Reivindicação)
Foco: Beleza, Sedução, “Inspirar Amor”. Foco: “Capacidades e Virtudes”, “Mães Racionais”.
Definição: “Mais fêmea” (Biológico/Instintivo). Definição: “Criatura Humana” (Racional/Intelectual).
Papel Social: Decorativo e Submisso. Papel Social: Valorizado e Ativo.

Conceito-Chave:
Educação Libertadora: Para a autora, a raiz da opressão não era natural, mas educacional. As mulheres pareciam fúteis porque eram ensinadas a ser fúteis.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o texto:

  1. A Causa do Problema: “Sistema de educação falso”. Ela não culpa as mulheres, culpa o sistema criado pelos homens.
  2. A Redução: Os homens consideram mulheres “mais como fêmeas do que como criaturas humanas”.
    • Isso significa reduzir a mulher ao corpo/sexo, ignorando a mente/alma.
  3. A Distorção: Elas são ensinadas a serem “damas sedutoras” e a “apenas inspirar amor”.
  4. A Reivindicação (O Pote de Ouro): Elas deveriam “nutrir uma ambição mais nobre e exigir respeito por suas capacidades”.
    • Se eu exijo respeito pela minha capacidade (não só pela minha beleza), eu estou pedindo uma nova valorização do meu papel na sociedade. Eu quero ser útil, não apenas agradável.

Síntese:
O texto é um manifesto contra a “coisificação” da mulher e a favor da sua humanização racional.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com as alternativas A (Participação política) e B (Ganhos salariais).
Essas são pautas feministas? Sim!
Elas estão no texto? NÃO!
Isso é um Anacronismo ou Extrapolação. No século XVIII, a luta ainda era para provar que a mulher tinha alma racional e podia estudar. O voto (sufrágio) e a igualdade salarial são pautas que ganhariam força nos séculos XIX e XX. Atenha-se estritamente ao que está escrito no fragmento: educação, virtude, respeito e razão.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A autora critica a educação que limita a mulher à esfera da sedução e da biologia, reivindicando que ela seja reconhecida e respeitada como um ser racional e virtuoso, capaz de contribuir intelectualmente para a sociedade.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre reconhecimento, respeito, papel na sociedade, intelecto ou educação.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) recuperação de sua participação política.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação (O texto não fala disso).
  • Análise: Wollstonecraft até defendia direitos civis em sua obra completa, mas neste trecho, o foco é moral e educacional (“esposas afetuosas”, “mães racionais”). Ela não fala de voto, parlamento ou leis aqui.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) equiparação de ganhos salariais.

  • Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Tema moderno).
  • Análise: A discussão sobre “mercado de trabalho” e “salário igual” é típica da Revolução Industrial avançada e do século XX. No século XVIII, o foco era a dignidade humana básica e a educação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) valorização de seu papel social.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Valorização: “Exigir respeito”.
  • Papel Social: Deixar de ser apenas “dama sedutora” (papel fútil) para ser “criatura humana” com “capacidades e virtudes” (papel nobre e útil).
  • A autora quer que a sociedade dê valor à mente da mulher, não só ao corpo.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

D) distinção de padrões biológicos.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Análise: A autora critica justamente quem foca na biologia (“considerar as mulheres mais como fêmeas”). Ela quer superar o padrão biológico para alcançar o padrão racional/humano. Ela quer igualdade na razão, não distinção na biologia.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) ocupação de cargos públicos.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
  • Análise: Assim como na letra A, isso não está no texto. Ela fala de ser “esposa afetuosa e mãe racional”, focando na esfera privada e educacional como base para a dignidade, não em cargos de governo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa C é a correta pois reflete o cerne do pensamento de Wollstonecraft: a mulher não nasce inferior, ela é tornada inferior por uma educação que nega suas virtudes intelectuais; logo, a solução é valorizar seu papel social através da razão.

Resumo-flash:
Menos enfeite, mais cérebro: a mulher é um ser racional.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Mary Wollstonecraft é a mãe de Mary Shelley (autora de Frankenstein). Tal mãe, tal filha: ambas desafiaram as convenções de que mulheres não podiam produzir pensamento de alta qualidade. O texto de Wollstonecraft é a pedra fundamental do que hoje chamamos de Feminismo Liberal, focado na educação e na igualdade de direitos civis.

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